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ELENOR SCHNEIDER

Ela gostava de pescar

Guardo boas lembranças da minha vida de professor, muitas delas dignas de registro, por isso recolhidas no baú do carinho e das doces recordações. Nos vários cursos em que lecionei, uma prioridade máxima era o planejamento, primeiro do semestre inteiro e, depois, de cada aula a ministrar. Atrás de todas as propostas, estavam os quatro objetivos, para mim sempre basilares: ler, escrever, falar e ouvir.

Não importava o nível da série (nas escolas) e do curso (na universidade), o foco maior era ensinar a ler, indispensável para todas as áreas do conhecimento; escrever, para uma comunicação clara, precisa; falar, para dialogar com fluidez, coerência nos argumentos ou no fato a ser relatado; e, às vezes o mais difícil, que é ouvir. Quanta coisa não aprendemos quando antes de ouvir já nos metemos a interromper e quebrar o diálogo!

Uma das atividades que introduzi em diversos cursos foi abrir espaço, em cada aula, para que os alunos viessem à frente e discorressem por alguns minutos sobre um tema de sua escolha. O assunto seria livre, desde que trouxesse algum acréscimo de conhecimento, abrisse possibilidade de debate, revelasse até questão pessoal que o aluno quisesse compartilhar. As únicas orientações que eu passava era que não podiam apenas ler e que a fala não começasse com “como todo mundo já sabe”. Se todos já sabiam, por que repisar o tema?

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Temas da mais variada procedência desfilavam nessas aulas. Os alunos falavam sobre filmes, livros, compositores, cantores, jogadores de futebol, analisavam jornais, fatos relevantes da atualidade, questões de saúde, um chef de cozinha falou sobre história e qualidade de alimentos, cardápios e até ensinou a fazer brownie, alunos da Psicologia traziam temas de sua área, estudantes da informática falavam sobre as novidades dessa ciência, enfim, eram momentos de ricas partilhas e aprendizagens. Muitos utilizavam recursos audiovisuais, tornando as aulas mais atraentes e participativas. Na Escola Santa Cruz, atribuí a pequenos grupos um Ministério do Governo. Uma vez por semana, traziam notícias da área que lhes cabia acompanhar: saúde, educação, economia, transporte, entre outras. Quanta coisa aprendi nessas exposições! Lembro Guimarães Rosa: mestre é aquele que de repente aprende!

Falar em público nem sempre é exercício fácil para tantas pessoas. Em geral, paira no ar o receio de que serão ridicularizadas, cometam gafes que serão lembradas para sempre. Por isso, incentivava os alunos, assegurando a eles que naquele espaço tinham o direito de ficar nervosos, de tremer, de errar. Vou ser sincero: não foram poucas as pessoas que, passando por experiências na vida, vieram me agradecer por esse cenário de aprendizagem.

Na primeira aula, organizava o cronograma das demais do semestre todo. Abria vaga para duas pessoas falarem em cada data. Estava num curso de Ciência da Computação e uma moça, procedente de outra área, veio fazer a disciplina comigo. Na hora de distribuir a tarefa, ela se ausentou. Ao final da aula, conversei com ela. Disse-me que não teria coragem de encarar a turma. Demovi-a dessa ideia, dizendo que daria todo o suporte para ela realizar a tarefa. Perguntei o que fazia nas horas de folga. Disse-me que gostava de pescar nos arroios da região. Respondi que seria um tema perfeito para sua exposição. Foi e fez. Acompanho seu desempenho profissional. Êxito perfeito numa área em que falar e escrever são requisitos fundamentais.

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