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BRIEFWECHSEL | CORRESPONDÊNCIA

Deserto dos sonhos

Hallo, Armando!

Hoje gostaria de sonhar um pouco. Afinal, os sonhos não envelhecem e são combustível para uma vida acesa. Antes, contudo, preciso contextualizar o assunto.

Como tu sabes, tenho alguns amigos na política, de todas as cores e tendências, e, por estas semanas, estão todos agitados com a campanha eleitoral. Percebo um positivo, mas ainda lento amadurecimento dos candidatos e de suas estratégias: a intenção de praticidade e eficiência está presente nos discursos e isso é bom; porém, faltam-lhes clareza e profundidade tanto sobre uma visão ambiciosa de fins como sobre uma concepção detalhada quanto aos meios para a consecução desses fins. O problema é sério, pois está nos dois polos indispensáveis para uma boa deliberação política. Na prática, é como se estivéssemos desorientados duplamente: não se sabe aonde ir nem como.

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Alguns líderes de alto calibre têm dito que não basta ter grandes visões sem indicar de onde vão sair os recursos. Claro que, com essa advertência bem-intencionada, eles estão prevenindo o eleitor de cair em promessas inexequíveis ou em armadilhas retóricas, soluções mirabolantes etc. Mas, feita essa ressalva, afirmo: uma visão ambiciosa de fins é absolutamente fundamental! É exatamente uma visão grandiosa de fins que vai mover a engrenagem toda, pública e social, para que os recursos disponíveis sejam mobilizados e empregados. O maior gênio filosófico que conheci pessoalmente, o professor Balthazar Barbosa Filho, explicava que a deliberação é a transmissão do desejo do fim aos meios para a realização do fim. Sem um fim capaz de ser desejado com vigor e fazer vibrar nosso espírito, nada acontece.

Pois bem, tomemos como exemplo o seguinte sonho: uma linha férrea Santa Maria-Santa Cruz-Porto Alegre, apta para carga e para passageiros. Não é um sonho inédito. Rotas semelhantes e outras estão sendo discutidas atualmente. O tema não é novo. E há janelas para outras discussões interessantíssimas como transporte hidroviário etc. Mas quero usar esse exemplo como um recorte. Saber quanto essa linha custará e como custear é importante, sim. E vamos falar disso em seguida. Mas, antes, a pergunta ainda mais decisiva e urgente é: esse sonho te empolga? Vale a pena lutar por isso?

Em 2019, escrevi no jornal Ibiá, de Montenegro, que poderia ser muito benéfico para o município fazer algo como um teleférico que fosse do cume do Morro São João até o cais do porto, e sugeri, para o projeto, a busca de uma parceria na Alemanha, dada minha vivência em Köln. Não consegui contagiar ninguém. Em 2023, por ocasião da preparação para o Bicentenário da imigração alemã, depois de ter sido provocado por um forte empresário de que precisávamos deixar um legado grandioso, apresentei-lhe a oportunidade de tomar parte no processo de concessão do Jardim Zoológico e do Jardim Botânico, de modo a fortalecer ainda mais as relações Rio Grande do Sul – Alemanha, sobretudo em aspectos tão caros como o meio-ambiente e a sustentabilidade. A resposta foi um constrangedor: “Não é nosso core business”. Ora bolas, a Ford e a Toyota apoiam zoológicos e nem por isso deixam de fabricar automóveis. Mais honesto teria sido admitir não ter fôlego financeiro para um “legado grandioso”.

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Segundo a IA, o custo estimado para a linha férrea que mencionei, no modelo alemão, seria de 3 a 5 bilhões de euros. Se o sonho empolga, aí o caminho, numa possível parceria com a Alemanha, passa por GIZ, KfW, BMZ, DEG, BNDES, Embaixadas, Ministérios, SIEMENS… Desafio gigantesco. Mais fácil é não sonhar e dizer: “Não é nosso core business”.

Liebe Grüße aus Brasilien!

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