Às vezes, quando sento para escrever e as ideias não vêm, levanto e vou caminhar um pouco. Sempre funciona. É como se o cérebro também se movimentasse, respirasse, saísse do torpor e da imobilidade. Esticar as pernas para esticar os neurônios. De certa maneira, é como seguir o conselho de Pablo Neruda ao carteiro Mario, no célebre romance do chileno Antonio Skármeta, O carteiro e o poeta:
“E você fica sentado para pensar? Se quer ser poeta, comece por pensar caminhando.”
Antes de Skármeta/Neruda, já era esse um hábito do filósofo Jean-Jacques Rousseau em suas andanças por Paris e arredores nos últimos anos de sua vida, as quais resultaram no livro de ensaios “Os devaneios do caminhante solitário” (1782). Menciono isso só por curiosidade, já que não sou necessariamente poeta e muito menos um Rousseau.
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Mas há mérito suficiente em andar ao acaso, sem compromisso nem itinerário definido, ao menos para sentir-se um pouco livre. Trata-se de um privilégio que nem todos têm, e sabe-se lá o que o futuro nos reserva em termos de liberdade. E se um dia caminhar à toa for proibido?
Ray Bradbury, autor de “Fahrenheit 451”, imaginou exatamente isso no breve conto “O pedestre”, publicado em 1951. Numa sociedade distópica em 2053, ninguém mais caminha pelas ruas, ato que é criminalizado por ser considerado subversivo. O normal, o aceitável, é se deslocar exclusivamente de carro ou ficar em casa com os televisores ligados (Se estiverem desligados, já é suspeito). O único pedestre nesse mundo aparentemente é o escritor Leonard Mead, que há anos mantém o hábito de andar por calçadas absolutamente desertas. Até que um dia ele é abordado por uma viatura policial.
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O carro-patrulha, um veículo movido por inteligência artificial (sem condutor humano), quer saber de Leonard quem ele é, qual sua profissão e por que está circulando a pé como um anormal. Mas ele não consegue dar resposta satisfatória a nenhuma das questões. É um escritor (profissão obsoleta e considerada inútil) e caminha apenas “por caminhar e para ver”, algo incompreensível.
No fim, o pedestre é preso e enviado ao chamado “Centro Psiquiátrico de Pesquisa de Tendências Regressivas”, onde investigarão seu estranho comportamento. Se Leonard não fosse tão antissocial e fizesse o que todos fazem nos momentos de lazer – ficar com os olhos cravados na frente de telas cegantes –, certamente não teria problemas.
Hoje também estamos presos a telas, embora não sejam como no conto de Bradbury. Temos o celular que levamos de um lado a outro, inclusive em caminhadas de lazer. Mas se quisermos caminhar para ver (e pensar), melhor seria deixá-lo em casa. Neruda aprovaria.
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