“Eu sempre tive a vontade de escrever sobre a história da minha avó, mas como a minha avó sempre foi uma mulher pública e reconhecida por todo mundo em Sobradinho, escrever uma biografia não era o que eu queria, porque cada um a enxerga de um jeito. Alguns enxergam a parteira, outros a vereadora, a comadre, enfim, têm muitos jeitos que as pessoas da comunidade local e regional a conhecem ou conheceram.”
Foi a partir dessa percepção que surgiu em Giana Diesel Sebastiany a ideia de transformar as memórias da avó Hulda Augusta Müller Sebastiany em um romance histórico, com uma base em fatos reais, mesclada com alguns elementos ficcionais. Em “A História entre Botões”, a autora reúne lembranças familiares, pesquisas históricas, afetos e fragmentos de histórias de mulheres de diferentes gerações. Para construir a narrativa, ela optou por substituir os nomes dos personagens e também recorreu à licença poética para criar vínculos e abordar questões sobre as quais hoje já não tinha clareza ou a quem recorrer para obter respostas.

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O projeto do livro começou há algum tempo, mas com mais ênfase há dois anos. Giana conta que passou a reunir fotografias antigas, anotações deixadas pela avó, como livros de registros dos partos realizados, e histórias contadas pelo pai, o médico Gilson Sebastiany. “Me lembro que ficava atrás dele, em um período de férias, ‘perseguindo-o’, e ele me contando sobre memórias da vó e eu ia anotando. Fui guardando esse material e formando um enredo na minha cabeça de como seria.”
A decisão de efetivamente publicar o livro ganhou um significado ainda maior quando o pai de Giana adoeceu, no início de 2026. Enquanto ele passava por exames e tratamentos no hospital onde ela atua, em Santa Cruz do Sul, Giana conciliava a rotina e a presença ao lado dos pais. “Quando o meu pai adoeceu, que ele começou a fazer os tratamentos, eu fazia as minhas atividades durante o dia e, à noite, ficava com eles no hospital. E aí eu decidi escrever o livro para que o pai pudesse ler, e ele foi a primeira pessoa que leu. Ainda não era a versão final, mas ele conseguiu ler, se emocionou bastante e me disse que tinha que ser publicado.”
Gilson Sebastiany faleceu em junho de 2026. Mesmo em meio à saudade, Giana fez um esforço para concluir e publicar a obra. Antes do lançamento, encaminhou o texto a colegas e outras pessoas de confiança para avaliar se a história ultrapassava o âmbito familiar e poderia fazer sentido também para outros leitores. “Tive o parecer de algumas pessoas que eu encaminhei para ler, para ver se não era só um sentido familiar ou se ele tinha sentido para as outras pessoas também”, revela a autora.
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O lançamento ocorreu no dia 20 de agosto, na Casa das Artes Regina Simonis, em Santa Cruz do Sul, município onde Giana reside e atua há cerca de três décadas. A programação foi realizada em meio a uma exposição de arte e contou com sessão de autógrafos, coquetel de boas-vindas e bate-papo com a autora. A sobradinhense também pretende lançar a obra na 30ª Feira do Livro de Sobradinho, em novembro.

Entre gerações
“A História entre Botões”, conforme a autora, começa, com personagens fictícios, aproximadamente em 1921 e chega aos dias atuais. O fio condutor da narrativa é justamente uma gaveta de botões que pertencia à avó de Giana, Hulda, na história retratada como Augusta. Quando criança, Giana tinha fascínio pela coleção. A avó costurava roupas para o hospital e também chegou a realizar costuras para fora. Os botões eram mantidos organizados em uma gaveta que a menina podia explorar, desde que deixasse tudo novamente no lugar.
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Essa lembrança foi transformada na estrutura do romance. Na narrativa, Giana retorna à casa da avó depois da morte dela. A casa, que também acabou sendo sua própria casa, guarda a gaveta. Ao mexer nos botões, a personagem começa a voltar no tempo. “Volto lá quando ela era criança, jovem, e o que acontecia naquela época. Depois, dependendo do botão que pego, vou costurando a história dela com a minha e com a história de muitas pessoas, mas sem necessariamente citar os nomes e não tendo a preocupação de ser tão fiel aos fatos, mas à sensação e à memória que ficou.”

