Qual é o verdadeiro gosto que uma pessoa prova enquanto está aprendendo uma nova língua? Não é doce como um famoso cornetto italiano. É amargo e caótico, confuso, indiscriminado. O mundo tende ao caos, e aprender um novo idioma… também. É como pintar um quadro de arte moderna, repleto de cores e novos fonemas. Abstrato, pois os conceitos gramaticais, de sintaxe e de léxico não são claros no início. E, mesmo após a fluência, não sei se algum dia esses elementos serão realmente nítidos. Existe sempre uma palavra ou expressão que não conhecemos e regras que nunca entenderemos.
É um caminho solitário, pois requer esforço individual e muito estudo. Porém, apenas a leitura e a solidão não bastam. Para aprender um novo idioma é necessária uma troca, uma conversa. Seja com um professor, com um nativo ou outro estrangeiro como você, que esteja aprendendo a língua. Afinal, a utilidade de uma língua é se comunicar. Uma autora que trata o tema de forma interessante é Jhumpa Lahiri. Durante a nossa lua de mel na Toscana, enquanto sentia a brisa fresca do mar da “Isola d’Elba” (ilha onde Napoleão Bonaparte ficou em exílio), refleti sobre a minha jornada no italiano com a leitura de In altre parole (Em outras palavras), da autora.
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Vou contar um segredo para vocês. Sonho em escrever um livro (em português, mas também em italiano). E, em outro idioma, as inseguranças são maiores. Em português, conheço os termos, as melhores palavras de acordo com o texto. Acho que sei escrever sobre certas temáticas, embora comece a confundir italiano e português com certa frequência. Talvez vocês gostem de me acompanhar nesta coluna e talvez eu esteja fazendo um bom trabalho (espero). Mas, em outra língua, não tenho a mesma confiança. É como se eu fosse uma menina de 7 anos escrevendo no corpo de uma mulher de 28 anos.
As frases se tornam simples, curtas, diretas. E é exatamente isto que a autora retrata: o seu método de escrita nasce como uma mistura de mosaico e collage, como fazia o artista Matisse quando reinventou o seu estilo através do recorte, definido como “pintar através de uma tesoura”. Tudo começou como um experimento em um caminho desconhecido, mas ao mesmo tempo curioso. Um percurso que nos limita e, paradoxalmente, também nos liberta. Sem conhecer todas as regras, sem enxergar todas as possibilidades, a alma encontra espaço para se expressar.
A escritora descreve a frustração de já ser uma escritora renomada, enquanto decide recomeçar e aprender a escrever em uma outra língua. Para contextualizar, Lahiri é filha de imigrantes bengaleses nos Estados Unidos. Como ela mesma define, a sua relação com as línguas é um triângulo. Em casa, comunicava-se de forma obrigada pelos pais através do bengalês, a língua que lhe permitia honrar as suas origens. Na outra ponta, o inglês, a língua que lhe permitiu estudar e se desenvolver no país em que cresceu. E o italiano se tornou a terceira intersecção, a qual ela aprendeu por simples prazer e amor à Itália, um lugar seu no coração. ,
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E o livro sobre o qual estamos falando nasceu durante o seu período em Roma. Simples anotações em seu diário sobre o processo de aprender uma nova língua, com todos os seus obstáculos e, claro, prazeres nas pequenas vitórias. A inspiração vem do seu medo de ser imperfeita, da vulnerabilidade e da impossibilidade de conhecer todas as regras gramaticais e do vocabulário. Assim como também retrata uma crise existencial: o livro que a portou para um desvio e que a obrigou a escolher o seu destino. Uma escritora já famosa e reconhecida por escrever em língua inglesa que decidiu escrever um livro em italiano. Inesperado e audaz. Ela se questiona se deveria continuar nessa estrada? Abandonar o inglês e escolher 100% o italiano? Ou, uma vez que retornasse aos Estados Unidos, retornaria ao inglês? Já com o bengalês… este partiria de forma espontânea uma vez que os seus pais também partissem, pois não teria com quem mais praticar.
E é interessante notar como cada língua ocupa um lugar dentro de si. Depois que uma pessoa se torna poliglota, nunca mais o seu cérebro se comportará como o de um monolíngue. Quando ela escreve em italiano, pensa em italiano. Quando escreve em inglês, pensa em inglês. A regra é simples. E realmente é assim: pois se torna impossível traduzir tudo o tempo inteiro, seria exaustivo. Nasce, como consequência, uma metáfora: um mergulho em lago profundo. Se você ficar sempre apoiado na segurança da margem, nunca estará totalmente imerso. E, como consequência do processo, nascem novas versões de si mesmo nos novos idiomas.
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Fernando Pessoa é um exemplo citado pela autora: ele inventou quatro versões de autores diferentes, os quais ultrapassaram as fronteiras de si mesmo. Mas as raízes permanecem: a sua primeira língua, em certo modo, sempre te definirá, pois o sotaque ecoa (se você aprendeu nova língua depois de adulto). Assim, Lahiri decide que, ao invés de se tornar uma outra escritora, decide ser duas. E a versão em italiano se desafia diante da falta de conhecimento e de fluidez.
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As suas obras nascem desta busca por uma imagem precisa e completa de si mesma, ao invés dessa versão fragmentada por línguas e fronteiras. Como uma imigrante, nunca nos sentimos inteiros. E foi aqui que me vi refletida nas suas palavras. Existe a vida construída no novo país e existe a vida e a língua deixada no país de origem, além de todos os outros lugares em que você criou raízes. A imagem de si mesma para si mesma é sempre confusa.
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E é verdade: brasileira demais para ser italiana, italiana demais para ser brasileira. De origem alemã, que foi a minha primeira língua e reflete as origens da minha família, e o inglês, pois fiz faculdade nos Estados Unidos e é a língua em que componho as minhas músicas. Além de, claro, o português. Eu também não consigo definir a moldura do quadro da versão completa de mim mesma. E é desse lugar que nós duas buscamos ferramentas e meios para nos expressarmos. É desse vazio e dessa incerteza que germina o impulso criativo.
In altre parole me ajudou a encontrar minhas próprias palavras e a entender meu processo de aprendizagem com o italiano. Se você estiver aprendendo o idioma, recomendo a leitura. E depois vamos conversar: mande e-mail a [email protected]. Quero saber o que você achou das reflexões.
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