Rádios ao vivo

Leia a Gazeta Digital

Publicidade

OPINIÃO

Maurício Goulart: “Tristeza sem remédio”

Em tempos de pouco senso crítico, fraca participação social e confiança quase cega no “mérito” individual, há muitos temas que quase não são discutidos. Então me propus a buscar algum assunto que, por não ter uma motivação econômica evidente, passa ao largo do debate público. Pelo menos do que consigo detectar em minha posição atual.

Nesse exercício, “tropecei” na constatação de que vivemos em uma época que proíbe duas coisas: ficar triste e sofrer. Já repararam que basta alguém aparecer com os olhos meio baixos, mais quieto do que de costume, para algum amigo disposto “resolver” o problema com coisas como “Vamos sair?”, “Você precisa se distrair!”, “Pense em coisas boas!”. Como se a tristeza fosse uma espécie de incêndio que precisasse ser apagado… Acho que esquecemos que algumas tristezas não precisam ser combatidas; precisam ser vividas.

Há perdas que exigem tempo e despedidas que precisam do silêncio, e é aí que entra esse sentimento, nos dando espaço para viver a situação até que passe. E de preferência, longe de frases prontas como “Seja forte”, “Tudo acontece por uma razão”, “Você precisa seguir em frente”.

Publicidade

Também parece existir uma crescente intolerância à frustração – não posso ser rejeitado, não posso ser contrariado, não posso ser magoado. Se alguém não corresponde ao meu afeto, há imediatamente um culpado. Se uma relação termina, alguém precisa ter cometido uma injustiça. Se alguma coisa dá errado, procuramos uma explicação que nos absolva.

É claro que existem injustiças reais, violências reais e situações pelas quais ninguém deveria ser responsabilizado. Mas há também uma parte inevitável da vida que não é injustiça. Somos rejeitados, perdemos, erramos, decepcionamos e somos decepcionados. Às vezes, o outro simplesmente não quer o que queremos. Às vezes, somos nós que fazemos uma escolha ruim. E sem perceber, buscamos uma vida sem dor, quando o que precisamos aprender é como atravessá-la. E isso, só vivenciando os aprendizados que ela mesma oferece.

Antes que alguém diga, não se trata de romantizar o sofrimento, muito menos de dizer a alguém que sofre para simplesmente “suportar”. Feridas profundas precisam de cuidado, acolhimento e, muitas vezes, de ajuda profissional e contínua. Mas cuidar não é necessariamente distrair e acolher não é apagar a tristeza. Talvez seja ficar ao lado e dizer que, dando tudo muito certo ou muito errado, ambos vão atravessar aquele período juntos. Isso pode criar espaço também para uma pergunta menos confortável: “O que há de minha responsabilidade nisso que estou passando?”.

Publicidade

E talvez – só talvez – uma sociedade que aprenda novamente a aceitar a tristeza e a rejeição também esteja um pouco mais preparada para a felicidade.

Aviso de cookies

Nós utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdos de seu interesse. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.