A mulher que ganhou notoriedade dando visibilidade a outras pessoas. Numa apresentação simplista, essa poderia ser a descrição da santa-cruzense Elisandra de Vargas da Silva, a Elis, de 35 anos. Mas, num olhar mais amplo, revela que gestos simples podem causar impactos inimagináveis. Ao perceber que poderia fazer a diferença na vida de pessoas surdas, ela também transformou a própria vida. E foi de forma totalmente despretensiosa, sem esperar nada em troca.
Ainda adolescente, Elis conheceu um projeto de Libras, voltado ao atendimento de pessoas com deficiência auditiva, na Igreja Batista Pioneira de Santa Cruz do Sul. A iniciativa, conforme conta, buscava inserir as pessoas nas atividades desenvolvidas no local. Encantada com o que via e, sobretudo, com a possibilidade de aprender algo novo, começou a participar dos encontros para aprender o básico da Língua Brasileira de Sinais. Já com a prática, voluntariou-se para atuar como intérprete de Libras nos cultos.
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Por uns cinco anos, conciliou a atividade com seus demais afazeres de forma esporádica. No entanto, quis aprender ainda mais e decidiu que se tornaria uma profissional na área de Libras. Assim, poderia seguir ajudando as pessoas. Foi quando se matriculou em um curso de intérprete de Libras, em Canoas.
A persistência era tamanha que nenhuma dificuldade a desmotivou. Para dar conta da carga horária do curso, ajustou sua escala de trabalho – à época era copeira no Hospital Santa Cruz (HSC) – e também fez faxina na casa de um dos colegas para conseguir custear as despesas semanais das viagens até Canoas. Passado um ano e meio, concluiu o curso.
No mesmo período, ainda se graduou em Pedagogia, pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), pois queria ser “professora de surdos”. Junto com os diplomas, Elis conquistava a chance de trilhar um novo caminho. Assim que se formou em Canoas, deixou o emprego no hospital para se dedicar totalmente a esse propósito, iniciando sua carreira no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), onde atua até hoje. Começava aí um novo capítulo da sua história.
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“Nunca imaginei estar no cantinho da televisão”

Nos últimos 14 anos, Elis já impactou inúmeras vidas através da Libras. Enquanto suas “mãos falam” (sinalizam), pessoas são vistas e percebidas. “Libras é empatia na prática, é luz, é amor ao próximo. O povo surdo é sofrido demais e vive praticamente isolado. Então, quando conseguimos demonstrar isso a eles, através da comunicação em Libras, isso ilumina; significa ‘estou te vendo e prestando atenção em ti’”, destaca. É isso, na sua avaliação, que torna o trabalho tão significativo.
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Outro ponto gratificante, conforme aponta, é a possibilidade de atuar nas mais diversas áreas. Seja em empresas, eventos ou locais públicos, Elis consegue ministrar treinamentos, bem como dar visibilidade e voz às pessoas. “A minha profissão me possibilita estar em muitas áreas diferentes e em muitos lugares, e isso é maravilhoso.”
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Ela também menciona, nesse aspecto, sua participação como intérprete em projetos musicais, em sessões terapêuticas intermediando o atendimento entre pacientes e psicólogos, entre outros. Dentre as tantas experiências já vivenciadas com o trabalho de Libras, ela diz que a primeira vez em que apareceu no cantinho da televisão, atuando como intérprete durante a campanha eleitoral de 2016, foi inesquecível. “Libras é um presente de Deus na minha vida. Cresci num bairro pobre, no Faxinal, e nunca imaginei que um dia estaria no cantinho da televisão”, emociona-se.
Para ganhar o mundo
Os planos de Elis incluem alçar voos ainda mais altos. Ela quer tornar possível para qualquer pessoa, a qualquer hora e em qualquer lugar, o acesso à Libras. Sua empresa – a Elis Vargas Libras & Comunicação, que atua em todo o Brasil agenciando intérpretes de Libras e ministrando cursos presenciais e online, está incubada na Unisc desenvolvendo a plataforma EVOX Libras Online, que permitirá atendimento online, rápido e com intérpretes disponíveis a quem precisar.
A iniciativa será disponibilizada, inicialmente, para as empresas e deve romper fronteiras e invisibilidades. Sem esquecer das origens, Elis segue conciliando seu trabalho com o Ministério dos Surdos da Igreja Batista Pioneira.
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