O município de Santa Cruz do Sul comemora nesta segunda-feira, 28, seus 148 anos de autonomia. Na iminência do sesquicentenário, em 2028, a localidade ostenta índices de desenvolvimento que a diferenciam no cenário nacional e internacional. E essa perspectiva externa se faz parte desde os primórdios, a começar pelo próprio movimento de constituição, enquanto colônia provincial a ser formada por imigrantes alemães, cujos pioneiros chegaram em 19 de dezembro de 1849.
Ao longo de todo o século 19, e desde a independência do Brasil, inúmeros viajantes estrangeiros percorreram o País a fim de conhecer paisagens de que até então pouco se falara em outros lugares do planeta, isso quando se falara. Aventureiros como Auguste de Saint-Hillaire e Arsène Isabelle, entre outros, viajaram pelo Rio Grande do Sul e logo publicaram livros contando a experiência. Os que os seguiram, em meados do século, passaram a incluir a colônia alemã de Santa Cruz no roteiro.
A partir de Porto Alegre, o percurso era prático. Bastava seguir em barco pelo Rio Jacuí, descer em Rio Pardo e então, a cavalo ou em carroça, seguir até a nova povoação. Mais para o final do século, a ligação férrea facilitou o deslocamento. Mas bem antes disso, mal as primeiras famílias haviam se instalado, os primeiros viajantes vieram descobrir como elas estavam até para, na Alemanha, contar aos demais como eram as tais terras no Sul da América.
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O médico alemão Robert Avé-Lallemant foi um dos primeiros a visitar Santa Cruz, em março de 1858, o que narrou em livro considerado por Abeillard Barreto como um “hino ao Rio Grande”. Três anos depois, o suíço Johann Jakob von Tschudi fez o mesmo percurso, e igualmente registrou por escrito o que viu. Uma década mais tarde foi a vez de outro alemão, Oscar Canstatt, chegar à vila, e para uma missão: assumir como diretor da Colônia Mont’Alverne.
Por fim, em meados de 1886, passou por aqui mais um alemão, Hermann Soyaux, que, por sinal, elaborou as duas gravuras da cidade que ilustram estas páginas. Além deles, dezenas de viajantes estiveram em Santa Cruz e sobre ela escreveram, em muitos casos tratando-se de livros até hoje nunca traduzidos. Mas estes quatro olhares que aqui selecionamos revelam, hoje, uma jovem Santa Cruz que se tornou a esbelta cidade em que todos vivemos.

Uma gravura da jovem Santa Cruz em meados de 1886 elaborada pelo viajante alemão/polonês Hermann Soyaux durante a visita que realizou a esta colônia
“Um oceano de matas”
Pouco depois passamos por um regato e, afinal, chegamos a uma grande e larga clareira limitando com um terreno montanhoso e coberto de mato.
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Começa aqui a colônia alemã de Santa Cruz. O lugar chama-se Fachinal e deverá ser, mais tarde, o lugar central, a Vila de Santa Cruz. Um grande quadrado assinala a futura praça principal. Mas até agora só existem três ou quatro casas isoladas e as paredes mestras de uma igreja católica em construção,
na praça coberta de relva verde.
Numa dessas casas devia eu morar com um alemão. Mas o meu inglês, o senhor Guilherme Luís, como se diz e se escreve em geral o seu nome na tradução brasileira, não queria separar-se de mim e mandou desselar meu cavalo (…)
Fachinal de Santa Cruz é decerto solitário! Quando, no dia 14 de março de manhã cedo, saí para a frente da casa, parecia ter diante de mim todo um mar de ondas de mato, especialmente à esquerda, e tão verde-azul, tão extenso como a imensa superfície do oceano, em formas gigantescas e elevações, mas com a mesma profunda solitude e fascinante monotonia. Para todos os lados, um oceano de matas! Nenhuma torre brilha a distância, nenhuma aldeia, nenhuma casa. Apenas um lugar, cuja coloração poderia lembrar a cultura do solo. Só a fumaça, que sobe lentamente de alguns pontos, anuncia que audazes agricultores já se estabeleceram no vale solitário, que do caos da natureza selvagem brotará uma cultura policiada.
