Em 2024, o Rio Grande do Sul e o Brasil celebraram os 200 anos desde o começo efetivo da imigração alemã, com a chegada das primeiras famílias à atual São Leopoldo. Um outro bicentenário transcorre neste ano: é o do início da colonização germânica no Litoral Norte gaúcho. E um novo livro de autoria do escritor e historiador Rodrigo Trespach, que é natural justamente dessa região, de Osório, recupera essa epopeia.
A obra 1826, com o subtítulo “A história dos primeiros imigrantes alemães no Litoral Norte gaúcho, a caravana pioneira, a comunidade protestante no Vale do Três Forquilhas e os católicos da Colônia São Pedro” está sendo oficialmente lançado nesta semana, em edição da Citadel, com 320 páginas, a R$ 79,90.
O termo “epopeia” adotado no parágrafo acima assenta-se com muita pertinência à jornada dos pioneiros que se dirigiram para essa área, nas proximidades de Torres. Não apenas pela longa e extenuante viagem de travessia entre a Europa e o Brasil, e depois ainda pelo deslocamento ao longo do litoral brasileiro até Rio Grande e, adiante, até Porto Alegre. Também pelo complicado périplo do grupo entre a capital gaúcha e a colônia a que se destinava, cruzando descampados e muitos cursos d’água.
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O novo projeto de Trespach constitui leitura ainda mais elucidativa para quem já tenha conferido livro anterior que dedicou ao início do projeto colonizador do Império brasileiro com famílias alemãs. Em 1824, cuja primeira edição é de 2019, com a segunda lançada em 2023, na véspera do bicentenário, contextualiza a situação na Europa que motivou a migração e as circunstâncias que, no Brasil, levaram à implantação de um núcleo colonial em São Leopoldo.
Foi nessa mesma época que o então presidente do Estado, José Feliciano Fernandes Pinheiro, idealizou uma colônia similar no Litoral Norte, área então praticamente desabitada e vulnerável, diante da longa extensão de terras entre a região de Porto Alegre e Laguna. Propôs, por isso, que um núcleo com colonos alemães fosse implantado ali, a fim de povoar esse território.
Jornada de 200 quilômetros até a região de torres
Ainda que tenha sido o presidente da Província, Fernandes Pinheiro, quem propôs a criação da colônia, este já não estava em Porto Alegre quando o projeto saiu do papel. Havia retornado ao Rio de Janeiro, capital do Império. Mas a ideia germinou. Em 17 de novembro de 1826, um grupo de 421 alemães (86 casais, 64 solteiros e mais de 180 crianças e adolescentes) chegou a Torres, após complicada viagem.
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Como se dividiam entre católicos e protestantes (e estes entre luteranos e calvinistas), foram destinados a duas colônias distintas: os protestantes se instalaram em junho de 1827 às margens do Rio Três Forquilhas, atuais municípios de Três Forquilhas e Itati; já os católicos se fixaram em 1828 em áreas entre as lagoas do Morro do Forno e do Jacaré, na colônia de São Pedro Alcântara, que hoje conforma os municípios de Dom Pedro Alcântara e Morrinhos do Sul.
A viagem até a área em que se fixariam foi extenuante para os imigrantes, para os quais, além da paisagem ou das condições muito diferentes daquelas de onde vinham, o fato de só falarem alemão virou empecilho. De Porto Alegre, saíram em cinco embarcações pelo Guaíba, desembarcando no Rio Capivari. A partir dali, por terra, seguiram em carretas puxadas por bois, mas precisando, a cada tanto, enfrentar novos rios e arroios, isso ao longo de quase 200 quilômetros.
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