
O NOVO PODER DA CHINA, de Ricardo Geromel. São Paulo: edição do autor, 2025. 352 páginas. R$ 69,00.
Gigante e complexa, com seus cerca de 1,5 bilhão de habitantes (mais de sete vezes a população do Brasil), a China atrai os olhares de todo o planeta. Em termos de socioeconomia, é praticamente impossível, na atualidade, deixar de considerar a capacidade competitiva dessa nação asiática. E o Brasil tem desempenhado o papel de parceiro estratégico, em especial no agro, o que envolve a cadeia produtiva do tabaco, cujo polo industrial se localiza em Santa Cruz do Sul e em outras localidades do Vale do Rio Pardo.
O cenário é acompanhado atentamente pelo paulista Ricardo Geromel, empresário e consultor que há vários anos se dedica a estudar sobre a China e a promover aproximação entre setores dos dois países. Parcela de seus conhecimentos reúne também em livros, compartilhando informações privilegiadas com tomadores de decisão. Em 2019, lançou O poder da China, em cujas 288 páginas detalhou o impressionante avanço chinês em desenvolvimento e inserção no mercado global. Agora, sete anos passados, amplia aquelas reflexões em mais um volume, O novo poder da China, de 352 páginas.
Na próxima quinta-feira, Geromel (que é irmão de Pedro Geromel, zagueiro campeão da Copa do Brasil e da Libertadores pelo Grêmio) estará em Porto Alegre, em duas atividades: pela manhã, às 9 horas, fará palestra sobre “O futuro do varejo”, no Teatro da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), na programação da Expoagas 2026; às 17 horas, desta vez no Instituto Caldeira (Travessa São José, 455, Bairro Navegantes), participa de bate-papo sobre seu novo livro com o economista e analista financeiro Fernando Ulrich. Nesta semana, ele concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, conduzida por WhatsApp.
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Entrevista – Ricardo Geromel, empresário, consultor e escritor
- Gazeta do Sul – Estás com livro chegando às livrarias, O novo poder da China. De que novo poder falas?
Ricardo Geromel – Quando publiquei O poder da China, em 2019, minha intenção era dividir o mínimo essencial que todo brasileiro deveria saber sobre o nosso maior parceiro comercial. O “novo” não é um adjetivo de marketing. É uma mudança de natureza.
A China que o mundo conheceu era a fábrica de baixo custo. A nova China quer ser a fábrica de alta tecnologia, a usina elétrica, o laboratório farmacêutico e uma das grandes plataformas de inteligência artificial do planeta. Hoje ela está redefinindo as regras do jogo em energia, IA, saúde e agro.
E isso já chegou ao Brasil. Nosso comércio bilateral com a China atingiu US$ 171 bilhões, mais que o dobro do que movimentamos com os Estados Unidos. Em 2025, o Brasil foi o país que mais recebeu investimento direto de empresas chinesas em novos negócios e projetos.
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Se você trabalha com energia, saúde ou agro, a China já impacta o seu dia a dia. Se acompanha IA, precisa entender por que ela se tornou a única potência capaz de disputar de forma sistêmica essa corrida com os Estados Unidos.
Depois de levar mais de mil brasileiros à China e me sentar com empresários, investidores e líderes locais, tentei transformar essa experiência em linguagem direta, com obsessão por dados. Quero tirar a China do Gre-Nal ideológico em que normalmente a colocamos. Não é preciso amar nem odiar a China. É preciso levá-la a sério.
Você pode não se interessar pela China. Mas a China já se interessa por você.
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- A partir de que momento esse novo contexto começou a se formar e em que ele está mais diretamente apoiado?
Não houve um momento mágico. O novo poder chinês foi construído como uma avalanche: primeiro caem pequenas pedras, depois você percebe que a montanha inteira está se movendo.
Na indústria automobilística, uma virada importante veio ainda em 2007, quando a China decidiu que, se não conseguia derrotar alemães, japoneses e americanos no motor a combustão, deveria mudar de campo e apostar no veículo elétrico. Hoje vemos o resultado.
Na saúde, a virada regulatória começou em 2015. O tempo para autorizar testes em humanos caiu de 501 para 87 dias, e o tempo médio para aprovar um novo medicamento foi de 35 meses para 11. Em 2024, sete grandes farmacêuticas globais pagaram US$ 31,5 bilhões para licenciar ou adquirir moléculas originárias da China. Você provavelmente tomará remédio chinês – talvez sem saber, porque a marca na caixa pode continuar americana ou europeia.
