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CINEMA

Precisamos Falar: um Brasil dividido em torno de uma mesa de jantar

Pais precisam decidir até onde vão para proteger os filhos envolvidos em crime. Foto: Laura Campanella/Divulgação

Após um crime cometido pelos filhos contra uma mulher em situação de rua, duas famílias precisam decidir até onde estão dispostas a protegê-los. É a partir desse dilema que Precisamos Falar, novo suspense brasileiro de Pedro Waddington e Rebeca Diniz, constrói uma história sobre responsabilidade, privilégio, justiça e proteção familiar. A Gazeta do Sul assistiu ao filme a convite da Primeiro Plano e entrevistou o elenco adulto.

Adaptado do romance holandês O Jantar, de Herman Koch, o longa transporta a história para o Brasil e encontra nessa mudança um de seus maiores acertos. A trama ganha novas camadas ao trazer para a discussão privilégio e a facilidade com que alguns conseguem escapar das consequências dos próprios atos.

O centro do conflito está no jantar. O que deveria ser uma conversa sobre o futuro dos filhos transforma-se em confronto entre diferentes formas de enxergar a sociedade, a justiça e a responsabilidade. Paulo (Alexandre Nero), Sandra (Marjorie Estiano), Celso (Emílio de Mello) e Anna (Hermila Guedes) chegam à mesa com convicções que interferem na decisão. É o caso de Celso que, além de pai, é candidato a um cargo político e precisa considerar o impacto da escolha sobre sua vida pública.

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A conversa sobre os filhos rapidamente se transforma em uma disputa de valores, enquanto diferenças políticas e ideológicas tornam o encontro cada vez mais desconfortável. O roteiro evita dividir os personagens simplesmente entre certo e errado e deixa que cada um exponha seus argumentos, interesses e contradições. Isso torna a cena do jantar ainda mais tensa: ela é o retrato de encontros familiares que viraram campo de batalha político.

O suspense funciona justamente por não oferecer uma resposta fácil sobre até onde o amor por um filho pode justificar a decisão de protegê-lo. E ele se sustenta em duas frentes: na tensão do jantar, marcada pelo desconforto de situações que podem parecer familiares, e na história dos adolescentes, conduzida pela imprevisibilidade e pela sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento.

O elenco sustenta bem esse confronto. Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello dão naturalidade aos conflitos e evitam que os diálogos pareçam discursos prontos. O núcleo jovem, formado por Thiago Voltolini, Guilherme Cabral, Cauê Campos e Julia Svacinna, também funciona bem.

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Precisamos Falar observa uma sociedade que parece ter perdido a capacidade de conversar antes do confronto. Às vésperas de uma nova eleição, o título ganha ainda mais força: precisamos falar, ouvir e reconhecer que diferenças não precisam impedir o diálogo. Ao transformar uma história universal em um retrato particular do Brasil, o longa reafirma a força do cinema nacional.

O que fica depois do filme

Mais do que apresentar um conflito familiar, Precisamos Falar abre espaço para questionamentos sobre convivência, responsabilidade e as próprias convicções. Em entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, o elenco principal refletiu sobre os dilemas que permanecem depois da exibição do filme.

Hermila Guedes destaca a importância de pensar sobre os aspectos morais levantados pela história e a capacidade do cinema de provocar discussões. “Hoje em dia, a discussão é muito mais moral do que acreditamos. E é muito legal estar num projeto que vá ao cinema e que, além do entretenimento, possa gerar reflexão e uma discussão.”

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Marjorie Estiano aponta para outro desafio: compreender quem pensa de maneira diferente, sem que isso signifique abandonar as próprias convicções. “Eu me vejo com a necessidade de compreender, não no sentido de me aproximar, mas de conseguir fazer parte, argumentar de forma que possa ser mais ouvida.” Para a atriz, “o diálogo se faz de escuta”.

Alexandre Nero leva a discussão para a educação dos homens. Ao falar sobre a violência cometida pelos jovens no filme, ele relaciona o comportamento à necessidade de poder, liderança e demonstração de força. “Tem a ver com a nossa educação do masculino. Precisamos rever muito a educação dos homens.”

Emílio de Mello vê na história um retrato de um período marcado por diferentes visões sobre questões fundamentais. “É muito um filme que representa um pouco esse momento do mundo polarizado, das pessoas com pontos de vistas diferentes, com relação à lei, com relação aos valores morais e tudo.”

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