No meio em que cresci, uma frase soava como verdade absoluta. Era repetida por pais, tios, vizinhos e amigos distantes. Entre uma conversa e outra, alguém logo dizia: “Os filhos são criados para o mundo”. À primeira vista, eu sentia algo estranho ao escutar essa afirmação. Afinal, parecia que mandavam as crianças para fora de casa. Mas o tempo passou e aquilo se concretizou para mim e, possivelmente, para você, leitor.
Ganhei o mundo por volta dos 21 anos. Após receber uma proposta de emprego em outra cidade, passei algumas noites em claro refletindo. Conversei com meus pais e decidi que valeria a pena. O salário era bom e a oportunidade de conhecer novas pessoas também pesou bastante, assim como as referências que recebi acerca do lugar. O destino, no caso, era Candelária. Na época, embarcava no ônibus às segundas-feiras, às 6 horas, e voltava para casa, em Cachoeira do Sul, às sextas-feiras depois do almoço. Trazia uma mala com as roupas da semana para lavar e muitas histórias para contar. Embora, pelo telefone, pudesse me manter atualizado do que acontecia no lar, sempre havia algo novo a falar e ouvir.
Por cerca de dois anos ou um pouco mais, mantive essa rotina. Com o tempo, fui me desapegando do conforto da casa em que cresci e imprimi meu estilo de viver, sempre lembrando daquilo que vivenciei. Para meus pais, foi uma forma suave de lidar com o chamado “ninho vazio”, que tanto foi assunto em reportagens sobre comportamento.
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Em 2005, quando surgiu a proposta de vir para a Gazeta, a mudança para Santa Cruz foi algo que também exigiu planejamento e trouxe inquietações. Além de ficar mais tempo afastado de Cachoeira, tinha agora toda a história com amigos e a vida construída em Candelária, mas estava na hora de crescer. Agora em agosto completam-se 21 anos na terra da Catedral São João Batista e na Gazeta.
O tempo mostra que, por mais que tenha sido angustiante no início, a decisão foi a melhor. Desde aquela primeira conversa em casa, ganhei o mundo para além das cidades onde morei.
Ontem foi Dia dos Pais e pensar nisso, agora na condição de pai, faz entender que os filhos são criados para o mundo mesmo. O Antônio está com 9 anos e, pela lógica, ainda vai levar algum tempo para seguir seu rumo, mas desde cedo sabe que chegará a hora. E eu e a Verushka também.
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Agora, nas férias de inverno, tivemos a primeira experiência nesse sentido. Ele viajou sem nós pela primeira vez. Foi com a tia, o primo e a avó passar uns dias na Serra. Nosso ninho ficou vazio, um tédio. Faltava aquela pessoinha falando, andando pela casa, contando histórias e explicando algo sobre o videogame que conheceu há poucos dias ou a respeito do livro novo.
Como pai, espero que, quando chegar a hora de meu filho ganhar o mundo, eu possa tê-lo preparado com o que há de melhor. E isso vai além do aspecto material que, por mais custoso que seja, ainda é o mais prático. Preparar um filho exige responsabilidade, dedicação e carinho. Esse é o papel que um pai deve – ou deveria – desempenhar. O seu João, meu saudoso pai, fez isso ao lado da mãe. E agora tento seguir pelo mesmo caminho.
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