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Em 2018, a guerra comercial com os Estados Unidos acelerou outra transformação: a busca chinesa por autossuficiência tecnológica e por fornecedores alternativos. Depois vieram as restrições a semicondutores, que acabaram funcionando como uma espécie de vacina: obrigaram o ecossistema chinês a desenvolver anticorpos mais cedo.
A base disso tudo é relativamente simples: ciência aplicada, infraestrutura, manufatura em escala, capital paciente e execução. A China não inventa necessariamente tudo. Sua grande genialidade é pegar uma tecnologia, torná-la industrial, barateá-la e colocá-la nas mãos de centenas de milhões de pessoas.
- Entre as definições mais consagradas da economia ou do mercado, em que categoria hoje classificas a China?
Acho perigoso tentar compreender a China colocando-a dentro de uma caixinha ocidental. Se alguém me obrigar a escolher um rótulo, eu diria capitalismo de Estado com características chinesas. O próprio sistema tolera e estimula competição feroz, empreendedorismo, lucro e bilionários. A China é o país que mais gerou novos bilionários desde 2011, quando comecei a cobrir bilionários para a Forbes. Mas existe uma condição: o lucro não pode estar acima do projeto nacional nem da estabilidade social. Quando Pequim entende que determinado setor se tornou um problema para esse projeto, o Estado intervém de uma forma que surpreende quem olha apenas pela lente de Wall Street.
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Por isso, comparar a China automaticamente com Cuba, Venezuela ou a antiga União Soviética produz mais confusão do que entendimento.
Esse é um dos grandes problemas brasileiros: conhecemos relativamente bem o imaginário americano. Ouvimos a música, vemos Hollywood, estudamos suas universidades, compramos o sonho americano. Da outra superpotência, muitas vezes não conhecemos nem o básico. Não precisamos copiar o sistema chinês. Precisamos primeiro fazer o esforço intelectual de entendê-lo.
- Uma das questões sempre referidas em avaliações de cenários é quanto uma realidade ou um crescimento é sustentável. O que a China protagoniza é sustentável?
Desde que comecei minha relação com a China, em 2009, escuto previsões de que ela está prestes a quebrar. A data muda; a tese permanece. Até agora, quem marcou a data do funeral chegou cedo demais.
Isso não significa que a China não tenha problemas. Tem problemas enormes: envelhecimento populacional, dívida, excesso de capacidade em alguns setores, margens industriais comprimidas e as cicatrizes do mercado imobiliário. O próprio setor de baterias mostra isso: dezenas de fabricantes desapareceram e o governo precisou intervir para conter uma guerra de preços destrutiva.
Mas aqui existe distinção importante: o velho modelo chinês não é sustentável, e a própria China sabe disso. A aposta agora é trocar parte do motor imobiliário por um motor ancorado em tecnologia, manufatura avançada, eletrificação, robótica e produtividade.
A manufatura ainda representa cerca de 28% do PIB chinês, contra 11% nos Estados Unidos. O setor de energia limpa já movimentava cerca de US$ 1,9 trilhão em 2024, quase 10% do PIB, e crescia três vezes mais rápido que a economia.
Então eu inverteria a pergunta: não é “a China conseguirá continuar crescendo como cresceu?”. Certamente não. A pergunta é se conseguirá trocar o motor do avião enquanto ele continua voando. Até agora, tem mostrado uma capacidade extraordinária de fazer exatamente isso.

Na condição de empresário e consultor, Ricardo Geromel (de blusa escura, à esquerda) lidera comitivas e missões que vão à China em busca de parcerias
- Em que medida o que ocorre na China acontece como espelho ou reflexo de decisões ou situações ocidentais ou, em especial, dos Estados Unidos?
John Donne escreveu em 1624 que “nenhum homem é uma ilha”. Hoje, essa frase se aplica para qualquer superpotência também.
