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LIVRO/LANÇAMENTO

Eunice Piazza Gai traduz a vida em poesia em “Furtivos olhares sobre a existência”

Foto: Rodrigo Assmann

Sentimento: professora e escritora Eunice Piazza Gai lança o seu primeiro livro de poesia

A professora aposentada Eunice Piazza Gai, que cumpriu boa parte de sua trajetória acadêmica vinculada à Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), compartilhou com os leitores, tanto os seus alunos quanto o público em geral, diversos ensaios referenciais. Nessas obras, evidenciou em especial sua predileção e sua admiração por autores como Montaigne, Cervantes e Machado de Assis, entre nacionais e estrangeiros, esforço que a levou à Academia de Letras de Santa Cruz do Sul, na qual ocupa a cadeira no 13, cujo patrono é o alemão Maximilian Beschoren. Agora, afastada de salas de aula e de funções de coordenação, chega às livrarias com nova incursão autoral: pela poesia.

Na última semana, saíram da gráfica os exemplares de Furtivos olhares sobre a existência, conjunto de poemas que elaborou ao longo dos anos e que guardava e revisava com paciência e carinho. Aguardou pelo momento em que se distanciaria das atividades docentes e das investigações de pesquisa em letras e literatura para, então sim, investir nessa sua produção no gênero poético.

O livro traz o selo da Bestiário, do editor Roberto Schmitt-Prym, de Porto Alegre, com 102 páginas, e poderá ser adquirido em livrarias físicas e virtuais, inclusive o site da editora. Por sinal, Prym, profundo conhecedor de poesia, em particular da clássica japonesa, assina o prefácio.

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Para o público, em especial para ex-alunos de Eunice, fica a alegria de testemunhar a mestre, exímia na investigação racional de textos clássicos da literatura mundial, mirar com olhar afetuoso, emocionado, a vida e seu entorno. Mas nem por isso menos comprometido com as causas maiores da condição humana e da sociedade.

É uma bagagem que reuniu ao longo de sua caminhada de formação. Eunice nasceu no dia 6 de agosto de 1952, há 74 anos, em Sarandi, município de quase 25 mil habitantes situado na região missioneira, no Alto Uruguai. Após os estudos iniciais, na hora de definir-se por graduação, apostou em Letras, que cursou na Faculdade Porto-Alegrense (Fapa). Em 1985, iniciou sua relação com as antigas Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul (Fisc), atual Unisc, lecionando em cursos de férias. Fez ainda o mestrado, transferindo-se então para a UFSM, e logo depois doutorado, na PUCRS, além de outras especializações.

Em 1997 retornava à Unisc, para contribuir na expansão dos cursos de Letras, na implantação do mestrado e do doutorado, junto aos quais lecionou por 25 anos, até 2022. Obras como Sob o signo da incerteza: o ceticismo em Montaigne, Cervantes e Machado de Assis, lançada em 1997 pela editora da UFSM, permanecem na condição de leitura indispensável para todos nas áreas de letras e literatura. A esse acervo agora se junta o seu mergulho autoral na poesia, numa apreciação íntima da vida.

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Para ler

FURTIVOS OLHARES SOBRE A EXISTÊNCIA, de Eunice Piazza Gai. Porto Alegre: Bestiário, 2026.
102 p. R$ 48,00.

Com exclusividade, três poemas de Eunice

Reminiscências

O passado aponta sobre a poeira que o encobria.
Espessa camada de pó, cinza escuro,
Enterrando pequenas lembranças, pessoas,
Rotundos passos compassados,
Distanciados no tempo.
Pena, é curto o espaço para o esquecimento!
Poucas palavras, atos praticados, registros ao léu.
Poesias!
Reles arte do cotidiano tecendo a vida.
Afinal, de que se faz a vida?
Destes pequenos atos e fatos cotidianos
Que uma mão invisível apaga, apaga
E que, em tempos, ressurge,
Riscando a memória de sangue?
O passado é realidade
Ou um fantasma jocoso
Que às vezes saltita diante do agora?