Em um dos momentos da obra, a autora insere na narrativa o primeiro parto realizado pela avó, que era parteira. Hulda Augusta Müller Sebastiany chegou a fazer mais de 10 mil partos durante a vida, segundo a neta. E a relação entre as duas é um dos principais elementos do livro. Depois da morte do avô, o médico Adolpho Sebastiany, Giana passou a fazer muita companhia à avó, que tinha uma vida pública intensa em Sobradinho, tendo sido presidente da Câmara de Vereadores. “Ela tinha uma vida muito ativa na comunidade e me levava junto em alguns lugares. Então, especialmente na década de 1970, fui com ela para muitos locais, para inauguração de pontes, almoços festivos, e eu ficava quietinha observando o que ela fazia. Ela dirigia e me contava sobre vários assuntos. Eu achava fascinante tudo o que ela fazia, e passava muito tempo no hospital também. Nós tínhamos muita afinidade.”
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Giana com a avó Hulda na década de 1970
Essa convivência fez com que a autora construísse não apenas uma memória da avó, mas também do avô, Adolpho Sebastiany, que morreu quando Giana tinha apenas dois anos e meio. Segundo ela, Hulda teve a preocupação de contar histórias sobre o marido para que a neta pudesse construir uma memória sobre alguém que conheceu por tão pouco tempo.
Para Giana, a obra fala principalmente sobre a conexão afetiva entre netos e avós. “É algo tão importante e que faz muita diferença na vida da gente. Acho que isso é o principal do livro para mim, não tanto ser fiel a uma história da família, mas resgatar essa questão afetiva, dos barulhos, dos cheiros, dos silêncios, dos conselhos, do que eu aprendi com ela, as lembranças dessa história, do quanto ela também construiu uma memória para mim do meu avô.”

Giana no colo da avó Hulda, na presença do avô Adolpho
Pesquisa histórica e licença poética
Embora tenha como ponto de partida a história familiar, o livro é um romance histórico. Para construir os cenários e dar contexto à trajetória, Giana realizou pesquisas sobre diferentes períodos e aspectos. Entre os temas pesquisados está a ambientação de como era Cerro Branco no início do século passado, a cultura da época e o processo de alfabetização de sua avó. “Tudo isso eu pesquisei bastante, de cada etapa da vida dela, para depois colocar como elementos de cenário, onde a pessoa pode ir lendo e passa um filme na cabeça.”
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A escolha pelo romance, em vez de uma biografia, também permitiu que a autora trabalhasse com histórias conhecidas e, ao mesmo tempo, preservasse personagens e situações por meio da alteração de nomes e da licença poética, incluindo imaginários.
A narrativa também evidencia o pioneirismo feminino de Hulda, desde a infância, e o incentivo para que a neta também fosse protagonista de sua própria história.
O botão preto e as despedidas
Entre os capítulos, um dos mais simbólicos para a autora é “O Botão Preto”. A passagem trata do momento em que Hulda precisou deixar o filho Gilson, à época com 12 anos de idade, partir para Santa Maria para estudar. Segundo a escritora, a avó contava o quanto aquela separação havia sido difícil, especialmente porque Gilson era o filho mais novo e havia uma diferença significativa de idade em relação aos irmãos.
Depois da morte de seu pai Gilson, Giana acrescentou ao livro uma dedicatória a ele, retomando justamente a simbologia do botão preto. “Eu fiz uma dedicatória para ele no livro, onde eu coloco justamente isso, do botão preto, e como foi difícil para nós duas deixar ele ir, em momentos diferentes, mas foi difícil.”
Afetos
A proposta de “A História entre Botões” também ultrapassou as páginas durante o lançamento em Santa Cruz do Sul. Como o livro trabalha com memórias, sensações e olfato, Giana criou uma experiência imersiva para os convidados. Na mesa dos autógrafos estavam objetos relacionados aos antecessores, como uma mala da avó, materiais do avô, livros de medicina e a própria gaveta de botões. “Como o livro tem essa sensação de olfato, de memória, eu criei uma mesa com memórias dos meus avós, algumas coisas que eu trouxe para mim. Trouxe a gaveta de botões, uma almofadinha com cheirinho do Alma de Flores, que era o talco que minha avó usava.” A intenção era que o público não apenas conhecesse a história, mas tivesse contato com os elementos que ajudaram a construí-la. “Então as pessoas levaram para casa, além do livro, toda a experiência de ter vivido aquilo ali naquele momento, esse resgate um pouco da história familiar, essa história de carinho, de afeto com avós.”

Publicação
Impresso pela Gráfica Lupagraf, “A História entre Botões” conta com exemplares à venda na Ótica Sobradinho, em sua terra natal, e diretamente com a autora, por meio de uma loja virtual com acesso pelo Instagram @gianasebastiany.

Este é o primeiro romance de Giana e também seu primeiro livro adulto inteiro. Sua trajetória literária, porém, começou anteriormente. Ela já escreveu crônicas em produções realizadas em parceria com a Academia Centro Serra de Letras, da qual é membro, além de artigos e publicações acadêmicas. Também é autora de seis livros infantis, que marcaram sua estreia na literatura, contribuindo com a pediatria do Hospital Santa Cruz (HSC). Outros projetos, na linha dos romances históricos, estão em vista.
A trajetória profissional de Giana também mantém uma conexão com a história familiar. Crescida em uma família envolvida e dedicada à área da saúde, desde os avós, o médico Adolpho Sebastiany, e Hulda Müller Sebastiany, costureira, parteira e liderança política, fundadores do Hospital Sebastiany de Sobradinho, atualmente Giana é diretora de Ensino e Pesquisa do Hospital Santa Cruz (HSC) e professora da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).