Final de julho. A maré baixa da manhã convida para a imersão no Pontal do Maracaípe, em Ipojuca, Pernambuco. Antes de adentrarmos pelo mangue, buscamos informações junto aos pescadores e marisqueiros que conhecem o ambiente estuarino do rio Maracaípe. Não tarda para que alguns jangadeiros se ofereçam para nos conduzir. Agradecemos, pois optamos por caminhar. Mesmo assim, em gesto de gentileza, nos aconselham cautela com a maré.
Cuidando para não pisar em falso, seguimos pelo manguezal. Sentimos a tendência do corpo se encravar na lama. A cada passo, as raízes em arco do Mangue Vermelho se oferecem em valioso arrimo. Frente à infinidade dessas raízes, tentamos entender como elas se relacionam com seus caules e com o ambiente.
De pronto, evidencia-se a rede de conexões onde terra, água, ar, caranguejos, pássaros, humanos e tantos outros elementos e criaturas interagem dinamicamente. Qualquer simplificação descabe.
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Resumir o mangue a sua condição transicional entre o ambiente marinho e continental é apequená-lo. Ver o mangue como uma área que se hidrata ao ir e vir da maré, igualmente não é suficiente, assim como restringi-lo à capacidade de capturar CO₂ e de assegurar anteparo à erosão não lhe faz toda justiça.
O mangue, a par de suas dimensões e serviços ecológicos, se constitui em magnífico berçário e abrigo geobiodiverso. Mesmo assim, ainda não é tudo.
O mangue, a um tempo oceano e continente, universaliza as coexistências. No mangue nos percebemos ínfimos, grandiosos e ancestralizados. Como não lembrar das criaturas que vivenciaram, originariamente, a transição dos ambientes aquáticos e terrestres? Passado, presente e futuro se imbricam em dinâmica trajetória.
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Todavia, se tão generoso o ambiente estuarino, por que não nos curamos de nossa incúria? Por que seguimos com a fragmentadora pressão urbanizante sobre essas áreas de tanta importância ambiental?
Se mais não fosse, a beleza de lugares assim, acrescidos dos recifes de corais e do nascer e pôr do sol, não seria suficiente para frearmos nossa falsa ideia de progresso e bem-estar?
O encanto também entristece. Todavia, o mar se reanuncia. Percola. Alimenta e é nutrido pelo mangue.
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Hora de retornar. Para onde? Onde o lugar dos humanos? Chegará o dia em que nos entenderemos enquanto seres imanentes à casa natural e não como meros intervenientes?
Mesmo assim, a maré dita que retornemos.
No caminho, restos de uma jangada testemunham a melancolia que permeia o encanto entristecido. Talvez a jangada possa voltar a flutuar. Quem sabe, confiantes e afetuosamente sensibilizados, todos possamos ser estuários que nunca desistem e se acarinham em fluxo compartilhado.
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Nisso, um vistoso bem-te-vi nos saúda.
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