No início deste ano, tivemos uma série dedicada ao Nome da Rosa, de Umberto Eco. Um livro que me marcou para além da sua trama e das suas palavras. Tive a oportunidade de visitar a Sacra di San Michele, o mosteiro que teria inspirado a ambientação do romance. Construída isolada, em total simbiose com a montanha, no Vale de Susa, foi como mergulhar nas páginas do livro e me projetar para o século XIV.
Dito isso, durante a nossa viagem pela Toscana, nos deparamos com um outro mosteiro de tamanha grandiosidade. Mas, diferentemente da Sacra di San Michele, este parece ter sido esquecido por muito tempo. E realmente foi: há poucos anos que se iniciou o trabalho de promoção de um turismo qualificado na Abadia de San Galgano.
Um lugar singular, em meio às colinas toscanas e aos campos de girassóis. O impressionante é que não tem teto, ainda que as suas paredes gigantes tenham permanecido de pé. Ficou assim conhecida como a “Abadia sem teto” e, por essa razão, recebe os visitantes que desejam ver com os próprios olhos este fenômeno.
Publicidade
Isso me fez refletir sobre como cada lugar tem a sua história, as suas camadas e os seus segredos. A paisagem jamais se limita ao que os nossos olhos veem. O curioso é aquele que cava a superfície da primeira impressão e encontra os verdadeiros tesouros da sua viagem. E, assim como um bom livro ou um bom vinho, os lugares merecem ser apreciados. Meditar e refletir, para ir além. Não ser passivo diante das experiências.
Por essa razão, decidimos entender: qual seria o mistério por trás daquela estrutura? Por que o seu teto teria caído? Abraçamos a oportunidade de participar do tour arqueológico, que explicou cada detalhe desta história.
A lenda de San Galgano nos leva de volta a 1148, nos arredores de Siena. Antes de ser santo, ele se chamava Galgano Guidotti. Vinha de uma família nobre e, desde jovem, seguia uma vida de cavaleiro, de prazeres e diversão. Até receber as visões do arcanjo San Michele, que o convenceu a abandonar a vida de cavaleiro para se dedicar a Deus.
Publicidade
Assim, partiu com o seu cavalo em busca do lugar da sua visão, onde deveria construir uma igreja. Cavalgou até que, em um determinado momento, o cavalo não seguiu mais adiante. E ali, onde o cavalo parou, Galgano entendeu que estava o lugar da sua visão. Narra a lenda que chegou à colina de Montesiepi e que, para encerrar o seu ciclo de guerras, violência e arrogância, pegou a sua espada e a fincou dentro da rocha. Ao redor dela foi construída uma igreja redonda, que se pode visitar, exatamente como nós fizemos. Guarde esta cena, porque voltaremos a ela.
Ele morreu em 1181 e, em 1185, foi canonizado. O que é um dado singular: a canonização foi realizada rapidamente, assim como a de San Francesco. Isso permitiu que a Igreja tomasse o controle das terras que contavam a história do santo e construísse ali uma igreja em sua homenagem, rodeada pelo pântano que constitui o terreno.
A tarefa coube aos monges cistercienses, especializados em transformar terreno pantanoso em terreno habitável. Foram eles que se ocuparam da construção do convento de San Galgano. Eram também homens muito inteligentes e intelectuais: arquitetos, advogados, médicos de alto nível.
Publicidade
Uma região envolta em mistérios milenares
O lugar era estratégico também do ponto de vista militar, pois se encontrava próximo a Siena, potência da época, rico em recursos e perto do rio. Todos os fatores necessários para a prosperidade. Foi, inclusive, abadia muito rica e autossustentável.
Até que chega a peste, e o cenário muda totalmente. Muitas mortes, muitas perdas econômicas, saques e o início da sua crise. Depois dela, até tentaram reconstruir e retornar ao que San Galgano era antes, mas isso nunca aconteceu. O controle da abadia foi parar nas mãos de pessoas que não estavam interessadas em manter a estrutura e visavam apenas o lucro. E, pouco a pouco, sem reestruturação e sem cuidado, a sua destruição foi acontecendo.
Em uma noite de forte tempestade, a torre do sino caiu, levando consigo grande parte do teto. Mais tarde, como a estrutura principal já não se sustentava, o restante também desmoronou. E assim chegou ao que é hoje. Uma consequência não apenas do tempo, mas do abandono.
Publicidade
Mas, se pudermos imaginar tudo decorado, bem cuidado, com afrescos azuis e vermelhos como foi um dia, podemos revisitar a grandeza de San Galgano. Hoje permanece de pé apenas o seu esqueleto. E claro, a sua memória e a sua história, enquanto continuarem a ser contadas.
Aqui voltamos à espada. A cena do cavaleiro que finca a lâmina na rocha para renunciar à violência não terminou em Montesiepi: atravessou os Alpes. Foi San Galgano que inspirou o episódio mais famoso do ciclo do Rei Arthur, a espada na rocha. Estudos metalúrgicos comprovaram que a espada da capela de Montesiepi é do século XII, anterior aos primeiros registros literários da espada mágica de Arthur na França e na Grã-Bretanha. A lenda que aprendemos como britânica nasceu nas colinas toscanas.
É um lugar como a Sacra di San Michele, com energia única. A luz do sol entra em meio às ruínas e devolve a grandiosidade do passado. À noite, o teto descoberto abre espaço para as estrelas no céu límpido. Para quem é fã do Rei Arthur, ou de Eco, ou simplesmente para quem gosta de visitar lugares repletos de mistério, fica a minha indicação.
Publicidade
Quer receber notícias de Santa Cruz do Sul e região no seu celular? Entre no nosso novo canal do WhatsApp clicando aqui. Ainda não é assinante Gazeta? Clique aqui e faça agora!