O Dia dos Pais passou. Certamente, muitos receberam, além de algum presente material, o carinho, o afeto, o abraço, que renovam o amor para sempre. Outros devem ter convivido com o esquecimento, o abandono, a solidão que há muito os acompanham. Outros, ainda, continuaram os indiferentes, os insensíveis, a quem pouco interessa ter tido ou não um filho, a quem nunca reservaram um tempo para externar seu amor, sua proteção, sua conduta e seu exemplo de vida.
Verlaine, esse é seu nome. Era minha aluna em Letras, no tempo em que o curso era recheado de literaturas, de estudos da língua portuguesa, de língua inglesa ou espanhola, de didática, de filosofia, de sociologia, de prática de ensino, enfim, contendo um rol de disciplinas que só poderiam contribuir para formar excelentes professores. Sempre trabalhei nesse curso preferencialmente com Literatura Brasileira, em algum ou alguns dos quatro semestres a ela dedicados.
Certa noite, aplicava uma prova dessa disciplina. Como sempre, havia alunos rápidos nas respostas, outros mais lentos, reflexivos, cuidadosos, na busca incessante do melhor resultado. Verlaine era uma dessas. Vinha todas as noites de Sobradinho, distante cerca de noventa quilômetros de Santa Cruz do Sul. Preocupado com a possibilidade de ela perder a condução e já passando das dez da noite, alertei para o fato. Ela me olhou serenamente e me disse que avisara o pai e que este já estava vindo para buscá-la.
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Não cheguei a conhecer o pai, nem sei por onde andará Verlaine. A imagem, a mensagem daquele pai, porém, ficaram gravadas na minha memória. O gesto de amor de descer a serra, à noite, para permitir que a filha tivesse tempo de alcançar o melhor resultado, é exemplo de que amar sem medida e sem distância é incomparável, imensurável. Talvez nem Verlaine se recorde desse episódio, mas eu não o esqueci. Talvez nem ela nem o pai vão ler esta crônica, até porque isso não se impõe. O que busco é mostrar que essas duas pessoas são provas de quanto vale mesmo um presente ao pai, um agrado à filha.
Ainda que a acolhida afetuosa a um filho seja instintiva, é preciso também aprender a ser pai. No universo do trabalho, para ser bom ferreiro, marceneiro, mecânico, um bom professor, bom médico, para tudo isso há capacitação, algumas de longa duração. Para ser pai, deveriam ou poderiam valer as mesmas regras, a aprendizagem dos passos para bem cumprir essa missão. Muito mais do que ser provedor dos recursos materiais, é preciso ter o mesmo colo que as mães oferecem generosa e infinitamente. Assim sendo, nossos filhos, ainda que já além de adultos, serão eternamente nossas crianças. Porque crianças e mães só sabem amar com sentimento de incondicional e irretocável pureza.
Parece que chego atrasado para lembrar essa data. Ressalto, porém, que meu entendimento transcende o espectro comercial, com data marcada e valor presumido do presente. Pais e mães não podem ser lembrados e reverenciados apenas quando o calendário ou a propaganda assumem o papel que todo coração filial deveria ter presente em todos os dias de sua vida. O presente material se desgasta, até pode cair no esquecimento. O que nunca se desgasta é o amor respeitoso que podemos cultivar em nossos corações
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