Em cartaz desde 24 de setembro, o longa-metragem Precisamos Falar chega à segunda semana de exibição nos cinemas. Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o filme adapta o romance O Jantar, do escritor holandês Herman Koch para o Brasil atual. A trama acompanha dois casais que descobrem que seus filhos adolescentes estão envolvidos na morte de uma mulher em situação de rua. Diante do crime, precisam decidir entre proteger os jovens ou entregá-los à Justiça.
Marjorie Estiano interpreta Sandra, mãe de um dos adolescentes, enquanto Emílio de Mello vive Celso, pai de outro jovem envolvido no caso e candidato político. Os dois integram um elenco que também conta com Alexandre Nero e Hermila Guedes. A história coloca os personagens diante de conflitos morais e familiares, em uma discussão sobre responsabilidade, valores e os limites da proteção dos filhos.
Com trajetórias consolidadas na televisão, no cinema e no teatro, Marjorie e Emílio conversaram com a Gazeta do Sul sobre os motivos que os levaram ao projeto, o processo de construção dos personagens e a experiência de trabalhar em um filme que evita respostas definitivas.
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Marjorie ganhou projeção nacional em Malhação e protagonizou a série Sob Pressão, trabalho que lhe rendeu indicação ao Emmy Internacional. Também integrou o elenco de Ainda Estou Aqui. Emílio tem uma carreira marcada por trabalhos no teatro, no cinema e na televisão, com participações em produções como Cazuza – O Tempo Não Para, Psi e Queridos Amigos.
ENTREVISTA – Marjorie Estiano e Emílio de Mello, atores
- Gazeta do Sul – O que atraiu vocês para o filme e para os personagens?

Marjorie Estiano – São tantas as camadas de debate. são tantas as camadas de debate. Nesses últimos anos, o mundo todo, não só o Brasil, esteja muito polarizado, muito dividido. É uma sociedade que está repartida, e isso se impõe com consequências muito graves, muito importantes.
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Esse tema me atraiu imediatamente, porque é necessário. Acho que o título é muito providencial nesse sentido: precisamos falar, discutir, dialogar, ouvir e acordar em algum ponto em comum. Uma sociedade diversa é feita de mentalidades e valores diversos, sim, mas algo em comum deve nos unir. Os direitos humanos, por exemplo. Precisamos chegar a algum entendimento para construir. Caso contrário, o progressista caminha para um lado, muda o governo, entra um conservador e desfaz tudo o que foi feito. Não existe um plano de longo prazo para a construção de uma sociedade longeva.
O tema foi um dos principais gatilhos que me atraíram para o filme. Eu precisava me aproximar e compreender a personagem, são valores são razoavelmente diferentes dos meus. Me vi na necessidade de compreender, me aproximar, de conseguir fazer parte e argumentar de uma forma que pudesse ser mais ouvida, para que não fosse uma sucessão de agressões e acusações. O diálogo se faz pela escuta. Por isso, precisava ouvir muito essas pessoas, essas personagens da vida real que têm esse tipo de mentalidade, para conseguir compreender e estar ali junto. Vamos tentar entender onde nos desencontramos e por quê.
Emílio de Mello – Faço minhas as palavras da Marjorie. É um filme que representa um pouco esse momento do mundo polarizado, em que as pessoas têm pontos de vista diferentes em relação à lei, aos valores morais e tudo.
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Mas há também outra coisa que me atraiu bastante: o fato de ser um filme com um elenco pequeno, formado por pessoas que admiro muito. Já tinha trabalhado algumas vezes com a Marjorie, tanto na televisão quanto no teatro, e com a Hermila. Nunca tinha trabalhado com o Nero nem com os meninos. Ter um elenco tão talentoso, um roteiro tão bom e diretores fazendo seu primeiro filme, mas dispostos a aceitar a colaboração e a parceria dos artistas, me deu a impressão de estar fazendo quase uma peça de teatro. Você reúne aquele pequeno grupo de pessoas e pensa: vamos construir essa história, vamos contá-la.
