Existe uma palavra que me tocou profundamente quando a escutei durante uma aula de Estética e Filosofia da Arte, na Universidade de Torino, com o professor Paolo Furia: “Flâneur”. A palavra carrega a ideia de caminhar sem rumo, pelo simples prazer de se perder e permitir que os próprios sentidos se desorientem diante de um novo lugar, ou até mesmo de um lugar conhecido, que passamos a enxergar como se fosse a primeira vez.
A palavra nasce nas passagens cobertas de Paris, as galerias de vidro e aço, a primeira versão do shopping, na primeira metade dos anos 1800. O flâneur de Baudelaire é um artista que procura refúgio em meio à confusão da cidade, que se move de lugar em lugar em busca de inspiração, como fez o pintor e seu amigo Constantin Guys, um dos primeiros artistas a retratar a vida, o movimento e a dança das ruas de Paris.
Essa palavra me encantou porque ela deu nome a sentimento que eu já carregava dentro de mim. Foi desse mesmo desejo de se perder para se encontrar, de abandonar o conhecido e se permitir explorar o mundo, que nasceu minha música chamada No roots. Inclusive acabei de lançar nova versão, agora com banda completa, gravada no Boca de Sons, em Santa Cruz do Sul, do Alison Knak. Deixo aqui o convite para que você a escute.
Publicidade
E recentemente também conheci o termo “flâneuse” do livro Flâneuse: Mulheres que caminham pela cidade em Paris, Nova York, Tóquio, Veneza e Londres, de Lauren Elkin. A versão feminina da palavra me fez descobrir que o ato de caminhar sem rumo e absorver o espetáculo urbano (algo que hoje me parece muito natural) era, durante muito tempo, um privilégio masculino. É um choque cultural e de época pensar que nem sempre as mulheres foram livres para simplesmente… caminhar pelas ruas sozinhas! E, até hoje, a maioria dos dicionários franceses não carrega a versão feminina da palavra. A autora Lauren Elkin, inclusive, sugere não adaptar a mulher a um conceito masculino, mas redefinir o significado do termo em si.
Os limites de uma jovem independente no final dos anos 1800 são claros nos diários de Marie Bashkirtseff, que conta a sua transformação de uma aristocrata russa em uma artista de sucesso, que expôs nos salões de Paris apenas dois anos depois de começar a estudar seriamente a pintura, até a sua morte por tuberculose, aos 25 anos. Ela escrevia: “Desejo ardentemente ser livre para sair sozinha, andar, caminhar, me sentar em um banquinho no Jardim das Tulherias e, acima de tudo, andar até o Luxembourg, olhar as vitrines decoradas de negócios, entrar nas igrejas e museus e passear à noite pelas estradas antigas. É isso que eu invejo. Sem essa liberdade, é impossível se tornar uma grande artista.”
Ao ler essas palavras, concordei profundamente. A minha música, a minha escrita, nascem da minha própria versão de praticar a flanêuse. A minha maior inspiração é transformar as minhas experiências em arte e, se não fosse assim… Quantas partes de mim eu teria que apagar? Quantas partes de si mesmas tantas mulheres tiveram que apagar?
Publicidade
Para a própria Virginia Woolf, caminhar era também uma forma de observar, absorver e transformar o mundo em matéria para a criação. Era durante esses percursos que encontrava elementos para tantos romances, poesias e reflexões sobre liberdade literária e pessoal. Ela preenchia os seus diários com conversas que escutava pelo caminho, personagens que encontrava e pequenas cenas do cotidiano que, mais tarde, poderiam se transformar em literatura.
Sobre o efeito da caminhada e a maneira como ela transforma o nosso próprio senso de identidade, Woolf escreveu:
“Nas nossas casas, estamos cercados por objetos que nos lembram quem somos. Somos nós mesmos que os escolhemos e os organizamos. Eles refletem e nos recordam a nossa própria identidade. Mas, no momento em que deixamos esse ambiente, essa casca que a nossa alma guarda em segredo para se proteger, nos desfazemos do nosso próprio eu e dos amigos nos quais nos reconhecemos. E nos tornamos parte do vasto exército de anônimos vagabundos.” E Woolf ainda ressalta que, se Shakespeare tivesse tido uma irmã que fosse tão brilhante quanto ele, provavelmente ela não teria recebido a mesma educação e as mesmas oportunidades pelo simples fato de ser mulher.
Provavelmente, teria sido obrigada a se casar com um bom pretendente ao invés de seguir o caminho de escritora.
Com este texto, quero convidar você, mulher, a caminhar pelas cidades. A apreciar a sua liberdade de sonhar grande. A praticar o flanêuse para criar o que você quiser para a sua vida. Nos relembrando que tristemente, ainda existem lugares onde a mulher não usufrui dessa liberdade. Por isso, não podemos subestimar esse direito.
Publicidade
Termino com citação da própria autora, Lauren Elkin: “Me deixem caminhar. Me deixem seguir o meu próprio passo. Deixem que a vida se mova dentro e fora de mim. Me deem emoções. Me deem ângulos inesperados e curvos. Me deem igrejas inquietantes e maravilhosas, fachadas de lojas e parques nos quais eu posso deitar. A cidade te coloca em movimento, te faz caminhar, se mover, pensar, desejar, se esforçar. A cidade é vida.”
Quer receber notícias de Santa Cruz do Sul e região no seu celular? Entre no nosso novo canal do WhatsApp clicando aqui. Ainda não é assinante Gazeta? Clique aqui e faça agora!