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LITERATURA

A “Bíblia do Rio Grande”: projeto fez resgate histórico na década de 1970

O escritor gaúcho Abeillard Barreto e os dois volumes da Bibliografia Sul-Riograndense, que somam 1.556 páginas

Não são muitos os países e nem são muitas as regiões no planeta que podem dizer que têm a sua Bíblia. O Rio Grande do Sul tem a sua. Graças ao esforço de um gaúcho que, embora nem atuasse diretamente na área de História, dedicou-se a uma profunda e exaustiva pesquisa.

Cujo resultado começou a compartilhar com o grande público no primeiro de dois alentados volumes de sua Bibliografia Sul-Riograndense, publicado em 1973. E que concluiu com o segundo tomo, em 1976, há exatos 50 anos, num projeto até hoje único em realidade brasileira.

Abeillard Vaz Dias Barreto nasceu em Rio Grande, em 20 de junho de 1908. Ainda bastante jovem, em 1926, tornou-se funcionário do Banco do Brasil e nessa função seguiu até a aposentadoria, em 1958, radicando-se então no Rio de Janeiro. Em paralelo a sua ocupação profissional, dedicou-se a estudos históricos, que o levaram a tornar-se membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto Histórico e Geográgico do Rio Grande do Sul.

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Como menciona em texto de apresentação no primeiro volume de sua Bibliografia Sul-Riograndense, assinado em novembro de 1972, ao longo de muitos anos empenhara-se em reunir informações que se afinassem com o propósito, exposto no subtítulo da obra: “A contribuição portuguesa e estrangeira para o conhecimento e a integração do Rio Grande do Sul”. Assim, nos dois tomos (o primeiro contempla os verbetes de A a J, com 736 páginas, e o segundo, de K a Z, com 737 páginas) lançados pelo Conselho Federal de Cultura, no Rio de Janeiro, presta um dos maiores serviços alguma vez realizados em favor da história, da memória e da cultura no Estado.

Depois dessa iniciativa de Barreto, é impossível que algum historiador digno desse nome, ou mesmo que algum pesquisador na área das ciências humanas, não se avenha com essa colossal reunião de dados bibliográficos. Sua contribuição sem dúvida mereceria muito mais reconhecimento e comemoração, ainda que existam iniciativas. Uma delas é a da Biblioteca Rio-Grandense, de Rio Grande, na qual localizou parcela dos originais que manuseou em busca de informações precisas, e que criou uma sala com seu nome.

Foi em sua terra natal, por sinal, que Abeillard passou a ter contato com textos estrangeiros, em especial em língua alemã, que alimentariam nele o gosto pela leitura de conteúdos de cunho histórico. Estudou no Deutsch Vereinschule (depois Colégio Riograndense) e no Ginásio Lemos Brito. Casou-se com a conterrânea Maria Pia da Silva, e o casal teve duas filhas, Alice e Lucy.

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Já no Banco do Brasil, Abeillard foi gerente, entre 1943 e 1946, na agência central, em Porto Alegre, e depois transferido para Montevidéu. Quando ainda morava em Rio Grande, fundou o Centro de Pesquisas e Estudos Históricos, ligado à Biblioteca Rio-Grandense, que por muitos anos presidiu. No Rio de Janeiro, e aposentado, envolveu-se na elaboração dos três volumes de História do Exército Brasileiro. Faleceu nessa cidade em 3 de novembro de 1983, aos 75 anos.

Em sua Bibliografia Sul-Riograndense, levanta, em nível nunca antes visto, verbetes de personagens que, ao longo dos séculos, de algum modo tiveram relação com o Estado. O que impressiona, nos dois tomos, é o volume das menções a Santa Cruz, e mesmo quando nem se tratem de cidadãos de origem alemã.

Quando se folheia um dos tomos, ao acaso, é comum deparar-se com indicação de que aquele personagem escrevera a respeito de Santa Cruz e da região, o que só evidencia a importância histórica dessa área central gaúcha, desde os primórdios. De certo modo, a Colônia de Santa Cruz surgiu como uma necessidade de ligação entre as áreas baixas, as planícies e os campos de cima da serra, e, nesse sentido, Santa Cruz se tornou um elo estratégico.

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Um mergulho em 500 anos de história gaúcha

Os personagens que, ao longo dos 500 anos desde a chegada dos portugueses ao Brasil, foram relevantes no contexto da ocupação e do desenvolvimento do Rio Grande do Sul estão, efetivamente, todos elencados nos dois volumes de Bibliografia Sul-Riograndense. Abeillard Barreto cumpriu um exaustivo trabalho de localização de fontes primárias e bibliográficas, em diferentes línguas, que ofereçam registros associados às diversas regiões gaúchas. À medida que o leitor aprecia verbete a verbete, perceberá a infinidade de vezes em que Rio Pardo, como localidade polo da área central do Estado, e mais tarde Santa Cruz são mencionadas. Documentos e textos dentro e fora do País ajudam a salientar o quanto ambas as cidades atraíram olhares e atenções, granjeando respeito entre leitores por suas contribuições à história, à memória, à cultura e às ciências humanas e naturais.

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