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ROBERT AVÉ-LALLEMANT
Viagem pela Província do Rio Grande do Sul (1858)
ROBERT AVÉ-LALLEMANT nasceu em Lübeck, Alemanha, em 1812, e faleceu nessa mesma cidade, em 1884. Médico e viajante, trabalhou no Rio de Janeiro. Em 1858 e 1859, viajou tanto pelo Sul do Brasil quanto pelo Nordeste e pela Amazônia, o que narrou em livros. Tradução de Teodoro Cabral
“Cavalguei pela colônia”
O dito porto de Rio Pardo está localizado próximo à confluência do rio Pardo com o rio Jacuhy, na margem deste último. Às 6 horas da manhã, o Senhor L. buscou-me para acompanhar-me até sua residência localizada a um quarto de hora do porto, em uma colina. Segundo meu pedido, logo providenciou os cavalos necessários para uma visita à Colônia de Santa Cruz. (…)
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Após alguma horas a cavalo, chegamos à estância de Dona Carlota, passando sem apear frente à sua magnífica casa. Alcançamos às 5 horas da tarde o conhecido Faxinal, a entrada da Colônia Santa Cruz com a localidade de São João que está surgindo. Encontramos pousada na residência de um inglês, proprietário de importante armazém e construtora. Era segunda-feira de Páscoa; da taverna próxima vinha música de dança barulhenta. Após o jantar, fizemos uma rápida visita ao local e nos deparamos com um divertido baile em espaço apertado, com empurra-empurra e gritaria dos colonos alemães como eu já havia visto em Petrópolis e em Joinville. A poeira, o calor sufocante e o barulho ensurdecedor nos fizeram sair.
Na manhã seguinte, cavalguei por parte da colônia na companhia do diretor C. von Schwerin, do senhor Jansen, funcionário do Departamento de Terras da Província, e de alguns senhores. Primeiro visitamos a Picada de Santa Cruz, e merendamos na casa de um dos mais antigos colonos, onde logo se reuniram muitos vizinhos.
JOHANN JAKOB VON TSCHUDI
Viagens pela América do Sul (em 1861)
Tradução de Martin N. Dreher
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JOHANN JAKOB VON TSCHUDI nasceu em Glarus, na Suíça, em 1818, e faleceu em Lichtenegg, também na Suíça, em 1889. Naturalista, cientista social e explorador, chegou a atuar na diplomacia. De suas viagens pela América resultaram excelentes relatos.
“É a mais florescente”
Quando ainda em Rio Pardo, tinham-me recomendado que parasse na casa de um colono à beira da estrada, para tomar um refresco. Segui esse conselho, fui muito bem acolhido pela boa dona de casa, uma alemã, que me ofereceu ovos, cerveja e café.
O caminho daí para Santa Cruz seguia por campos desabitados, cuja indescritível melancolia nada interrompeu. (…). Havia muito que o sol desaparecera no horizonte, e um frescor agradável substituíra o calor abrasador, quando, por fim, nos aproximamos das montanhas entre as quais ficava Santa Cruz, e cansados, e com bastante fome, chegamos à Praça da Cidade, ou Faxinal de Santa Cruz.
Incontestavelmente, as colônias que lá vi são as mais florescentes de toda a província, depois das de São Leopoldo. Incluindo a vizinha colônia do Monte Alverne, que me fora confiada, todo o território abrangia uma superfície de cerca de 24 léguas quadradas, estendia-se por toda a região acidentada nas faldas da Serra do Mar, tem grande abundância de águas, florestas, é sumamente fértil e tem um clima magnífico, particularmente conveniente aos alemães, no qual se destaca perfeitamente a mudança das estações. Desde sua fundação, em 1849, essa colônia vem progredindo como nenhuma outra e já conta, inclusive a população de Monte Alverne, com perto de 12 mil almas. Todas as indústrias possíveis estão representadas lá: moinhos, curtumes, selaria, ferraria, cordoaria e outras vêm sendo exploradas há anos, e em todo o vasto território da colônia reina atividade e constante afã industrial.
OSCAR CANSTATT
Brasil, terra e gente (1871)
Tradução de Eduardo de Lima e Castro
OSCAR CANSTATT nasceu em Ansbach, Alemanha, em 1842, e faleceu em Landkreis Sonthofen, Alemanha, em 1911. Foi historiador e geógrafo, tendo chegado ao Brasil em 1867, naturalizando-se brasileiro. Dirigiu a Colônia de Monte Alverne e escreveu livros sobre o País.
