O terror nem sempre precisa de monstros ou criaturas sobrenaturais para provocar medo. Às vezes, a realidade oferece situações ainda mais perturbadoras. É a partir dessa perspectiva que a diretora catarinense Cíntia Domit Bittar constrói Virtuosas, longa-metragem que aborda o universo das mulheres ultraconservadoras e a submissão feminina. Estrelado por Maria Galant, o filme transforma questões sociais e comportamentais em matéria-prima para o horror.
Na trama, a busca por uma vida considerada perfeita esconde contradições e situações cada vez mais inquietantes. Ao explorar esse ambiente, Virtuosas aproxima o terror de debates contemporâneos e mostra como determinadas ideias podem ganhar contornos assustadores quando levadas ao extremo. O Magazine assistiu ao filme a convite da Primeiro Plano e conversou, em entrevista exclusiva, com a diretora e a atriz sobre a produção.
Formada em Cinema pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), Cíntia Domit Bittar cresceu em Caçador e construiu uma trajetória marcada pela presença em festivais nacionais e internacionais. Seu curta-metragem Baile foi qualificado ao Oscar de 2021, após vencer o prêmio de melhor curta no Festival Internacional de Cinema de Cartagena. Além de dirigir e produzir, também atua no roteiro e na política audiovisual.
Maria Galant protagoniza Virtuosas no papel de Germina. A atriz constrói uma personagem que transita entre a convicção em suas crenças e as contradições que surgem ao longo da história. Sua atuação contribui para dar dimensão humana a uma figura que, em meio ao universo inquietante do filme, também representa o público diante de situações cada vez mais absurdas.
Em entrevista ao Magazine, Cíntia e Maria falam sobre as inspirações para o longa, a pesquisa que deu forma ao universo retratado e os desafios de construir personagens que dialogam com a realidade. A diretora também comenta a preocupação com o avanço de ideias conservadoras, enquanto a atriz aborda a dualidade de Germina e a importância de não subestimar as contradições presentes nas relações humanas.
Entrevista – Cíntia Domit Bittar e Maria Galant, diretora e atriz de Virtuosas
- Magazine – O que chamou a atenção de vocês nesse universo dos coaches e da submissão feminina a ponto de render um filme de terror?
Cíntia Domit Bittar – Gosto muito desses contextos de grupos, de pessoas unidas por crenças em comum. Acho interessante abordar isso. Acabamos tendo essa configuração em espaços religiosos e de empreendedorismo. É um grupo de pessoas que, à primeira vista, pode parecer muito homogêneo, mas cada uma está ali como indivíduo, com suas limitações, fraquezas, maldades e contradições. É interessante explorar isso em um filme de grupo, porque, como roteirista, é um desafio falar de um conjunto de personagens e, ao mesmo tempo, dar uma personalidade bem definida a cada integrante.
Não é fácil. Muitas vezes, vemos filmes assim em que o grupo parece ter uma voz só. Fica muito claro que é a mesma pessoa que escreveu tudo. Então, foi um desafio para nós. A outra roteirista, Fernanda de Cápua, contribuiu muito. Antes de reestruturar o roteiro, fizemos um arquivo para cada personagem, para entender quem ela é, o que quer, o que busca, se consegue ou não, e como interage com as outras. Isso se aprimorou ainda mais nos ensaios, com a entrada das atrizes, que, com seu conhecimento, pesquisa e técnica, puderam tornar essas personagens mais únicas.
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Isso é muito legal no terror, porque, para mim, é o melhor gênero para falar sobre qualquer coisa na ficção. Por que não isso? O terror é um gênero muito amplo e diverso, não apenas um rótulo comercial. Cabe muita coisa nele. O filme tinha várias mudanças de tom: humor ácido, suspense, absurdo e tragédia. Era bom ter um gênero que abarcasse tudo isso de forma orgânica e que também entretivesse as pessoas.
O primeiro impulso da história foi falar de negacionismo, de antivacina, de pessoas que acreditam em qualquer coisa absurda, mas não no que está diante dos próprios olhos. Quisemos trazer isso para o filme, para que o espectador também esquecesse, ao longo da história, o que está acontecendo e só lembrasse no final. O universo das mulheres ultraconservadoras é o contexto em que essa semente foi inserida. Para mim, é o coração do filme, que fica pulsando escondido até se revelar no final.
