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CINEMA

Gazeta conferiu: “Virtuosas” assusta ao mostrar um terror que já existe na realidade

O terror pode provocar diferentes reações. Às vezes, o susto. Outras, o desconforto, o incômodo ou aquela sensação de impotência. E o gênero ganha força quando encontra esses sentimentos não em monstros ou fantasmas, mas em algo real, acontecendo ao nosso lado.

A história acompanha as participantes de um processo de transformação comandado pela coach Virgínia (Bruna Linzmeyer), que apresenta a submissão aos maridos como parte da construção da chamada “mulher virtuosa”, associando discursos de coach e valores religiosos à ideia de que a mulher deve abrir mão da própria autonomia. O filme poderia facilmente cair na caricatura, mas roteiro, direção e elenco tornam aquele universo crível. Os discursos, os comportamentos e até os momentos mais absurdos são suficientemente próximos da realidade.

É justamente aí que Bruna Linzmeyer se destaca. Virgínia é perturbadora não apenas pelo que faz, mas pela distância entre aquilo que prega e aquilo que realmente é. Maria Galant também encontra força em Germina, que entra naquele ambiente com uma segunda intenção e descobre que nem tudo é o que parece.

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O filme é especialmente potente quando acompanha a perda gradual da individualidade. Há algo profundamente assustador em observar mulheres sendo moldadas para caber em um modelo de comportamento, como se suas personalidades fossem obstáculos a serem corrigidos.

Mais do que a própria Virgínia, assusta perceber como esse discurso encontra espaço para se espalhar. Afinal, a realidade também tem coaches e influenciadoras que defendem uma ideia de mulher cuja autonomia deve ser limitada, chegando, em alguns casos, a questionar direitos femininos básicos. É um terror sobre controle e impotência.

A associação entre discurso religioso, universo dos coaches e submissão torna tudo ainda mais inquietante. Virtuosas transforma em matéria-prima para o terror uma concepção de feminilidade que apresenta a obediência como virtude e a independência como ameaça.

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No terceiro ato, Virtuosas amplia essa discussão e leva o terror psicológico para o físico, escalando a loucura até a violência. E mostra as consequências de quando o extremismo e a manipulação passam a conduzir as escolhas.
Ao permanecer próximo da realidade, Virtuosas mostra como o medo pode nascer não de algo extraordinário, mas daquilo que já existe ao nosso redor. No fim, talvez não seja preciso inventar um monstro. Basta olhar para o mundo.

O terror está na realidade

Em entrevista exclusiva ao Magazine, a diretora Cíntia Domit Bittar destacou que parte da força de Virtuosas está justamente em elementos encontrados na realidade. Ela conta que a pesquisa para o filme incluiu palestras, cursos, videoaulas e manuais sobre a chamada “mulher virtuosa”. “Tem textos do roteiro que são quase transcrições do que se fala nesses encontros. Às vezes é engraçado e assustador”, afirma.

O contato com esse universo revelou uma dimensão que ela própria desconhecia. “Quando encontrei o termo das mulheres virtuosas, vi que elas são milhares. Não sabia disso.” Para ela, a dificuldade está também em ignorar fenômenos que já estão acontecendo. “Eu penso: que lugar perigoso que a gente está, de ignorar aquilo que está acontecendo.”

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Maria Galant, que interpreta Germina, também considera inquietante a proximidade entre a ficção e a realidade. Para ela, o filme não apresenta apenas um futuro possível. “Não é para onde a gente podia ter ido, é para onde nós estamos”, afirma.

A atriz acredita que essa atualidade torna Virtuosas ainda mais perturbador. “O que mais me assusta agora é o quão atual esse filme está chegando nos cinemas”, diz Maria. Segundo ela, a própria questão antivacina, presente no filme, demonstra como determinadas situações deixaram de parecer distantes. “A gente não está indo para um lugar parecido com o que o filme conta, a gente está vivendo ele agora.”

Cíntia também aponta o medo de que parte do público interprete aquilo que está na tela apenas como exagero. “É muito assustador que pessoas da nossa bolha achem que isso é só uma sátira ou que é uma grande caricatura e isso não aconteça”, afirma. Para Maria, é justamente essa capacidade de olhar para a realidade através da ficção que pode ser uma das maiores forças do terror. “É um convite para pensarmos, através da ficção, qual é o lugar onde queremos morar, qual é o país que queremos construir e para quem queremos dar poder.”

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