Uma parte enorme do poder industrial chinês foi construída em simbiose com o Ocidente. O melhor exemplo é a Apple. Ela foi à China atrás de escala, flexibilidade e eficiência. No processo, ajudou a formar uma geração inteira de fornecedores com padrões de precisão, qualidade e engenharia de classe mundial. A Apple estima ter treinado mais de 28 milhões de trabalhadores chineses. O Ocidente ganhou eficiência no curto prazo; a China acumulou capacidade industrial no longo prazo.
Depois veio a Tesla, cuja fábrica de Xangai ajudou a elevar a régua de toda a indústria automobilística chinesa. Vieram também as sanções americanas a semicondutores. O objetivo era atrasar a China. O efeito colateral foi aumentar violentamente o incentivo para desenvolver alternativas domésticas.
É uma das ironias centrais do livro: muitas das armas competitivas chinesas foram forjadas em interação com o próprio Ocidente.
A China aprendeu, copiou, adaptou, competiu, melhorou. Hoje, em várias áreas, passou de aluna a concorrente do professor.
- Hoje, pelo tanto que acompanhas o cenário global, em que pé está a relação Estados Unidos e China em termos de poder e perspectivas?
Depende da régua. Se a régua for mercado financeiro e poder militar, os EUA seguem na frente. Mas eu sigo o dinheiro e cobro dados de quem opina e proponho focarmos em uma outra régua: eletricidade. PIB pode ser inflado por intangíveis e bolhas; o consumo elétrico não mente. Energia elétrica é máquina ligada, forno aceso, data center processando. No ano 2000, a China produzia um terço da eletricidade dos Estados Unidos. Em 2024, produzia quase duas vezes e meia mais. A China já consome mais eletricidade do que EUA, União Europeia e Índia somados. E isso importa cada vez mais porque, como o próprio Sam Altman repete, o custo da inteligência vai convergir para o custo da energia. A corrida da IA não será vencida só por quem tem o melhor modelo, mas por quem dominar a geopolítica dos gigawatts.
Minha leitura é menos “quem ganha” e mais “em quê cada um ganha”. Os EUA lideram na fronteira do software; a China lidera na conversão de tecnologia em indústria: 70% dos carros elétricos do mundo, mais de 80% dos painéis solares e das baterias de lítio, e uma IA que, em vez de debater riscos existenciais, já entrou na fábrica, no porto e no hospital de macacão de trabalho.
O erro é procurar um placar único e perguntar “quem está ganhando?”. Não existe uma Copa do Mundo das superpotências com uma tabela só.
Os Estados Unidos continuam à frente em camadas cruciais de tecnologia, sobretudo semicondutores avançados e partes importantes da fronteira da inteligência artificial. Na própria IA, o livro reconhece que os EUA ainda lideravam, mas mostra como a distância diminuiu rapidamente.
A China, por outro lado, construiu uma musculatura industrial que os Estados Unidos perderam em várias cadeias. Produz quase duas vezes e meia a eletricidade americana. A manufatura pesa muito mais na sua economia.
Então, a disputa está mudando. Durante muito tempo, o modelo era: os Estados Unidos inventam, a China fabrica. Essa frase envelheceu.
Hoje os americanos ainda inventam extraordinariamente bem. Só que os chineses também inventam, e continuam fabricando.
A grande disputa das próximas décadas será justamente entre a capacidade americana de produzir fronteira tecnológica e a capacidade chinesa de transformar tecnologia em infraestrutura barata, escalável e disponível.
- Até que ponto a sucessiva aplicação de tarifas por parte de Trump a diferentes países influiu nesse novo poder chinês?
A história recente mostra um paradoxo que trato bastante no livro: a pressão americana funcionou como vacina. As sanções de chips foram desenhadas para deixar a China uma geração atrás. O efeito foi o oposto: em janeiro de 2025, a DeepSeek – uma empresa de cerca de 150 funcionários, a maioria com menos de 30 anos – alcançou o desempenho dos melhores modelos do mundo com chips inferiores e a uma fração do custo, e a Nvidia perdeu US$ 589 bilhões em valor de mercado num único dia, a maior perda da história de Wall Street. A DeepSeek não inovou apesar das sanções. Inovou por causa delas.
