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Ricardo Düren

Ainda sobre a neve

Semana passada escrevi nesta coluna sobre o ranço de nossa caçula, Ágatha, por ainda não ter visto neve. A traquinas simplesmente não se conforma por jamais ter presenciado o fenômeno, em seus longos 8 anos de vida, e tem me colocado contra a parede – diz que posso escolher: ou a levamos com os irmãos para um parque temático com neve artificial, ou para a Lapônia, na Finlândia, onde mora o Papai Noel e, segundo ela, neva quase o ano todo.

E eis que nevou no Rio Grande do Sul nessa semana. Que curiosa coincidência… Seria também a Mãe Natureza mais uma leitora desta coluna? Teria ela se comovido com o drama de Ágatha e enviado a neve para realizar o sonho da nossa caçula?

Se foi esse o desejo da Mãe Natureza, ela nitidamente desconhece nosso endereço. Lá em casa não caiu um floco sequer.

Para piorar o quadro, sortudos que estavam na Serra Gaúcha inundaram a internet com fotos e vídeos da nevasca em Gramado, Canela e Caxias do Sul. Invejosos diriam que os autores desses vídeos são uns exibidos, mas eu mesmo, no lugar deles, teria gravado e fotografado tudo. As imagens dos flocos caindo insistentemente, da grossa camada de gelo sobre os automóveis e até dos bonecos de neve – ou criaturas similares – são realmente impressionantes.

Porém, tais notícias aumentaram a ira da caçula.

– Que raiva, pai! Todo mundo viu a neve… menos a gente!

LEIA MAIS: Ágatha quer ver a neve

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Confesso que também fiquei com uma ponta de inveja dos que viram a neve. Mas também fiquei preocupado. Neve na Serra Gaúcha, sabe-se, é um fenômeno comum, um atrativo que leva uma enxurrada de turistas para Gramado e Canela a quase todo inverno. Mas não é o caso, por exemplo, de Dom Feliciano, ali depois de Encruzilhada do Sul, onde a neve branqueou os campos na tarde de quarta-feira.

O município de Dom Feliciano é um grande produtor de tabaco. De início, o povo de lá até achou bonito ver a neve. Mas logo ficou bem assustado, ao perceber o gelo tomando conta das plantações. O fumicultor está sempre de olho no clima e busca avaliar com precisão o momento certo de transferir as mudas de tabaco das estufas para a terra, temendo os efeitos da geada. Mas nenhum espera que vá nevar sobre a lavoura.

Quem também não deve ter gostado nem um pouco do fenômeno foram os envolvidos em um acidente de trânsito provocado pela pista congelada, na ERS-350, entre Dom Feliciano e Encruzilhada. Felizmente, ninguém se machucou com maior gravidade. Mas duvido que os motoristas, após constatar os estragos em seus automóveis, tenham parado para contemplar, faceiros, a mudança na paisagem.

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E, enquanto essa estranha massa de ar polar nos surpreende aqui no Sul, uma onda de calor histórica assola o Hemisfério Norte do planeta, junto com enchentes antes inimagináveis na Alemanha e na China. Na Lapônia fez 33,6 graus no começo deste mês. Até o Papai Noel deve ter colocado bermudas.

No conjunto, trata-se de fenômenos que parecem ratificar os alertas acerca dos efeitos do aquecimento global, potencializado pela poluição. Isso quem diz não sou eu, e sim um coro de climatologistas, biólogos e outros cientistas que têm suficiente know-how para merecerem nossa atenção.

Mamãe Natureza, claro, não é leitora desta coluna. Ela é um complexo sistema que depende de um tênue equilíbrio para funcionar. Quando esse equilíbrio é quebrado, Mãe Natureza manda avisos – faz a Lapônia derreter e Dom Feliciano congelar.

Ou seja, fica tudo meio ao contrário. Afinal, por mais que Ágatha não se conforme com isso, nevar, aqui tão perto de casa, não é nada comum.

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