Rádios ao vivo

Leia a Gazeta Digital

Publicidade

CULTURA

“Toda vocação se desenvolve mais fácil com a leitura”, diz bibliotecário

Foto: Rodrigo Assmann

“Todas as classes sociais frequentam a biblioteca pública”, frisa Jair Teves

Há 25 anos ininterruptos, a vida do porto-alegrense Jair Teves é, diariamente, manusear livros e mais livros. E não apenas manusear, cadastrar, classificar ou conferir: também indicar, sugerir, aconselhar a leitura dos mais diferentes títulos e temas a potenciais leitores de todas as idades. O resultado não poderia ser outro, e nem deveria surpreender: ele foi escolhido como a personalidade incentivadora da leitura da 36a Feira do Livro e da 2a Festa Literária Internacional de Santa Cruz do Sul, a se realizarem entre os dias 7 e 15 de novembro deste ano, evento que terá por local a Praça Getúlio Vargas, no centro da cidade.

A homenagem renderá situação curiosa, inusitada para ele próprio. Desde que se fixou na cidade, em 2001, quando assumiu a função de bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal Professora Elisa Gil Borowski, tendo sido aprovado em concurso feito no ano anterior, nunca deixou de estar uma edição sequer no evento, justamente para divulgar a existência desse estabelecimento cultural. Acostumou-se a auxiliar em todas as tarefas, na recepção a convidados, a personalidades e ao público em geral, e no encaminhamento de demandas rotineiras. Neste ano, seguirá cumprindo essa mesma missão, com a diferença de que terá holofotes e atenções voltados também para si. Não apenas estará lá, no tradicional espaço da biblioteca, como será convidado ao palco principal, para as merecidas e costumeiras homenagens.

É um reconhecimento justo e natural para um profissional que, há um quarto de século identificado com a cidade e, nela, com a biblioteca pública municipal, nesse mesmo espaço encontrou sua companheira de vida. Um ano antes de ele próprio se transferir para Santa Cruz, havia chegado à cidade a cachoeirense Valquíria Ayres Garcia, especializada na mesma área, e que já ensaiava carreira de escritora, marcadamente na literatura infantojuvenil, e de contadora de histórias. Valquíria foi também escritora homenageada na Feira do Livro, na edição de 2016, há exatos dez anos. Uma década depois chegou a vez de Teves, salientando a contribuição valiosa desse casal para o universo cultural e artístico de Santa Cruz e da região.

Publicidade

Um brasileiro-peruano

A história de Jair Teves é a da conexão entre muitas culturas. A começar pelo fato de que por detalhe não é peruano de nascença. Ocorre que seu pai, Victor Hugo Teves Segovia, da área de Administração, é peruano. Ele se encontrava em Porto Alegre na década de 1960, estudando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Ali conheceu a futura esposa, Marlene Cândida Sousa de Teves Segovia, já falecida. Casados, na capital gaúcha tiveram os filhos Ana Júlia e Victor Hugo, e depois foram morar em Lima, capital peruana. Foi a instabilidade política naquele país que motivou a mãe a retornar a Porto Alegre para ter o terceiro filho, Jair. Depois ainda viria a Lisiane, também gaúcha.

Após os estudos primários e secundários, Jair cogitou de se aventurar na Europa, com planos de conhecer a Itália. No entanto, como a família lidava com o comércio de antiguidades, sendo uma das pioneiras do Brique da Redenção, seguiu se dedicando por um tempo a essa área, até que se decidiu por cursar Biblioteconomia, na Ufrgs. Concluiu em 1999 e no ano seguinte, quando soube do certame, prestou concurso para a Biblioteca Pública Municipal de Santa Cruz do Sul. Aprovado, em 2001 assumiu a função, na qual segue até os dias atuais.

“A biblioteca participa da vida intelectual”

Com a profissão de bibliotecário, formado em Biblioteconomia, o porto-alegrense Jair Teves tem como missão salientar a importância da literatura. Em sua trajetória junto à Biblioteca Pública Municipal Professora Elisa Gil Borowski, ao longo de 25 anos, contribuiu para que leitores de todas as idades tivessem acesso a obras relevantes. Por essa razão, a homenagem de personalidade incentivadora da leitura, que recebe da 36a Feira do Livro e da 2a Festa Literária Internacional de Santa Cruz do Sul, assenta-se como uma luva a sua biografia.

Publicidade

O estímulo ao hábito de ler, conforme ele, perpassa diferentes momentos de sua caminhada. “Tem todo um contexto para que eu me identifique como incentivador da leitura”, frisa. Cita, por exemplo, um projeto que lidera desde o começo de sua atuação em Santa Cruz, o “Xadrez na Biblioteca”, uma atividade direcionada a quem, eventualmente, ainda não valoriza os livros. “Muitos talvez nem percebam que o objetivo, ali, é o incentivo à leitura, e no entanto há um quarto de século temos essa ação”, comenta. “Eu poderia citar uma série de relatos de participantes que, após cinco ou dez anos, tornaram-se leitores habituais.”