Maria Galant – As atrizes também contribuíram muito para esse trabalho de construção. Tem uma coisa que a Cíntia fala e de que gosto muito, que é sobre como o terror sempre levou as pessoas ao cinema, sempre fez com que elas quisessem assistir e saber o que vai acontecer. A primeira experiência do público com o cinema, por exemplo, foi aquela do trem vindo em direção à tela, com a sensação de impacto que provocava nas pessoas.
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Acho que existe também essa ideia de que o cinema é um espaço em que podemos experimentar a sensação de vida e morte. O filme termina, saímos do cinema e a vida continua. Gosto de ver o terror nesse lugar, como uma oportunidade de experimentar isso em vida.
Maria, o que te atraiu no projeto e no texto a ponto de querer participar do filme?
Maria Galant – Gosto muito do trabalho da Cíntia. Conheço ela há muito tempo e já existia uma vontade de trabalharmos juntas. Fiquei muito feliz quando ela me escreveu dizendo que tinha um filme que queria que eu fizesse. Mandou a história para eu ler, mas não disse quem gostaria que eu interpretasse. Fiquei na torcida para ser a Germina.
Acho que ela dialoga muito com o universo em que circulo e com as pessoas com quem convivo. Temos uma noção do que está acontecendo no Brasil e na política, mas existe uma tendência constante de não dar importância, levar na brincadeira, rir e achar que não é bem assim. Acho que foi nesse papel de menosprezar o que os outros estão fazendo que acabamos entrando, como país, em um lugar muito difícil de sair. A cada quatro anos, voltamos a enfrentar os mesmos demônios.
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Agora estamos enfrentando uma nova questão antivacina. Tomei vacina contra o sarampo quando era criança e tive que tomar de novo agora, com quase 30 anos. A Germina se assemelha muito ao universo em que estou inserida: ela vê as coisas acontecendo, tem noção de que estão acontecendo, mas não as considera absurdas a ponto de pensar que aquilo jamais poderia acontecer. Acho que ela também serve como exemplo de até que lugares horríveis podemos chegar se não levarmos a sério o que está acontecendo ao nosso redor.
Também gosto muito de filmes de gênero e de terror. Era uma vontade que eu tinha de fazer isso havia muito tempo. Então, juntaram-se a vontade de trabalhar com a Cíntia, o universo que eu queria explorar e as nossas conversas sobre visões de mundo. Queria fazer um filme que dialogasse com o contexto que estamos vivendo. Quando li o roteiro pela primeira vez, pensei que não poderia deixar passar. Queria muito fazer.
Quando ela me chamou, me atirei de cabeça. Cheguei a Florianópolis para filmar com o texto todo fechado e organizado, cheio de códigos que eu mesma tinha criado. Assisti a todos os filmes de referência e entrei numa loucura com esse filme. Fico muito feliz com o retorno que ele está tendo, com o público querendo assistir. Eu fiquei desesperada para fazer e acho lindo que agora tanta gente esteja desesperada para assistir, perguntando em quais cinemas e cidades ele vai estrear. Como espectadora, eu estaria nesse mesmo lugar, como estive desde a primeira leitura.
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- Cíntia, o que mais me assustou no filme foi o quanto ele é real. Não é preciso recorrer a monstros para provocar medo. A própria realidade causa angústia e aquela sensação de que não temos como lutar contra isso. Quais foram as referências, tanto no cinema quanto na vida real? Houve algum fato específico que influenciou a escrita ou você reuniu diferentes questões para construir o filme?
Cíntia Domit Bittar – Foram várias questões. Claro que temos referências para explicar às atrizes e à equipe o tom que buscamos. Muitas vezes, não são filmes inteiros, mas uma cena de um filme, o tom de outro, a fotografia de um terceiro. Foi uma mistura de projetos. Mostrei alguns filmes e mencionei outros que traziam esse contexto.