Com tarifas, o filme é parecido. No ano passado, as vendas chinesas para os EUA, o maior mercado consumidor do planeta, caíram 20% e mesmo assim o superávit comercial da China bateu US$ 1,2 trilhão, recorde absoluto. A China redirecionou o fluxo para os emergentes: as exportações de tecnologia solar para a África, por exemplo, cresceram 60% em um ano. E há o efeito colateral que interessa diretamente ao leitor gaúcho: quando Trump taxou a China no primeiro mandato, o maior beneficiário do mundo foi o agro brasileiro. Até 2017, a China comprava mais agro dos EUA do que do Brasil. Desde 2018, compra mais do Brasil. Tarifa lá virou demanda aqui. Existe uma ironia deliciosa aí: ao tentar afastar a China, Washington ajudou a empurrá-la para os braços do Brasil.
Tarifas podem dificultar a vida chinesa no curto prazo. Mas também aumentam o incentivo para Pequim diversificar mercados, fornecedores e tecnologias. Pressão externa frequentemente produz dor. E dor é um baita estímulo à inovação.
- Em teus contatos com empresários e lideranças chinesas, que lugar ou que papel elas enxergam para o Brasil?
Um dado resume: a China é a maior parceira comercial de mais de 120 países, mas foi o Brasil que, em 2025, mais recebeu investimento direto chinês em novos negócios e projetos no mundo inteiro. Escolhido entre 120 pretendentes. Isso não é acaso, é tese: o Brasil tem energia limpa abundante, alimento, minerais críticos e um mercado de 200 milhões de consumidores, exatamente o que a estratégia chinesa precisa.
Mas eu trago também o alerta que ouço nas salas de reunião em Pequim. Quando repito lá a frase que escuto de boca cheia aqui, “a China é dependente do agro brasileiro”, os chineses sorriem e corrigem: não somos dependentes, estamos dependentes. Não é semântica, é aviso. Ser é permanente; estar é circunstancial. A China não trata dependência como destino; trata como problema a ser administrado, reduzido ou redesenhado.
- Nações voltadas a commodities, inclusive agrícolas, como poderão subsistir no novo cenário? Industrializar-se e agregar valor é incontornável?
O problema não é vender commodity. O problema é o cardápio ter uma página só. Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 100 bilhões para a China, mas complexo da soja, petróleo bruto, minério de ferro e carne bovina representaram 82,9% disso – matéria-prima crua, com pouco valor agregado. Na direção contrária, os cinco principais itens que importamos da China somaram apenas 12,6% do total e carregavam muito mais tecnologia, engenharia e margem. A China subiu de elevador na cadeia de valor. O Brasil segue confortável na escada rolante das commodities.
E não nos enganemos sobre o que o agro representa: em 2024, o superávit total do Brasil foi de US$ 74 bilhões, mas o superávit do agro chegou a US$ 145 bilhões. Sem o campo, o país teria rombo na balança. O agro é o marca-passo da nossa solvência, e ele só bate nesse ritmo porque encontrou um coração faminto do outro lado do mundo. A resposta não é abandonar a vocação, é fazer o que a própria China fez: ela era sinônimo de mão de obra barata e produto de baixa qualidade; decidiu subir a montanha em solar, bateria, carro elétrico e agora farma. Nada impede o Brasil de fazer o mesmo a partir da sua força, biotecnologia agrícola, alimento processado, combustível sustentável de aviação, proteína com rastreabilidade e marca. Agregar valor não é opção estética. É gestão de risco.

Geromel e Huang Hongsheng, fundador da Skyworth, líder global na fabricação de eletrônicos de consumo, como smart TVs
- No contexto de investimentos e parcerias que a China busca no mundo, o que é bom ou não é bom para o Brasil, e por quê?
Capital chinês é bom ou ruim? Depende. Capital americano é bom ou ruim? Também depende.
Capital não tem caráter; contrato tem. Estratégia tem.
Para o Brasil, é ótimo quando o investimento aumenta capacidade produtiva, traz tecnologia, cria emprego qualificado, desenvolve fornecedores, melhora infraestrutura e transforma o País em plataforma de exportação. Já vemos um movimento nessa direção: a GWM assumiu a antiga fábrica da Mercedes em Iracemápolis; a BYD ocupou o complexo da Ford em Camaçari; a Chery produz em Goiás. Isso já é muito diferente de simplesmente colocar um carro pronto num navio e vendê-lo aqui.
O que seria ruim? Virarmos apenas mercado consumidor e fornecedor de matéria-prima, sem absorver conhecimento, engenharia ou capacidade produtiva.