É o tipo de filme que adoro fazer. É um trabalho artesanal, de contato, em que nos encontramos também fora dos ensaios. Lembro que, uma vez, a Marjorie e a Hermila foram à minha casa. Sentamos, lemos e conversamos sobre os personagens. É quase como sair para tomar um chope e ficar falando sobre o trabalho.
Acho isso muito saudável. É um clima de muito afeto, que ajuda na construção de um trabalho com uma temática tão densa, tão forte. É muito importante trabalhar com essa leveza, essa parceria e essa confiança, ao lado de pessoas que admiro tanto. Foi muito bacana. Faria muitos filmes com essa turma novamente.
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- O filme coloca os personagens diante de um dilema extremo, que envolve o amor pelos filhos e a responsabilidade pelos atos deles. A cena do jantar, para mim, representa simbolicamente o Brasil atual, dividido por ideias, ideologias e conflitos morais e éticos. Como foi desenvolver os personagens até aquele momento e estar naquela cena, representando esse Brasil dividido?
Marjorie Estiano – A construção da personagem, para mim, é pesquisa. De maneira geral, sempre foi muito baseada em inspirações da vida real, em personagens reais.
Hoje, mesmo com o filtro das redes sociais, temos muito acesso a realidades que talvez antes não fossem acessíveis. Existe esse contato pseudo íntimo com essas figuras. Acho que me vali muito disso. Fui atrás dessas inspirações, e há muitas.
Me surpreendi bastante, porque, inevitavelmente, acabamos nos reunindo e nos agrupando com pessoas que pensam de maneira relativamente parecida conosco ideologicamente. Então, abrir e investigar esse mundo, essa realidade, esse Brasil paralelo, foi muito impressionante para mim. Tanto pela ideologia quanto pela estrutura, é um Brasil paralelo que tem investimentos grandes e tem muitos adeptos. Fui buscando compreender melhor essa lógica por meio da pesquisa.
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Sempre trabalhei na construção dos personagens, no resgate das memórias, na elaboração do arco e no jogo das cenas. Mas também descobrimos muitas coisas durante o processo, junto com o elenco e a direção. Foi um processo muito gostoso, de intimidade, com um elenco pequeno e uma locação controlada, concentrada na mesa do jantar.
A relação com o filho também era muito importante para mim. Acho que é um dos alicerces das motivações da personagem. Ao mesmo tempo, foi o primeiro lugar em que consegui estabelecer contato com ela: o afeto, o amor pelo filho e a relação com a família.
A partir daí, fui investigando e tentando compreender e traduzir esse amor e esse afeto diante dos valores que ela tem. É um amor que se restringe à família e, no máximo, àqueles que pensam como ela.
Emílio de Mello – Esses personagens têm muitas relações. No caso do Celso, há os três filhos, a mulher, o irmão, a cunhada e o sobrinho. É uma relação diferente com cada um.
Lembro que li o roteiro, pensei no personagem e elaborei uma ideia sobre ele. Mas, quando cheguei aos ensaios e comecei a trabalhar com os atores e a direção, meu ponto de vista foi se modificando.
O fato de ouvir o outro, as colocações e a visão de outro ator sobre aquele personagem, vai me dando consistência. Você começa a criar um personagem e, quando chega ao ensaio ou ao set, ele é modificado pelo ambiente. Adoro isso.
Para mim, essa é uma das coisas mais bacanas da nossa profissão: estar permeável ao que está acontecendo e jogar com isso. Também é dar ao público a possibilidade de ter várias visões a partir daquele personagem.
Sempre tive muita dificuldade em responder àquelas perguntas clássicas, como “Quem é o seu personagem?”. Não consigo responder, porque parece que estou minimizando o trabalho, restringindo o ponto de vista. De repente, alguém vê coisas ali que você nem pensou.
Isso é lindo no nosso trabalho. Você percebe que fez uma coisa em cena, mas não tinha pensado naquilo, e alguém enxergou algo que o tocou de uma maneira diferente.
Confira a entrevista completa:
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