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FORA DE PAUTA

A terceirização do cérebro

Foto: Banco de Imagens

Existe uma diferença enorme entre usar uma ferramenta para ampliar nossas capacidades e usá-la para substituir aquilo que deveríamos continuar sendo capazes de fazer sozinhos. A inteligência artificial chegou prometendo produtividade, eficiência e democratização do conhecimento, e isso tudo é verdade. O problema começa quando, fascinados pela conveniência, passamos a terceirizar para as máquinas não só tarefas complexas, mas também aquelas atividades simples que formam a base da nossa capacidade de pensar.

Já há gente recorrendo à inteligência artificial para escrever uma mensagem de três linhas, resumir um texto de duas páginas, calcular uma soma simples, formular uma pergunta, organizar uma ideia ou até decidir como responder a alguém. Não é bem a tecnologia que assusta. É a velocidade com que estamos nos acostumando a não pensar.

Marshall McLuhan, ao discutir os efeitos dos meios de comunicação, já alertava que o meio não é um canal neutro que apenas transporta conteúdo. Ele muda a forma como percebemos, pensamos e nos relacionamos com o mundo. A famosa frase de que “o meio é a mensagem” ganha um contorno quase inquietante na era da inteligência artificial. A ferramenta que usamos para pensar pode, aos poucos, passar a determinar quanto e como pensamos.

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O risco não está em perguntar à máquina algo que não sabemos. Isso é inteligência aplicada, é usar a ferramenta do jeito certo. O problema é consultar a máquina antes mesmo de tentar descobrir o que a gente sabe. É abandonar o esforço de formular uma frase porque um algoritmo formula por nós. É deixar de fazer uma conta porque a calculadora está ali, à mão. É não procurar uma palavra na memória porque existe um campo de busca pronto. É não ler o texto inteiro porque alguém pode resumir. É não aprender porque basta perguntar.

O cérebro, como qualquer outra capacidade humana, também depende de exercício. Se terceirizamos continuamente a memória, a escrita, o raciocínio, a pesquisa, a interpretação e a resolução de problemas, não deveríamos nos surpreender quando essas habilidades começarem a enferrujar.

Há ainda um efeito menos visível, mas talvez mais grave: quem não lê, não escreve, não pesquisa, não memoriza, não conversa a fundo e não se dá ao trabalho de elaborar uma ideia vai acumulando cada vez menos repertório para entender o mundo. E uma pessoa sem conhecimento fica perigosamente dependente de quem, ou do que, pensa por ela.

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No ambiente profissional isso pode ser ainda mais perverso. Uma empresa pode ganhar velocidade automatizando tarefas, mas uma sociedade que forma profissionais incapazes de executar aquilo que foi automatizado começa a perder autonomia. Se o sistema falhar, se a conexão cair, se o algoritmo errar ou simplesmente apresentar uma resposta convincente e equivocada, vai sobrar a pergunta incômoda: alguém ainda sabe fazer isso do jeito antigo?

A inteligência artificial deveria funcionar como uma espécie de exoesqueleto intelectual, feito para ampliar aquilo que somos capazes de fazer; não para atrofiar o que sabemos. Uma calculadora não deveria formar adultos incapazes de calcular. Um assistente de texto não deveria formar profissionais incapazes de escrever. Um mecanismo de busca não deveria formar pessoas incapazes de lembrar. E uma inteligência artificial não deveria formar seres humanos que perderam o hábito de pensar.

A ironia é que, enquanto tememos que as máquinas se tornem inteligentes demais, talvez estejamos cometendo o erro inverso, o de tornar os humanos intelectualmente preguiçosos demais. Quem sabe o verdadeiro desafio da inteligência artificial não seja ensinar máquinas a pensar como humanos, mas impedir que os humanos pensem como máquinas. 

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