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Bélgica: as marcas indeléveis do colonialismo – Final

Foto: Arquivo Pessoal

Sob o Atomium, em Bruxelas, uma abominável exibição de congoleses

Meu primeiro interesse sobre a macabra dominação belga do Congo surgiu há mais de três décadas, em Moscou. A convite de amigos angolanos, visitei a Universidade Russa da Amizade entre os Povos Patrice Lumumba. Lumumba (1925-1961) foi o primeiro chefe de governo da então República do Congo, eleito democraticamente após a independência do país africano, em 1960.

Para entender o passado e o presente do Congo, é preciso entender a história de atrocidades cometidas pela Bélgica nos séculos 19 e 20. O primeiro monarca belga, Leopoldo I, era um líder respeitado e pragmático, que trouxe estabilidade e desenvolvimento ao novo país, o primeiro da Europa continental a se industrializar. Seu herdeiro, contudo, deixaria um legado infame e perverso.

Em 1884, o chanceler alemão Otto von Bismarck convidou as demais nações europeias ocidentais para a Conferência de Berlim. A meta era traçar o mapa político da África, sem qualquer consideração pelas divisões étnicas, culturais ou linguísticas do continente, e, é claro, sem convidar nenhum líder africano. Os territórios foram divididos entre os países europeus, com uma curiosa exceção: o Congo, uma das regiões africanas ainda não incorporadas às potências coloniais europeias, foi cedido pessoalmente ao Rei Leopoldo II da Bélgica, que controlaria de forma privada o chamado Estado Livre do Congo. De livre, aliás, o país só tinha o nome.

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O custo humano e a crueldade com o povo africano foram imensuráveis, deixando uma mancha que até hoje marca a nação congolesa. O objetivo oficial era “civilizar” e cristianizar o povo. Na prática, o território se tornou um enorme campo de escravizados em pleno pico da demanda de borracha e minérios, trazendo uma fonte de vasta riqueza para um monarca que jamais colocou os pés em solo africano.

O violento sistema de trabalho ficou conhecido como Borracha Vermelha, colocado em prática por uma força militar colonial de oficiais brancos e soldados congoleses. Os escravizados que não atingiam suas cotas diárias eram sumariamente executados ou punidos com a amputação das mãos. O sistema arrasou com o tecido cultural do país e estima-se que cerca de 10 milhões de congoleses, a metade da população, tenham sido mortos pelas tropas de Leopoldo II.

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Uma das barbáries do monarca belga foi trazer 260 congoleses para a Europa e organizar um zoológico humano em uma de suas propriedades. A cerca que delimitava o espetáculo de horror exibia placas com a frase “Proibido alimentar os animais”. No Congo, as crueldades passaram a ser denunciadas por alguns missionários. Leopoldo foi forçado a vender o território para o Estado belga, em 1908. As práticas racistas, contudo, continuaram.

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Um dos símbolos de Bruxelas é o Atomium, uma enorme construção inspirada em um modelo atômico, construída para a Feira Mundial da Bélgica, em 1958. Símbolo futurista de uma Europa otimista no pós-guerra, a feira escondia, paradoxalmente, uma exibição colonial anacrônica: uma vila de congoleses, novamente confinados em uma área cercada. Uma lembrança de que algo que hoje é considerado abominável aconteceu muito recentemente.

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Menos de um ano após a independência do Congo, um golpe militar derrubou o governo de Patrice Lumumba. O congolês foi preso, torturado e executado, com participação de autoridades belgas e aliados congoleses. Seu corpo foi dissolvido em ácido para que não se tornasse um mártir. Além dos belgas, americanos e britânicos abençoaram o assassinato, segundo eles, para frear o avanço do comunismo. Lumumba, um nacionalista e pan-africanista, nunca se definiu como comunista.

Estátua de Lumumba em Kinshasa, capital que já se chamou Leopoldville | Foto: Arquivo pessoal

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O ditador Joseph-Desiré Mobutu estabeleceu um regime autoritário e truculento, permanecendo no poder por 32 anos. Em 1971, Mobutu mudou o nome do país para República do Zaire e só foi deposto em 1997, quando o país voltou a se chamar República Democrática do Congo.

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As feridas, os traumas e o desastre humanitário causados pelos belgas levarão gerações para serem superados. Na Bélgica, um movimento recente vandalizou estátuas de Leopoldo II e retirou seu nome de praças e ruas do país. Em 2002, o rei Philippe expressou, pela primeira vez em 112 anos, profundo pesar pela humilhação e pelo sofrimento que seu ancestral causou ao povo congolês. Infelizmente, ele não chegou ao ponto de pedir perdão pelas atrocidades.

O caso belga talvez seja apenas uma das expressões mais explícitas da violência colonial que ajudou a financiar a prosperidade de diversas potências europeias. Por trás da opulência econômica, há uma história sangrenta de exploração oficial, sem qualquer disposição para reparação.

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