“Acolhedora e próspera”
Eu chegara a aquelas terras ainda com um pouco de ceticismo; mas me tornei um devoto quando visitei São Leopoldo e percorri o Hamburger Berg, o ‘Schwaben Schneise’, Caminho suábio, até a estalagem do velho Prusius, na entrada do ‘Teewald’, o bosque do chá, e, mais tarde, quando conheci a acolhedora e próspera Santa Cruz.
Difícil, árduo trabalho, principalmente nos anos iniciais tomados de privações, modéstia, perseverança, parcimônia e a consequente prosperidade – esta é, em poucas palavras, a história individual das famílias alemãs em Santa Cruz, bem como em todas as demais colônias agrícolas do Sul do Brasil, cujas escolhas de localização e administração foram tomadas e controladas com perspicácia por agentes públicos ou privados. Permitam-me detalhar a história de uma colônia inteira, com auxílio de alguns números convincentes – maçantes para alguns de meus leitores – e, novamente escolho Santa Cruz para esta finalidade, por nesta colônia ter ao meu dispor material de origem oficial e por contar com o acréscimo ou correção de informações confiáveis de origem privada.
A iniciativa para a fundação dessa colônia provincial foi o projeto para uma estrada, entre Rio Pardo – uma cidade junto à margem do Rio Jacuí – e a cidade de Cruz Alta, no alto, ao norte da Província. Após uma parte dessa estrada estar aberta em 1849, o governo provincial providenciou a medição de lotes coloniais em ambos os lados desta estrada, chamada de picada ‘Santa Cruz’ e, mais tarde conhecida como ‘Alte Pikade’ e, assim foi aberta a colônia.
HERMANN SOYAUX
Deutsche Kolonialverein (1886)
Tradução de Lissi Bender
HERMANN SOYAUX nasceu em Breslávia, atual Polônia, em 1852, e morreu no Brasil em 1928. Botânico, navegador e explorador, esteve em diferentes países. Percorreu a região central gaúcha em meados de 1886, viagem sobre a qual escreveu em livro.
Relatos de muitas épocas
O território que viria constituir a Colônia de Santa Cruz, a partir de meados do século 19, atraiu atenções e interesses logo após o término da Revolução Farroupilha, em 1845. Naquele momento, a Província manifestava intenção de estabelecer um caminho seguro para interligar a região central, a partir de Rio Pardo, com os campos de cima da serra. Até então, o deslocamento entre as áreas baixas e a parte alta era muito complicado, inibindo a conexão entre ambas por conta da íngreme serra.
Antes mesmo da fundação da colônia, um estrangeiro visitara a região e mostrara interesse em implantar um erval no vale em que depois foram demarcados os lotes para os imigrantes alemães. Era ninguém menos do que o francês Aimé Bonpland, naturalista que percorrera a América e outras regiões do planeta na companhia do célebre naturalista Alexander von Humboldt. Enquanto este retornara para a Europa, Bonpland fixou-se em Corrientes e realizou diversas expedições pelo Rio Grande do Sul, registrando suas descobertas em livro, o que fez também sobre Santa Cruz.
A partir do momento em que os pioneiros alemães chegaram à Colônia de Santa Cruz, relatos passaram a surgir. Entre os primeiros está livro de divulgação do projeto colonial elaborado por Peter Kleudgen, agente contratado pela Província para arregimentar colonos, convencendo-os a emigrar. Para facilitar a tarefa, Kleudgen escreveu o livro Die Deutsche Kolonie Santa Cruz in der Provinz Rio Grande do Sul in Süd-Brasilien, de 44 páginas, nas quais detalha como seria esse novo projeto. É uma espécie de “Carta de Pero Vaz de Caminha” exclusivamente dedicada a Santa Cruz, iniciativa rara em todos os empreendimentos coloniais. Ele próprio recebeu lotes na Alte Pikade, a atual Linha Santa Cruz.
E um dos primeiros colonos, Joseph Hörmeyer, que se estabeleceu na Linha Dona Josefa, igualmente escreveu sobre a colônia. Deixou obras de leitura imprescindível, como O Rio Grande do Sul em 1850 e O que Jorge conta sobre o Brasil.

Aimé Bonpland visitou região de Santa Cruz
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