Após uma jornada de mais de 40 horas de voos e trens desde Porto Alegre, com escalas no Paraguai, Senegal, Espanha e Alemanha, eu havia chegado ao lugar que seria minha primeira residência fora do Brasil. Em um dia chuvoso, finalmente desembarquei na estação ferroviária de Copenhague. Nas ruas, avistei o trânsito ordenado, as inúmeras bicicletas nas ciclovias, as construções antigas e coloridas da capital dinamarquesa e tive meu primeiro contato com a maturidade serena de uma cultura e de uma história milenares.
Aos 19 anos, eu não sabia o que a vida me traria, mas, naquela hora, lembro-me de ter pensado que era ali mesmo que eu queria estar. Mais tarde naquele dia, já instalado no apartamento que dividi com dois outros estrangeiros, tive uma emoção que ficou marcada. Sozinho, ao olhar para a rua da janela do meu quarto, refleti sobre o longo tempo que ficaria longe do mundo ao qual eu estava habituado. Pela primeira e última vez, chorei com saudades de casa e da familiaridade que só temos em nossa terra natal. Foi um sentimento cuja dimensão estava bem além do que eu poderia entender. Em poucos segundos, senti uma saudade antecipada e, principalmente, uma pequenez diante do desconhecido que se abria à minha frente e que, quase quatro décadas depois, continua a se revelar.
A capital dinamarquesa fica na ilha de Sjaeland, a maior das centenas de ilhas que, juntamente com a península da Jutlândia, formam o país escandinavo. Embora a Dinamarca tenha uma área equivalente a apenas um sexto do Rio Grande do Sul, o Reino da Dinamarca, que inclui os territórios autônomos das Ilhas Faroé e da Groenlândia, é bem maior que, por exemplo, o México.
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Por falar em território, a expansão mais marcante dos dinamarqueses se deu a partir do século 8. A sociedade viking deixou pegadas em boa parte da Europa e até na América do Norte, cinco séculos antes de Colombo. Exímios navegadores e construtores de embarcações, os vikings fizeram invasões impiedosas e conquistas militares que aterrorizaram o restante da Europa. As incursões na Inglaterra, por exemplo, começaram no final do século 8 e foram seguidas por conquistas e assentamentos. Até hoje cidades como Derby e Grimsby carregam nomes vikings, sem falar nos dias da semana em inglês que homenageiam divindades nórdicas como Thor. Em seu ápice, a presença viking estendia-se da Inglaterra e do norte da França às terras da atual Ucrânia.
No século 10, o rei Harald “Dente Azul” Gormsson unificou a Dinamarca e estendeu seu domínio à Noruega, além de introduzir o cristianismo entre os súditos. O monarca seria eternizado séculos depois em uma união bem mais contemporânea, que conecta aparelhos eletrônicos por ondas de rádio. A tecnologia Bluetooth recebeu seu nome em homenagem ao rei que conectou diferentes povos. Seu conhecido símbolo combina, em escrita rúnica, as iniciais H e B, de Harald Bluetooth.
No período medieval, após a peste negra matar mais da metade dos dinamarqueses, a Rainha Margrethe I criou a união entre Dinamarca, Noruega e Suécia que duraria mais de um século. Os suecos deixaram a chamada União de Kalmar em 1523. A Noruega permaneceu ligada à Dinamarca até 1814, quando passou para uma união com a Suécia, da qual se tornou independente em 1905, não sem antes importar um príncipe dinamarquês para iniciar a dinastia real que permanece até hoje.
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A nação que um dia aterrorizou a Europa com barcos vikings e armas letais soube se reinventar como um centro europeu de diplomacia, criatividade e autoconfiança. O país perdeu grande parte de seu território e de sua população no século 19. Diante das derrotas e de uma nova realidade geopolítica, a Dinamarca voltou-se para dentro, modernizou-se e encontrou outras formas de exercer influência. Menos espadas, mais canetas.
O país está entre as sociedades mais igualitárias e desenvolvidas do mundo. Os impostos são altos, mas financiam uma ampla rede de saúde, educação, infraestrutura e proteção social. Mais do que isso, sua vida política e social é marcada por algo que me impressionou desde o primeiro contato: a busca pelo consenso. Uma lição de maturidade que vale para indivíduos, sociedades e países.
Copenhague despertou também meu apetite pela descoberta de lugares e pessoas que enxergam o mundo por lentes diferentes das minhas. Aos 19 anos, com uma personalidade ainda em formação, encontrei uma sociedade moldada por séculos de conquistas e derrotas, perdas e reinvenções. Percebi que amadurecer não é solidificar antigas certezas, mas estar disposto a revê-las, aprendendo com cada vitória, derrota e história que encontramos pelo caminho.
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Quase quatro décadas depois daquele dia chuvoso em Copenhague, continuo diante da mesma janela para o desconhecido. Talvez, com sorte, um pouco mais maduro.
- As construções coloridas e os canais de Nyhavn, que identificam Copenhague
- Bicicletas diante da Prefeitura de Copenhague: meio de locomoção onipresente
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