Um filme estadunidense mais antigo, chamado “The Stepford Wives”, é um terror muito legal. Depois teve um remake, que no Brasil se chama “Mulheres Perfeitas”. Também é interessante, mas o primeiro é mais assustador. Gosto muito daquele filme. Quando o termo “tradwife” começou a circular bastante nos Estados Unidos, ele voltou à tona, e achei isso interessante.
Mas a principal referência veio da pesquisa na realidade: palestras, cursos, videoaulas e manuais da mulher virtuosa. Realmente entramos nesse universo. Há trechos do roteiro que são quase transcrições do que é dito nesses encontros. Às vezes, as pessoas acham que determinada fala é caricata, mas são frases que foram transcritas. É assustador pensar no lugar perigoso em que estamos e na nossa ignorância, em ignorar o que está acontecendo.
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Quando encontrei o termo “mulheres virtuosas”, descobri que são milhares. Eu não sabia disso. Sou uma pessoa que, como dizem os jovens, está cronicamente on-line, além de ser leitora da imprensa, independente ou hegemônica, mas nunca tinha visto esse termo. Pensei na quantidade de pessoas que não sabem o que está acontecendo e também nas mulheres que vivem sob esses valores. Isso me causa uma angústia muito grande.
Essas mulheres muitas vezes propagam um conjunto de valores sobre feminilidade, uma outra ideia de feminilidade, mas também difundem ideias perigosíssimas, como o negacionismo em relação às vacinas, o racismo e a misoginia. Atualmente, há até quem defenda que as mulheres não devem votar. Você encontra mulheres que dizem isso e que também estão vinculadas a essas expressões das mulheres virtuosas.
Pouco se falou sobre esse assunto, e fico muito orgulhosa e feliz que o filme esteja trazendo esse debate. É algo que eu não via. Já se falou dos Legendários, por exemplo, um movimento que eu conhecia antes e que depois ganhou espaço na imprensa. Pensei que talvez as Virtuosas também fossem aparecer antes de o filme estrear, mas não foi o caso. O filme está trazendo esse debate.
Do ponto de vista da produção, deu tudo certo, embora eu lamente que ainda não estivéssemos falando disso. Até nisso vemos o protagonismo dos homens: falou-se dos Legendários antes das Virtuosas, que já existem há muito mais tempo. A pesquisa fundamentou muito o filme. Sou uma criadora que pesquisa bastante e gosto de fazer minha própria pesquisa para a ficção. Há assuntos em que contratamos pesquisadoras, e respeito muito esse trabalho, mas, para mim, cavar e pesquisar faz parte do processo. Com “Virtuosas”, foi assim.
- Maria, queria falar sobre a Germina, mas sem entrar em spoilers. Ela está no retiro com uma segunda intenção e, de certa forma, representa o público. Como foi construir essa personagem, que também guarda segredos, e reagir ao que acontece ao redor dela?
Maria Galant – Acho que nenhuma das personagens é o que aparenta ser. Todas têm uma máscara social no filme. Também penso que seriam filmes diferentes se acompanhássemos qualquer uma das outras personagens, mesmo contando a mesma história e mostrando os mesmos acontecimentos.
O que faz o público se identificar com a Germina não é apenas o fato de ela estar entrando em um universo estranho, mas também a possibilidade de acompanhar as duas facetas dela. O público consegue conhecer quem ela é por trás da máscara social. Como acompanhamos a personagem desde o início, é mais fácil torcer por ela do que pelas outras.
A construção da personagem já veio muito bonita para mim. Fiquei muito a fim de interpretá-la desde que recebi o roteiro. Durante a preparação, pensei bastante nas palavras que ela escolheria. Queria que as pessoas se identificassem com ela em algum nível, mas que também sentissem certa repulsa, um distanciamento, que a achassem esquisita e percebessem que ela não está à vontade naquele ambiente.
Conversei muito com a Cíntia sobre como fazer com que ela fosse um pouco estranha, mas sem se tornar uma personagem que o público não aceitasse como ser humano. É um equilíbrio delicado: ela precisa ser estranha para aquelas mulheres e também para quem está assistindo, mas, ao mesmo tempo, deve despertar interesse pelo que está fazendo, até entendermos a virada e o motivo de ela estar ali.
