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FORA DE PAUTA

Reaprendendo a conviver com a chuva

Foto: Rodrigo Assmann

Houve um tempo em que chuva era convite. Convite para desacelerar, fazer um café, abrir um livro, ouvir o som das gotas batendo no telhado. Era o cheiro da terra molhada invadindo a casa, a desculpa perfeita para permanecer um pouco mais embaixo do cobertor, ou na janela observando a rua ganhar outro ritmo. A chuva tinha um quê de aconchego.

Mas algumas coisas mudam para sempre. Depois de 2024, ela nunca mais chegou da mesma forma. Basta o céu escurecer por dias seguidos para que o corpo responda antes mesmo da razão. O celular passa a ser consultado com mais frequência em busca da previsão do tempo. Os grupos de mensagens ficam mais silenciosos ou mais agitados, dependendo do nível dos rios. O ouvido parece aprender a distinguir a intensidade da água caindo. E qualquer notícia sobre acumulados de chuva já acelera os pensamentos.

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É curioso como a memória funciona. Um cheiro, um som, uma paisagem são capazes de abrir portas que pareciam lacradas, trazendo de volta sentimentos que achávamos ter superado. A chuva, que durante tanto tempo despertou lembranças afetivas, passou a carregar outras memórias. Não porque deixou de ser bonita, mas porque revelou a força da natureza, que muitos de nós conhecíamos apenas pelos livros, pelos relatos dos avós ou pelos noticiários distantes.

Ela passou a lembrar que a natureza não negocia. Lembra das ruas tomadas pela água, das famílias deixando suas casas às pressas, das pessoas contando prejuízos que nunca caberão apenas em números. Faz recordar o trabalho incansável de quem ajudou, a corrente de solidariedade que nasceu em meio ao caos, mas também o medo, esse sentimento silencioso que insiste em reaparecer sempre que a previsão anuncia mais uma sequência de temporais.

Talvez seja isso que chamam de memória coletiva. Mesmo quem não perdeu a casa, um móvel ou uma fotografia de família, perdeu um pouco da tranquilidade. A chuva deixou de ser apenas um convite para um filme para se transformar em uma pergunta: “Será que vai acontecer de novo?”

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E talvez essa seja a maior marca deixada pelas enchentes. Não apenas os estragos visíveis, mas aqueles que ninguém vê. A insegurança. A apreensão. O hábito de olhar para os rios antes de olhar para o céu.
Ainda assim, a vida encontra um jeito de seguir. Em algum momento, voltamos a preparar o café enquanto chove. Voltamos a escutar o barulho das gotas na janela.

Mas agora existe uma pausa antes da contemplação. Um instante em que o coração aperta e espera a confirmação de que será apenas chuva. Porque, desde 2024, aprendemos que nem toda chuva traz apenas água. Algumas carregam lembranças. E estas continuam conosco, mesmo quando o céu volta a ficar azul.

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