Teves menciona que, com frequência, pais, mães ou avós procuram a biblioteca manifestando que gostariam de algum tipo de auxílio a fim de incentivar uma criança a ler. “Todos sempre recebem apoio. Damos orientação, levando em conta o feedback de quem está solicitando ajuda”, salienta. 

Por outro lado, Jair Teves diz que procura ser prestativo quando escolas igualmente solicitam orientações no sentido de incrementar uma biblioteca. “Todas as limitações de estrutura são neutralizadas por atos concretos: atenção, cortesia, respeito… São os somatórios de pequenos atos que conquistam possíveis novos leitores”, ressalta. 

Publicidade

Mas também deixa a advertência de que infraestrutura, profissionais e acervo podem ser disponibilizados, mas que o primordial é a vontade e a persistência individual. “Incentivamos, mas não há como ler pelo outro. Claro que qualquer pessoa pode incentivar com exemplos. Muitos adultos levam crianças para brincarem com os livros, na biblioteca. De nossa parte, esforçamo-nos para recebê-los o melhor possível. É isso; envolve gostar do que se faz”, resume.

Em entrevista concedida ao Magazine, Teves resgata algumas das passagens mais significativas do seu percurso de formação e de atuação profissional, que o identificam como um incentivador da leitura em sentido macro.

Entrevista – Jair Teves, bibliotecário, personalidade incentivadora da leitura

  •  Magazine – Que circunstâncias levaram o senhor a se tornar bibliotecário? O que mais especialmente influiu?

Foi um contexto. Estava com foco em viajar para a Itália. Estudei para prestar o vestibular da Ufrgs, pesquisando o que incluísse características de Jornalismo, Direito e Administração. Não estava acreditando que eu passaria, mas passei. Entre fazer a vida na Itália, chegando sem profissão, considerei ter a formação acadêmica e focar: “ou trabalharei no que gosto, ou trabalharei no que gosto”.

Publicidade

  • Como foi a relação do senhor, inclusive a partir da família, com a leitura? O que ela sempre representou?

Muito forte. Tenho origem de tudo que é país, como muitos. Por parte de meu pai, a América Latina corre em meu sangue: políticos, intelectuais, educadores, medicina e artes. Um clichê com o qual eu brinco: “não paga boletos”, mas é gostoso de ler, pesquisar (no meu caso, Equador, Peru). Muito do que se estuda de suas histórias tem familiares meus, que estão nos livros de estudos sobre o país. Por parte materna, minha avó incentivou os filhos a lerem e aprenderem o que fosse possível sobre arte. Claro que, dentro das condições da época, não eram ricos. 

A leitura veio de um processo natural. Minha tia-avó, Alma Castro, sempre que  falava dos produtores das peças de teatro das quais participava, ou das radionovelas. Dizia: “esse era culto, tinha muita leitura”. Isso marca crianças. Num encontro no aeroporto, Bibi Ferreira me pegou no colo; tinha uns 3 anos. Não sei se foi quando estávamos retornando ao Brasil ou em alguma outra viagem. Mas como Procópio Ferreira gostava muito do profissionalismo da minha tia-avó, essas histórias marcam. Dá mais garra de ler, querer ser grande em todos os sentidos. Escutar histórias de países que eu não conhecia; meu pai sempre lendo jornais, revistas; minha mãe sempre passeando comigo em museus, galerias. Vejo que leitura nem sempre proporciona vocação. Mas toda vocação se desenvolve mais fácil com a leitura. 

Para relaxar, uma curiosidade. O primeiro livro que influenciou diretamente a minha vida foi A balsa do desespero, de Enzio Tiira. Foi o livro que definitivamente eliminou meus intentos de me alistar na Legião Estrangeira. Devia estar com uns 15, 16 anos, hahaha.

Publicidade

  • O que representa para o senhor atuar junto à Biblioteca Pública?

Tem responsabilidades que são muito sérias. Muitas crianças possuem a biblioteca como referência de lugar seguro. A biblioteca assessora todas as escolas do município que solicitam. Participa diretamente da vida intelectual de várias entidades da cidade. 

Possuímos internamente desde trabalho técnico e atendimentos diversos, e participamos de eventos, com incentivo de atividades lúdicas diversas. Estar na biblioteca propicia entender a cultura de Santa Cruz do Sul. Todas as classes sociais frequentam o local. Sabemos que possuímos uma biblioteca com acervo relevante. E damos prioridade para os livros dos escritores locais. Todos que possuem entendimento em literatura e pesquisa comentam que temos acervo de boa qualidade. 

