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CINEMA

Corrente do Mal: o terror que transforma um pesadelo em maldição

Foto: Divulgação

Por volta dos dez anos, David Robert Mitchell tinha um pesadelo recorrente no qual uma figura caminhava lentamente em sua direção. Ele conseguia escapar, mas a criatura, que assumia diferentes formas, continuava a persegui-lo.

Anos depois, o sonho se transformaria em Corrente do Mal (It Follows), um dos filmes de terror mais marcantes das últimas décadas.
A primeira cena estabelece o tom paranoico e perturbador da obra. Uma jovem sai de casa descalça, corre pela rua e olha para os lados, como se procurasse algo. Entra no carro e foge em direção à praia. De costas para o mar, grava uma mensagem de despedida à família. Na manhã seguinte, seu corpo é encontrado em uma cena brutal.

Mitchell transforma a figura de seu pesadelo em uma entidade que persegue pessoas amaldiçoadas. A maldição é transmitida por meio de relações sexuais. A criatura assume diferentes formas humanas e somente para quando alcança e mata sua vítima. Depois, volta a perseguir quem transmitiu a maldição.

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Jay (Maika Monroe) torna-se a próxima vítima após fazer sexo com Hugh. Drogada e amarrada pelo rapaz, descobre a existência da entidade e as regras da maldição. A partir daí, precisa encontrar uma maneira de sobreviver a uma ameaça que pode surgir a qualquer momento.

O diretor transforma seu pesadelo de infância em uma experiência igualmente angustiante para o público. A fotografia, a montagem e as cores criam uma atmosfera que oscila entre o sonho e o pesadelo. A entidade só é visível para os amaldiçoados e para o espectador, que passa a compartilhar a paranoia de Jay. A atuação de Maika Monroe é essencial para transmitir esse desespero.

A criatura também é um dos grandes acertos do filme. A referência a Michael Myers, de Halloween, é evidente, mas Mitchell cria uma ameaça própria. Qualquer pessoa pode ser a entidade, e qualquer lugar se torna perigoso. Mesmo à luz do dia, espaços abertos deixam de oferecer segurança.

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A perseguição incessante também justifica a duração do filme. A maldição não dá trégua, e a ameaça sempre pode voltar, mesmo quando Jay acredita ter encontrado uma saída. Mitchell não precisa explicar tudo nem oferecer respostas definitivas. Seu mérito está em transformar uma premissa simples em um pesadelo que também assombra o espectador. Com sua atmosfera sombria e premissa original, Corrente do Mal é uma opção para quem procura um terror que foge do convencional.

O alerta por trás da maldição

A premissa de Corrente do Mal – uma maldição transmitida por meio de relações sexuais – pode parecer absurda, mas remete a um problema bastante concreto: as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). No Brasil, os casos de sífilis adquirida passaram de 69,9 mil em 2015 para 256,8 mil em 2024. No Rio Grande do Sul, a taxa de detecção chegou a 160,7 casos por 100 mil habitantes, acima da média nacional, de 120,8.

Outra IST bastante comum é o HPV. Estudos nacionais apontam que quase seis em cada dez jovens sexualmente ativos, entre 16 e 25 anos, têm o vírus. A vacinação é uma das principais formas de prevenção, mas a cobertura vacinal ainda é um desafio.

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O HIV também segue presente, apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento. O uso de preservativos, a testagem e o acesso à profilaxia pré e pós-exposição são medidas importantes para prevenir novas infecções.

A relação entre sexo e morte é uma das possibilidades de interpretação de Corrente do Mal. O próprio diretor David Robert Mitchell já comentou que o filme permite diferentes leituras. A maldição também pode ser vista como uma metáfora para o medo das consequências de uma relação sexual.

No filme, a única maneira de tentar escapar é transmitir a maldição a outra pessoa, sem garantia de que a ameaça não volte. Na vida real, as ISTs não são uma sentença inevitável. Ainda assim, em uma geração que parece menos preocupada com esses riscos, o filme pode servir de alerta sobre consequências que vão muito além da ficção.

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