Os chineses aprenderam isso magistralmente com o Ocidente. Quando Apple, Volkswagen, GM e tantas outras chegaram à China, Pequim pensava não só no emprego do ano seguinte, mas no conhecimento acumulado 20 anos depois. O Brasil deveria ter a mesma ambição.
A pergunta correta não é “queremos investimento chinês?”. É: “que Brasil queremos construir com esse investimento?”
É bom o que constrói capacidade aqui: fábrica, tecnologia, emprego qualificado, transferência de conhecimento. A fábrica da BYD na Bahia é melhor para o Brasil do que carro pronto desembarcando no porto de Santos. Investimento em linha de transmissão, energia solar no Nordeste e infraestrutura logística resolve gargalo que trava o país há décadas. E a China é, disparado, quem mais sabe construir isso rápido e barato no mundo.
O que exige atenção é o que aprofunda a assimetria: seguir exportando 82,9% de matéria-prima crua e importando tecnologia embarcada. E há uma lição que conto no livro que serve de régua para qualquer negociação: a própria China nunca teve ingenuidade com capital estrangeiro. Em 2009, Pequim bloqueou a Coca-Cola de comprar a Huiyuan, uma fabricante de sucos. O Walmart foi autorizado a operar no varejo chinês com restrições. A China sempre disse sim ao capital e não à perda de controle estratégico. O Brasil não precisa copiar o modelo, mas seria ótimo copiar a clareza. Parceria com a China é excelente negócio para quem senta à mesa sabendo o que quer.
- Além da economia, que outras oportunidades se abrem para o Brasil na relação com a China? Culturalmente há muito a avançar?
Talvez a maior oportunidade seja justamente a menos contabilizada: aprendizado.
No Brasil, frequentemente tratamos a China como comprador de soja ou vendedor de produtos baratos. É uma pobreza intelectual enorme. Estamos falando de um país que construiu a maior rede elétrica do planeta, cidades onde veículos elétricos já são maioria dos novos emplacamentos, portos altamente automatizados, hospitais que testam IA em escala e fábricas capazes de operar praticamente no escuro.
Não precisamos copiar tudo. Aliás, muita coisa chinesa só faz sentido dentro da China. Mas podemos estudar obsessivamente o que funciona e perguntar: o que é adaptável ao Brasil?
Culturalmente, a distância ainda é gigantesca. Nós conhecemos o sonho americano. Sabemos quem são seus artistas, empresários, universidades e esportistas. Quantos brasileiros sabem explicar o sonho chinês? Quantos conhecem a diferença entre Pequim, Xangai, Shenzhen e Hangzhou?
Por isso insisto tanto em “beber direto da fonte”. Vá à China. Sente à mesa. Construa guanxi. Pergunte. Escute. Uma semana vendo o país com os próprios olhos pode valer mais do que um ano consumindo opiniões sobre ele de segunda mão.
A oportunidade mais subestimada é educação e talento. A China forma em um ano mais engenheiros do que o Brasil formou na última década: 11,79 milhões de graduados em 2024, cinco milhões em áreas STEM. Só BYD e Huawei empregam 120 mil engenheiros cada. Enquanto isso, no Brasil escolhemos formar e prestigiar advogados. Mandar mais estudantes brasileiros para universidades chinesas, criar programas de intercâmbio técnico, aprender mandarim, isso hoje é diferencial de carreira tão óbvio quanto foi o inglês nos anos 90. Eu mesmo estudei na Tsinghua com bolsa, e devo à China boa parte do que construí. E há o caminho inverso: o chinês tem crescente curiosidade pelo Brasil e nosso futebol, música, natureza, comida. Cultura é a ponte mais barata e mais durável entre dois povos.
- Em que medida a China sinaliza para uma maior presença ou integração cultural?
A presença econômica chinesa está avançando muito mais rápido do que a nossa compreensão cultural da China.
E há algo curioso: o soft power chinês muitas vezes chega sem anunciar que é chinês.
O algoritmo que mudou o consumo global de vídeos curtos nasceu em Pequim. A Shein transformou o varejo mundial. Marcas de automóveis chinesas começam a fazer parte da paisagem brasileira. A Meituan chegou ao Brasil como Keeta. Empresas do movimento chūhǎi já nascem pensando no planeta inteiro e, muitas vezes, até escolhem sede, marca e identidade globais para reduzir a resistência associada ao passaporte chinês.