Assombrações

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O tempo assombra os espaços
Que outrora luziam com fulgor.
Fantasmas ignotos perpassam, em passos
Sutis, as noites escuras e inquietas.
Sopram ventos soantes nas árvores
Anciãs. Quem virá? O que virá?
Arrepios, temores, ardores, medos
Penetram o corpo e a mente daqueles
Que habitam a sólida mansão.
São os braços e as mãos do tempo
A esculpir os fantasmas no agora.
Uma beleza ancestral persiste no ar,
Mas se ferem os membros atuais
Inadaptados aos sulcos e abruptos do ontem.

O olho de Hamlet

As coisas, por si sós,
Não têm sentido algum.
Apenas repousam em seus cantos.
Semi-dormentes, quase inertes.
Mas o meu olhar,
O teu olhar
Pode despertá-las
Desse sono letárgico,
Absurdo?
E conceder-lhes a vida
Que merecem
E de que precisamos.

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“São poemas escritos ao longo de toda a vida”

É do poeta português Nuno Júdice (1949-2024) que a escritora e professora Eunice Piazza Gai empresta uma frase para adotar como epígrafe de seu primeiro livro de poesia, Furtivos olhares sobre a existência: “Às vezes, um verso transforma o modo como se olha para o mundo”. É esse exercício que a obra, em seu conjunto, propõe: a tomada de consciência, abertura de uma janela que, uma vez tendo permitido mirar para além dela, muda a compreensão da condição humana.

De efetivo, essa reflexão é apoiada em quatro pilares, que conformam as quatro partes do volume: “Poesia”, com seis poemas ocupados em “pensar”, até onde isso seja necessário em uma investigação poética, a essência desse gênero; “Natureza”, em cujos 11 poemas flagra a magia e os encantos de um meio ambiente frágil, e no entanto soberano em seus ciclos inevitáveis; “Ironias”, a mais extensa das seções, com 21 poemas nos quais transparece a inclinação da autora para a escola do ceticismo, e na qual “Resiliência” e “Niilismo” surgem como uma síntese de sua visão de mundo; e, por fim, “Transcendências”, justamente evidenciando no título a energia que emana dos 13 poemas, tendo em “Mitigações” e em “Comunhão” uma mensagem que convida a eleger o bem.

O também poeta Roberto Schmitt-Prym, no prefácio, identifica na poesia de Eunice esse aceno a, lendo os versos dela, refletir sobre o estado das coisas, no íntimo de cada um e também no contexto social. É na pessoa que transformações podem e devem ocorrer. “Não oferece respostas prontas nem procura acomodar o leitor em certezas. Ao contrário: convida-o a caminhar lentamente pelos territórios da dúvida, da contemplação e da descoberta”, frisa Prym.

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O autor ainda ressalta que, embora sejam de pleno lirismo, em sintonia com a melhor tradição de diferentes épocas, os versos de Eunice forjam um diálogo entre poesia e pensamento. Na primeira, o encantamento e a emoção de um eu lírico que se deixa tocar pelas experiências; no segundo, o conhecimento que delas advém, pelo pensamento, pela reflexão.

A carga de leituras de Eunice transparece em autores em relação aos quais evidencia sua admiração: do brasileiro Drummond aos estrangeiros Florbela Espanca, Maiakóvski, Goethe, Kierkegaard, Shakespeare e Sêneca (este forte presença), além dos mestres japoneses do haicai que Prym bem conhece (e traduz). Em todos eles, uma ação que é a mesma que Eunice desvela, e que o prefácio cita: o mérito de não esconder as fragilidades da condição humana. E de não só não escondê-las: nelas também encontrar beleza, que os versos eternizam.

Entrevista

Eunice Piazza Gai
Escritora e professora

Em sua produção escrita, a senhora publicou vários e importantes ensaios e artigos. Como a poesia surgiu nesse contexto?
Escrevi, organizei e publiquei alguns livros e também escrevi inúmeros ensaios e artigos considerados científicos pelos parâmetros acadêmicos. Todos esses escritos resultaram de estudos e pesquisas, a maioria, de longa duração, como os projetos de mestrado, doutorado, pós-doutorado, além daqueles com temas específicos, direcionados à concepção de disciplinas e seminários com vistas à docência. A par disso, exerci vários cargos administrativos, por muitos anos. Nesse contexto, de atividades múltiplas, reflexões teóricas, responsabilidades, não deveria haver espaço para a poesia. E, no entanto, ela sempre esteve aí, só que de modo clandestino, fora de propósitos ou planejamentos, em situações e contextos inusitados. A poesia surge para mim apenas quando algo se manifesta em uma determinada circunstância, seja uma ideia, uma reflexão, um sentimento, uma emoção.

