Lieber Armando,
Concordo plenamente contigo sobre a questão do barulho. Na tua lista de torturas sonoras faltou mencionar o escapamento aberto de motocicletas, o popular “só o cano” ou “diretão”. Na prática: quanto pior a moto, mais barulho. E quanto às motos de velocidade, caras e potentes, deveriam estar em pistas de corrida e não em ruas com crianças e pessoas nas calçadas. Não é possível que eles achem estar agradando! Na prática: quanto mais chinelo o motorista, mais barulho! E não só motos, carros também! Quanto mais bagaceira o motorista, mais barulho! Essa verdadeira aberração é um sintoma de que muitos homens têm sérios e profundos problemas psicológicos e de autoestima. Estão completamente perdidos, mas acham que estão agradando. Jamais vi uma mulher pagando esse mico.
Quero insistir neste ponto que a tua carta me inspirou. A dignidade não está no modelo ou na potência do veículo, mas na postura do condutor. O barulho agressivo dessas motos – e de alguns carros também – expressa uma violência das mais covardes, porque não permite defesa e afeta a todos indistintamente.
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Em 2024, eu apresentei para algumas autoridades uma proposta de ação, com a indicação das normas aplicáveis e sugestões de providências concretas como batidas e inspeções, uma vez que eu estava passando muito tempo em cidades do interior, como Santa Cruz e Venâncio, e constatava de perto essa bagunça de mau gosto. Destino: gaveta! O pessoal de Porto Alegre parece às vezes viver num mundo à parte, ignorando ou até mesmo subestimando a vida no interior, sem falar na falta de inteligência para instruir e de coragem para agir. Uma vergonha não apenas desses motoristas mal-resolvidos, mas também das autoridades que se omitem.
Conversando com meu amigo Moisés Bauer, que é secretário-geral da Associação Mundial de Cegos, ele me disse que a poluição sonora, em especial a de uma moto acelerando com o escapamento sem abafador, é como uma agressão direta às pessoas em geral, mas que machuca de um modo especialmente cruel as pessoas com algum grau de autismo e desorienta perigosamente as pessoas com baixa visão, sem falar nas lesões ao tímpano! Será que esses caras não entendem que essa babaquice pode causar surdez?!?
Quando morei em Münster, no final de 2013, assisti a um documentário sobre um grupo de amigos que comprou um terreno a fim de construir ali a sede de um Opel Club. Acontece que o terreno ficava bem na curva de uma estrada regional, oferecendo riscos, de modo que o funcionário público responsável por avaliar o pedido negou a autorização. O pessoal recorreu, fez barulho, foi à imprensa, acusou a burocracia alemã… um circo. Enquanto assistia, pensava: ah, com essa mobilização toda, eles vão reverter a decisão. Não. Não reverteram. Tiveram que comprar outro terreno, desta vez, adequado e sem riscos. Era a minha mentalidade brasileira que soprava baixinho que eles reverteriam fazendo pressões. Assistir àquele documentário foi uma das experiências mais marcantes na minha adaptação à vida na Alemanha.
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O que é correto, é correto! Não tem jeitinho. E um funcionário público deve defender o que é correto. E esse funcionário será blindado por seus superiores para cumprir seu dever. Quem ganha é a sociedade, ainda que um grupo específico esperneie. Enquanto isso, por aqui, os covardes do escapamento aberto circulam livremente com as bênçãos vergonhosas de autoridades omissas.
Um forte abraço!
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