Por Rafael Koerig Gessinger
Lieber Armando,
Se o padrão da festa punk em Sylt para a qual estás me convidando for aquele senhor barrigudo que toma conta do vídeo de divulgação, então eu passo. Bons tempos em que a rebeldia da juventude andava lado a lado com a beleza, como vi há alguns dias, com grande prazer, no filme Das wilde Leben (2007), que conta a biografia da modelo Uschi Obermaier. Was für eine hübsche, kluge und starke Frau! Aliás, as filhas do tio Hubert, quando nos visitaram em São Leopoldo, lá por 1982, tinham um pouco dessa pegada, concordas? Eu era muito pequeno, mas a impressão que a Sabine me deixou foi de uma mistura de doçura com força que não era muito comum por aqui.
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Quero te agradecer pela indicação do filme Contra (2020), que me fizeste há algum tempo, mas que só esta semana consegui ver. Falar com sensibilidade e leveza da integração na Alemanha de pessoas cujas famílias falam árabe e têm fé islâmica sem cair em clichês ou extremismos não é tarefa fácil. Gostei muito, principalmente porque o filme não se deixou tragar pelo vitimismo de nenhum lado. Minha interpretação é que a postura da Naima, ao respeitar a estrutura clássica de formação ancorada na universidade e ao alinhar-se aos valores do rigor do estudo e da responsabilidade profissional, contribui para a diminuição dos preconceitos e fortalece a inclusão. Como consta na epígrafe do filme, “Das Ziel einer Auseinandersetzung sollte nicht der Sieg sein, sondern der Fortschritt.”* Compreender com grande caridade o ponto de vista dos outros, sobretudo dos adversários numa discussão, é a chave mágica para um efetivo aperfeiçoamento. Depois, fiquei sabendo que esse filme alemão é uma refilmagem proposital do original francês, Le Brio, de 2017, com o ótimo Daniel Auteuil.
Outro filme que aborda esse delicado tema da imigração chama-se 23.000 Leben (2026), do diretor Markus Goller. Além da trama ser ótima, o filme me ajudou a entender um pouco melhor a geração que está assumindo gradativamente o protagonismo político, cultural e econômico. Como o roteiro é baseado em fatos acontecidos na Europa e na África entre 2014 e 2024, considero esse filme um item obrigatório e, isso, não apenas pelos temas da imigração e da dignidade da vida humana, mas também por causa de uma estratégia asquerosa que algumas lideranças usam para tirar de cena atores legítimos que, no entanto, contrariam seus interesses. Quando uma autoridade abre um processo, seja administrativo, seja criminal, seja civil, sabendo que não tem fundamento, mas com o mero objetivo de tirar de cena um oponente, ela está cometendo uma das maiores traições que se possa imaginar ao bem comum. Correndo o risco de te antecipar algo importante, caso não tenhas visto o filme: a turma do barco Iuventa gastou meio milhão de euros com sua defesa e teve, obviamente, que suspender suas atividades. E tendo razão o tempo inteiro.
Para fechar minhas impressões sobre o cinema contemporâneo de língua alemã, e não penses que a saga do nosso Heinrich não tenha a ver com isso, quero te recomendar o filme Ein ganzes Leben (2023), baseado no romance homônimo de Robert Seethaler. Uma vida inteira, um sopro. E aqui estamos.
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Um forte abraço! Liebe Grüße!
* “O objetivo de uma discussão não deveria ser a vitória, mas o progresso.”
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