Mas, pessoalmente, representa uma alegria, a realização profissional. Cada adulto que relata o quanto a biblioteca foi importante na sua formação de vida é algo gostoso de escutar. É um ambiente que propicia conhecer leitores do mundo todo sem sair da biblioteca, e que se surpreendem e ficam felizes quando possuímos livros nos seus idiomas.

  • Como será estar na Feira do Livro na condição de homenageado?

É uma sensação muito diferente. Não tenho ideia de como será. No momento, sinto só o peso da responsabilidade. Claro que estou feliz! Mas sei das qualidades dos meus antecessores. Participei das escolhas anteriores. Fica aquele frio na barriga. Na Feira do Livro, não costumo ser o centro das atenções. Será diferente. Mas a Feira do Livro é como um livro; parecem iguais, mas cada um tem sua história. Neste ano faço parte de uma história específica. E são coisas simples, que vão mexendo com a gente. É a primeira vez que sou contracapa de uma revista, ao lado do meu amigo e escritor homenageado, Gil Kipper. Reflito que é um quarto de século que está propiciando esse momento. E aí surgem O tempo e o vento, Ilíada, os Salmos, Quo Vadis, aconselhando com algo fácil de esquecer: “lembra-te que és mortal”. 

  • Nos dias atuais, em um mundo marcado por internet e redes sociais, como o senhor entende que a leitura pode ser preservada e incentivada?

Evitarei clichês sobre o assunto. Mencionarei a realidade da biblioteca pública de Santa Cruz do Sul. Estamos com um momento muito vivo. Mães e pais estão levando os filhos para brincarem e lerem  na biblioteca. E argumentam com convicção: “criar memória afetiva nas crianças”. Foi o que tive na minha infância. Esse movimento responde à pergunta com convicção: a leitura é incentivada e a biblioteca contribui para esse estímulo. E são mães e pais que estão propondo uma evolução considerável para a biblioteca pública, com seriedade, conversando com a equipe técnica. 

  • Que lembranças mais queridas guarda de Feiras do Livro?

Mais uma pergunta que poderia acabar com todo o espaço da entrevista, haha. Primeiro, o apoio incondicional da Val [Valquíria Ayres Garcia, sua esposa]. Lembro que teve Feira do Livro em que as lonas eram gastas, não detinham a chuva e ficávamos muito tempo na umidade, em dia frio. A Val é que providenciava a logística para eu sair e retornar com roupas secas. Depois, o profissionalismo da Lisi, do Sesc, faz ter ânimo para superar toda adversidade que um evento ao ar livre possa ter. Claro que a equipe do Sesc é muito boa, mas a Lisi é a pessoa com quem convivo mais na Feira.

Agora, tomando coragem para escrever sobre a pergunta em si, e parar de postergar, é só o medo da emoção, sabe? Na última Feira do Livro de que Mário Pirata participou, nunca tinha até então passado por algo que só estava acostumado a encontrar nos livros. 

Conversando pouco antes de todos saírem para o almoço, ele pergunta: “Nós nos conhecemos desde quando?” “Desde 2001, há tempos!” “Pois é, muito tempo! Sempre te achei esforçado, inteligente.” E narrou muitas observações positivas sobre mim, com voz sóbria, olhando nos olhos, focado nos argumentos. Continuou: “Que bom que a gente se conheceu, né?” “Claro, concordo 100%. Gosto do teu trabalho também. Olha a quantidade de crianças que vêm te assistir!” “Pois é, vamos tirar uma foto ali?” “Claro, coloco no grupo.” Depois que todos voltam do almoço, percebo que ninguém deixa o Mário Pirata carregar nada. Pergunto para a Lisi, o que era aquilo de o tratarem como uma pessoa debilitada? Ela só responde: “Ele está com câncer em estado avançado; ele desabafou no almoço… Teves, tu estás chorando?”

Outra, que me tocou muito. Um casal emocionado, despedindo-se da Val. Pergunto a ela do que se tratava. “Eles pegaram meu livro, Joaquim e Joaquina. Leram uma poesia e resolveram comprar o livro. Vieram pedir autógrafo. Explicaram que se casam na semana que vem. Argumentaram que em uma passagem do livro havia toda a história deles ali. Para minha surpresa, era a mesma parte do livro que também foi, é e será a nossa! Escrita num momento em que estávamos fracos, mas com fé! Frágil, mas com esperança! Tanto que vamos para mais uma Feira do Livro!”

A última, das milhares: nosso cachorro havia passado mal. Tivemos que levá-lo ao veterinário de emergência; ficou com soro e demais medicações. O veterinário disse que era difícil ele se salvar. Ao voltar para a Feira, recebi uma charge muito bonita da Turma do Chico, feita pelo Amorim, desejando melhoras para o Nick (o nome já existia, era adotado, e é uma longa história, leitor). Foi gostoso sentir os amigos e conhecidos sendo calorosos. Nick já faleceu, mas beeemmm depois daquela Feira.

 

Aviso de cookies

Nós utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdos de seu interesse. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.