De que época e em que circunstâncias foram elaborados os poemas agora reunidos em seu primeiro livro nesse gênero?
Os poemas reunidos neste livro foram escritos ao longo da vida toda, em diferentes momentos, com diferentes idades, alguns, mais antigos, outros, bem recentes, uma vez que continuo a exercer essa atividade. Escrevi-os sempre em qualquer papel que estivesse a meu alcance, mas nunca pensei em publicar, apenas os depositava, em estado bruto, em várias pastas. Após minha aposentadoria, resolvi visitar esse espólio e julguei que havia muitos poemas merecedores de atenção. E assim foi: reli, revivi a emoção que os originou, aparei algumas arestas, poli um ou outro verso, não exatamente com a intenção explícita de publicá-los, pois sempre considerei que a peregrinação para publicar um livro de poesia é um tanto exaustiva. A motivação e a consequente seleção dos poemas desse livro ocorreram a partir da minha entrada na Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.

O que a poesia permite dizer ou expressar, em relação ao ensaio ou a outros tipos de texto? Como ela se apresentou em sua vida?
O ensaio pode ser poético, embora, normalmente, não seja escrito em versos. Textos filosóficos de Nietzsche ou de Cioran, por exemplo, são poéticos, mas também não são escritos em verso. Temos na tradição literária inúmeros textos de prosa poética, de cartas, como as de Rilke, que consideramos poéticos. Menciono isso porque é muito difícil definir ou explicar o que é a poesia. Para mim, ela é o gênero que permite maior liberdade de criação. É o gênero da liberdade e da leveza. E não vou resistir à tentação de referir o relato de Sócrates em que ele constata que os poetas não sabiam nada a respeito do que faziam, do seu ofício, porque agiam sob inspiração de um deus, como os vates e os adivinhos.

Que temáticas a senhora apontaria como as centrais em sua produção poética? O que a senhora busca transmitir ou expressar?
Em primeiro lugar, preciso assinalar que os meus estudos teóricos aos quais dediquei tanto tempo não são algo separado ou distante da minha escrita poética. Ao contrário, eles, de certa forma, balizam a minha sensibilidade poética e os meus julgamentos. Além disso, perscruto indefinidamente os mistérios da poesia, da inspiração e da palavra. A natureza tem o poder de revolver meus estados de ânimo, por isso busco sempre uma conexão com ela. No mais, empenho-me em observar o mundo e os meus semelhantes, seja de um ponto distanciado, seja de seu centro, ou a seu lado, e me impressiona a agitação e o caos a que estão condicionados. Por isso, eu diria que, através da poesia, eu procuro entender o mundo, construir um sentido, claro, não sem um pingo de ironia e uma dose de ceticismo.

A senhora também sempre foi leitora de poesia. Quem, nesse caso, são seus autores ou suas obras que mais a influenciaram?
Eu leio poesia desde sempre. Na adolescência cheguei a fazer versos e já lia muito. Mas foi na graduação em Letras e depois no mestrado, que fui desafiada a penetrar mais profundamente no universo da poesia, pelas professoras Regina Zilberman e Tânia Franco Carvalhal, respectivamente. Sobre poetas/poetisas que me influenciaram, diria que, essencialmente, Fernando Pessoa, a quem dediquei muitos estudos e várias publicações, mas também Carlos Drummond de Andrade, Jorge Luis Borges, Maiakovski, Florbela Espanca, Cecília Meireles, Wislawa Szymborska, Camões. Impossível identificar todas as influências.

Por que se deve ler poesia, nesses tempos, ou em todos os tempos?
Eu não diria que se deve ler poesia. Que se precise, talvez. Mas tenho refletido acerca desse fenômeno contemporâneo que é a presença da poesia em múltiplos espaços. Nunca se escreveu e publicou tanta poesia. Parece, mesmo, que há muitos leitores. Eu penso que não é só de médico e de louco que todo mundo tem um pouco. De poeta, também. O estado de poesia é inerente ao ser humano, que se extasia diante de alguma beleza. Mas os motivos que levam a esse estado variam de pessoa para pessoa. E as exigências em termos de qualidade dos poemas, também.

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