Durante muito tempo, a China exportou contêineres melhor do que exportou narrativas. Isso está começando a mudar.
Mas acredito que a integração cultural verdadeira acontecerá principalmente quando houver mais gente cruzando a ponte nos dois sentidos: estudantes, empresários, cientistas, artistas, turistas e famílias.
Relações comerciais criam transações. Relações humanas criam confiança. E na China existe uma palavra milenar para isso: guanxi.
Dito isso, o soft power clássico ainda é o calcanhar de aquiles chinês, e é justamente aí que mora a oportunidade para quem se posicionar como tradutor entre os dois mundos. O Brasil tem um ativo raro nessa disputa: é dos poucos países que conversam bem com Washington e com Pequim ao mesmo tempo. Num mundo que se divide em blocos, quem fala com os dois lados vira mais valioso, não menos.
- A presença chinesa em lojas de importados é ampla em cidades médias e pequenas no Brasil. Para o que essa inserção sinaliza? E há presença brasileira na China?
A loja de importados é a ponta visível de uma cadeia que começa num lugar específico: Yiwu, uma cidade chinesa com um mercado de 4 milhões de metros quadrados, mais de 500 campos de futebol, e 62 mil estandes, de onde sai boa parte do que abastece as lojas de “tudo por até R$ 5,00” do mundo inteiro. Eu conto aventuras nessa cidade no livro. Quando o consumidor de Santa Cruz do Sul compra uma utilidade doméstica chinesa, está na ponta de uma logística que atravessa o planeta com eficiência que nenhum concorrente alcança. E a inserção está subindo de categoria: começou na bugiganga, passou ao celular e agora entrou na garagem, mais de 90% dos carros elétricos e híbridos vendidos no Brasil são chineses, com mais de 340 concessionárias de marcas chinesas abertas no País. A invasão não vai acontecer. Ela já aconteceu.
Há algumas décadas, falar em China numa cidade brasileira pequena era falar de um lugar distante. Hoje, ela está na loja da esquina.
E o Brasil está presente na China? Muito. Só que de forma diferente. Estamos no prato do chinês, na ração dos animais, no minério que alimenta a indústria, na celulose, na carne, no café. Na soja, por exemplo, 72,9% das importações chinesas vieram do Brasil em 2025.
Nossa presença física e econômica é enorme; nossa presença de marca ainda é pequena.
Eu resumiria assim: a China já está na cabeça do consumidor brasileiro. O Brasil ainda está muito mais no estômago e na fábrica do consumidor chinês do que na cabeça dele. Esse é um espaço gigantesco para crescer.
- A China possui território amplo, recursos e um mercado interno gigante. São trunfos quase insuperáveis?
A China não é tão confortável em recursos naturais quanto parece olhando o tamanho do mapa.
Esse é justamente um dos motores do livro. A China precisa importar alimento e energia. Tem uma fração limitada da terra arável mundial, pouca água per capita e uma demanda energética gigantesca. Mais de 83% do petróleo que importa passa pelo Estreito de Malaca. Essa vulnerabilidade ajuda a explicar a obsessão chinesa por energia solar, baterias, carros elétricos e segurança alimentar.
Então, para mim, o maior recurso da China não está necessariamente debaixo da terra. Está acima dela: 1,4 bilhão de pessoas, milhões de engenheiros, fornecedores concentrados geograficamente, infraestrutura e uma capacidade quase obsessiva de transformar ciência em produto e produto em escala.
São trunfos enormes, mas o mercado interno gigante é menos “vantagem de nascença” e mais máquina de forjar campeões, e essa distinção importa. O mercado chinês é o ambiente mais competitivo do planeta: a margem média da indústria automobilística chinesa foi de 4,4% no ano passado, uma guerra de preços que mataria a maioria das empresas ocidentais.
Na IA, a “guerra dos cem modelos” (chegaram a ser 130 grandes modelos de linguagem, LLMs) está virando um clube pequeno. Em baterias, havia 155 fabricantes em 2017; hoje, menos de 40 têm capacidade real. A empresa chinesa que sobrevive em casa chega ao mercado global testada em fogo de artilharia. É o darwinismo como política industrial.
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