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Memória

Às vésperas do aniversário de Santa Cruz, conheça histórias do Palacinho

Foto: Alencar da Rosa

O ano era 1886, fazia apenas oito que Santa Cruz do Sul era cidade, e a sede do governo municipal – à época, formado pela Câmara de Vereadores – precisava de um espaço próprio. Depois de realizar uma enquete, para saber onde a população queria a sede do município, teve início a construção do prédio que os santa-cruzenses convencionaram chamar de Palacinho. Edificado conforme os preceitos do ecletismo, estilo que remete à arquitetura antiga – inclusive à antiguidade grega –, o prédio custou 45 contos de réis e foi erguido a partir do esforço de uma Santa Cruz que começava a escrever a sua história. Criado em um tempo em que o governo local era chamado de intendência, o prédio resistiu ao tempo, tornando-se uma das peças que ligam o presente ao passado do município. Passados 134 anos desde a concepção do projeto inicial, a Gazeta do Sul conta, na antevéspera do aniversário de Santa Cruz, fragmentos de histórias e estórias que rondam as paredes recém-repintadas do Palacinho.

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Cartão-postal que retrata a então Praça do Carvalho, em 1915

Um paço para a intendência da Vila de São Pedro de Santa Cruz
A historiadora Maria Luiza Rauber Schuster conta que a Santa Cruz do Sul de 1886 queria um prédio próprio para a sede da Prefeitura. Segundo ela, naquela época os municípios eram governados pelas Câmaras de Vereadores e o imóvel então utilizado pelo órgão era meio precário. “Era necessário construir um espaço próprio para abrigar a sede do município. Foi feita até uma pesquisa para saber em que local o prédio seria construído”, explica.

A disputa era entre duas praças: a Getúlio Vargas, que no século 19 chamava-se Praça São Pedro, e a Praça do Carvalho – atual da Bandeira, endereço do Palacinho. O historiador João Bittencourt de Menezes conta que, em julho de 1886, divergiam as opiniões sobre em qual lugar o paço deveria ser construído. Teve-se então a ideia de consultar os moradores da Vila de São João de Santa Cruz para saber onde queriam que a obra fosse realizada. Ao todo, 110 santa-cruzenses participaram da pesquisa e 77 elegeram o atual endereço para a construção do prédio.

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A conclusão da primeira etapa do prédio ocorreu três anos depois, em 1889. Já quanto à inauguração, os registros históricos divergem um pouco. De acordo com uma das versões, a inauguração do Palacinho contou com a presença do governador da época. Segundo Maria Luiza, em 19 de novembro de 1905 ocorreu um baile de gala no espaço do atual Salão Nobre. Na ocasião, celebrava-se a inauguração da Estação Férrea de Santa Cruz do Sul. Era o progresso chegando à jovem cidade. “O presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, esteve presente naquela solenidade”, afirma a historiadora. Borges era o que hoje Eduardo Leite é para os gaúchos.

Paço, no dicionário, significa palácio do rei, imperador ou bispo. O nome é dado a certos palácios que servem de sede ou residência oficial. A própria história revela que o nome “Palacinho” tem a ver com a estrutura do prédio, que tem quase mil metros quadrados, três pavimentos, 36 janelas, 29 portas e uma coleção de histórias que são contadas ao longo de décadas.

Registro de 1922

Cercado de histórias e causos de assombração
São várias as histórias que cercam as paredes do Palacinho. Paredes que, aliás, no passado, ficavam atrás de muros e grades. O acervo fotográfico dos fundadores da Gazeta, Francisco e Nelly Emma Frantz, revela esse antigo cenário. Postais de 1915 mostram que os pátios do Palacinho, que hoje compõem a área da Praça da Bandeira, eram separados da rua por grades.

Na década de 1970, várias secretarias funcionavam junto ao prédio. Em um dos governos do ex-prefeito Arno Frantz, em 1977, o servidor aposentado André Alexandre Dähn trabalhava na Secretaria Municipal de Fazenda. Em um tempo onde não existiam computadores, cobrar o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) era uma tarefa que exigia horas-extras dos servidores. Na época, André era um deles e virava a noite fazendo contas. “Não eram tantas matrículas assim de IPTU, porém, era um trabalho feito à noite”, confirmou.