Não acho que a Germina esteja no retiro por motivos diferentes dos das outras mulheres. Todas estão ali para buscar sua melhor versão, de fato. A Germina também. E acho que ela tem algo muito parecido com a Virgínia: está disposta a tudo para chegar aonde quer.
Isso também é um mérito do roteiro. Vemos pessoas com práticas muito diferentes das nossas e pensamos que elas são muito diferentes de nós, que estão erradas e nós estamos certos. Mas, às vezes, são poucas as coisas que nos diferenciam das pessoas com quem não concordamos. Por isso, precisamos tomar cuidado para não subestimar os outros.
Se a Germina não tivesse subestimado aquelas mulheres, o final do filme seria diferente. Ela acredita que é um ser complexo e que as outras são rasas, mas acaba se afundando na complexidade das outras personagens. Acho que a construção mantém esse distanciamento em relação ao público, que também pode estranhá-la, mas, principalmente, mostra que elas são parecidas em algum nível. Não são as mesmas pessoas, não querem as mesmas coisas, mas estão inseridas nesse mesmo universo por motivos diversos.
- O filme está estreando agora. O que mais assusta vocês: o que acontece na história ou perceber que parte daquele universo já está na nossa realidade? E que convite gostariam de fazer ao público?
Cíntia Domit Bittar – Para mim, é muito assustador que pessoas da nossa bolha achem que isso é só uma sátira ou uma grande caricatura, que não acontece de verdade. Isso me assusta por causa das consequências. O retrocesso também me assusta enquanto feminista. Agora estou gestante de uma menina, então isso me assusta duplamente. Sinto mais perigo no mundo hoje do que sentia quando era criança.
E vamos nos assustar juntos, convidando as pessoas a assistir ao filme a partir de quinta-feira, dia 24. É muito importante que o público vá ao cinema nos primeiros dias para mostrar ao circuito exibidor que há procura, para que possamos ampliar o número de salas e mostrar à indústria e à sociedade o quanto é importante fazer cinema da maneira como fizemos.
Somos mulheres realizando o filme, nossa empresa é formada por mulheres, estamos fora do eixo tradicional de produção e somos uma empresa catarinense. É um filme de terror, independente e, acima de tudo, brasileiro. O filme reúne muitos atributos que tornam importante que tenha um bom desempenho nas salas, para que a própria indústria acredite cada vez mais em produções como a nossa.
Maria Galant – Acho que o que mais me assusta agora é o quanto esse filme está atual ao chegar aos cinemas. Quando fazemos um filme, temos a pretensão de que ele atinja as pessoas em algum lugar, de fato. Mas também existe a expectativa de que ele possa ficar no passado, de que a gente tenha filmado há dois anos e agora possa assistir e pensar: “Olha para onde poderíamos ter ido”.
Só que não é para onde poderíamos ter ido. É para onde estamos.
Para mim, a questão antivacina, que a Cíntia chama de coração do filme, diz muito sobre o momento em que ele está estreando. Estamos nos vacinando contra o sarampo, uma doença erradicada no Brasil. Não estamos indo para um lugar parecido com o que o filme conta. Estamos vivendo isso agora. O que mais me assusta em “Virtuosas” é como a ficção está situada na realidade do momento que estamos vivendo.
Acho que isso também é um convite para assistir ao filme. É uma oportunidade de, por meio da ficção, pensar em que lugar queremos morar, que país queremos construir e a quem queremos dar poder. Esse é sempre um dos ganhos da ficção: poder imaginar muitos futuros possíveis.
Estamos propondo imaginar um mundo de terror, um universo de terror, e pensar no que podemos fazer para encontrar pequenas saídas desse caminho. Quero convidar o público a assistir ao filme a partir de quinta-feira, dia 24. Também é muito importante reforçar a importância de assistir na primeira semana. Pela lógica do mercado brasileiro, o filme só tem garantida a primeira semana em cartaz. Se deixar para a segunda, pode ser que já não seja possível assistir na sua cidade.
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