A música faz parte da vida humana desde os primeiros tempos, pois é uma das melhores formas de entrar em harmonia com a criação, o ser superior, o universo e, assim, consigo mesmo. Essa convicção se firma sempre mais ao participar de momentos especiais a ela dedicados, como os que acontecem a todo momento entre nós, e inclusive de forma qualificada e gratuita, tal como se sucedeu novamente semana passada, com o show de Alejandro Brittes e Orquestra de Câmara da Unisc (quarta, dia 26), e o 33º Encontro de Corais em Vera Cruz (sábado, dia 29).
O argentino Brittes é uma das referências do Chamamé, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade que nasceu, como ele mesmo explanou, do “encontro histórico entre a música barroca ensinada nas Missões Jesuíticas da América do Sul e a música ancestral dos Guaranis”. O concerto com esse gênero musical, que ganha ainda mais relevância diante dos 400 anos das Missões comemorados neste ano, mostrou a relação entre a criação barroca (com obra de Bach) e a indígena, com peças relacionadas e o Chamamé propriamente expresso.
Numa noite de elevação do espírito, com a alma envolta em emoção, conforto e arrebatamento, as gaitas-ponto de Brittes, e seus companheiros de violão (André Ely) e contrabaixo (Carlos de Cesaro), junto com os instrumentos de corda da nossa boa orquestra da Unisc (no comando de Leandro Schaefer), e arranjos do acordeonista compositor, permitiram criar uma verdadeira conexão humana e divina, pelo universo. Como elo de ligação, estiveram justamente músicas que tinham como elemento principal uma das forças e mistérios da natureza: o vento.
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O fenômeno natural esteve presente nas belas composições Vientos del Este e El viento e las hojas (folhas). Fez lembrar de uma das canções de sucesso do Coral da Afubra (O Vento, do compositor Edson Gaúcho e cantado pelos Monarcas, que evoca esta força para levar paz, fartura, saúde e proteção às pessoas na estrada da vida, para concluir que “este vento é Deus”). Também no encontro vera-cruzense, o Coral da UFRGS brindou o público com famosa obra barroca italiana, Zéfiro torna, em que Zéfiro, uma personificação mítica do Deus do vento do Oeste, traz o bom tempo da primavera, com “o ar, a água e a terra plenos de amor”.
A relação com a terra e o divino, e os povos originários, ainda foi trazida por um dos corais mais antigos do País, o União de Estância Velha/RS (com 132 anos, regido por João Paulo Seffrin), no canto Cunhataíporã (“menina bonita” em tupi-guarani), clássico da música sul-mato-grossense, de Geraldo Espíndola. O grupo cantou ainda Pase la água (“Passe pela água”), famosa canção renascentista espanhola do século 15, e a conhecida Tertúlia gaúcha, de Leonardo, também da cultura do pampa, como o Chamamé, que tem menos versões para corais.
Talvez por isso o visitante estrangeiro, Coro Universitário de Oberá, Misiones, Argentina, não incluiu no repertório esse gênero típico da região, porém mais os conhecidos tangos de Buenos Aires, que, por sua vez, mesclam várias origens, desde a cubana e africana (no seu termo) até alemã, no bandoneon que os imigrantes incluíram nas suas malas. Já o coral anfitrião, o Municipal de Vera Cruz (dirigido por Charles Gregory, sucedendo ao célebre tio Carmo, que nos deixou no ano passado, e conta até com o prefeito Gilson Becker e o ex e fundador Heitor Petry no grupo), encantou, entre outras, com a música Quando acreditas.
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Da trilha do filme O príncipe do Egito, com parte cantada em hebraico, a bela obra recorda a história de Moisés e o êxodo dos Hebreus, na travessia do Mar Vermelho, colocando em ênfase: “quando acreditas, um milagre vai acontecer”. Pois ali produziu o milagre da paz de espírito e profunda alegria interior, assim como o canto de crianças e jovens do Infantojuvenil Municipal (regido por Ismael Gomes), que, na composição de Roberto e Erasmo Carlos, lembraram a todos: “é preciso saber viver”.
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