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Nas madrugadas frias da década de 1970, coisas estranhas aconteciam no Palacinho. Seu André diz que portas batiam, o prédio todo estalava. “Quem é cético não acredita, mas quem conhece um pouco sobre o espiritismo sabe que esses barulhos são outras coisas.” Anos mais tarde, quando já haviam sido comprados os computadores, André Dähn teve o que classifica como uma experiência mediúnica. Diz ter visto o vulto do ex-prefeito Gaspar Bartholomay refletido na tela da máquina. Em uma ação rápida, olhou para trás, mas não viu ninguém.

O guarda municipal Marcos Schneider (foto) também recorda experiências paranormais no Palacinho. Um dos responsáveis pela segurança do local na época do governo de José Alberto Wenzel, Schneider revela que, no momento em que o último servidor ia embora, começava o abrir e fechar de portas e janelas. “A gente ouve o barulho das portas abrindo e fechando. Ouvem-se passos. Aí o guarda faz a ronda e não tem nada”, confidencia.

Schneider conta que, em três anos, esteve à frente da segurança do prédio – uma das responsabilidades da Guarda Municipal – várias vezes. Seguidor da doutrina espírita, afirma que não tinha medo das manifestações que ocorriam quando estava de guarda. “Este é um dos prédios mais procurados por turistas. Todo mundo que chega à praça quer conhecer. Tem gente que fala que é mal-assombrado, outros nunca vão ver nada. Eu só ouvi, jamais vi”, complementa.

É preciso respeitar e não zombar
Uma das servidoras que trabalham no Palacinho não gosta de falar do assunto. À reportagem da Gazeta do Sul, ela pediu discrição e não quis deixar seu nome. Vamos chamá-la de Ana.

Ana fica incomodada com o assunto “assombração” no Palacinho. “É preciso respeitar o que acontece aqui. São pessoas que partiram, mas ficaram presas a essas paredes”, acredita. Ela também menciona acontecimentos estranhos no prédio.

Aspirador de pó que se desliga sozinho na limpeza do Salão Nobre. Luzes que apagam e acendem, coisas sem explicações aparentes que ocorrem no cotidiano do local. “A gente não vê ninguém, sente a presença. Alguns deles (e mostra os quadros da galeria de ex-prefeitos, com vários já falecidos) parecem ter ficado por aqui”, disse.

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Segundo relatos, passos são ouvidos dentro do prédio, após o encerramento do expediente da sede da Prefeitura de Santa Cruz | Foto: Alencar da Rosa

NO LADO DE FORA
O jardineiro Paulo Roni Toledo de Moura (foto) tem 58 anos e há 16 dedica-se a cuidar das plantas da Praça da Bandeira. Ele é o jardineiro do Palacinho. Auxiliado por outros servidores, cuida da limpeza e conservação dos pátios.

Paulo, que usa um dos porões do Palacinho para guardar ferramentas, desconhece as histórias de espíritos na parte interna do prédio. “No lado de fora não acontece nada disso. Eu só ouço elogios pela conservação dos jardins, essa é a minha preocupação”, confirmou.

Reforma entra na fase final
A revitalização externa do Palacinho está quase concluída. Já foram finalizadas as etapas de limpeza e recuperação do telhado, a pintura nas laterais e nos fundos e o conserto nas esquadrias. A última reforma que havia sido feita no local foi em 2004.

Na reforma atual, as cores originais do prédio foram mantidas, com uso de tons de bege e branco, com a base mais escura e o restante mais claro. No momento são realizados reparos na fachada e nas laterais da escadaria de acesso. Após concluída a revitalização do prédio, a próxima etapa será o ajardinamento. O investimento na obra é de R$ 192.478,52.

Atualmente, o Palacinho é sede do gabinete do prefeito Telmo Kirst (PSD). A Secretaria de Comunicação, os setores de Licitações, Patrimônio e o órgão responsável pelas sindicâncias têm escritórios no local. O prédio conta com o Salão Nobre, que hoje é o palco dos grandes anúncios e reuniões importantes com secretários de governo. O espaço também abriga a galeria dos ex-prefeitos de Santa Cruz do Sul.

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