Entre enchentes e estiagens, o Vale do Rio Pardo convive com uma contradição que se repete há quase uma década. Em alguns períodos, a água ocupa ruas, invade propriedades, transborda rios e provoca prejuízos. Meses depois, a mesma região enfrenta a falta dela, com lavouras comprometidas, nascentes reduzidas e comunidades do interior dependendo de caminhões-pipa para garantir o abastecimento.
O problema, porém, não está apenas na quantidade de chuva. Está também em como a água é administrada. Em excesso, boa parte escorre rapidamente pela bacia e segue pelos rios. Porém, quando a estiagem aparece, faltam estruturas capazes de garantir que uma parcela dessa água permaneça disponível para o consumo, a produção e a manutenção dos próprios mananciais.
A variação entre extremos climáticos não é novidade. Contudo, os eventos recentes reforçam a necessidade de preparar a região para os dois cenários. Para uma região na qual a economia depende fortemente da agricultura, aumentar a segurança hídrica significa pensar além da emergência. É necessário encontrar formas de armazenar água nas propriedades, proteger as fontes naturais e criar estruturas capazes de atravessar os períodos de menor disponibilidade.
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Existem caminhos e alguns já estão sendo utilizados. Açudes, cisternas, barragens, recuperação de nascentes e melhorias no próprio solo podem transformar a água da chuva em uma reserva para os períodos de escassez. Mas é necessário entender quais dessas alternativas podem ser ampliadas, quais são os obstáculos e por que existe distância entre a necessidade conhecida e a infraestrutura disponível.
Na reportagem especial deste fim de semana, a Gazeta do Sul debate essa contradição para entender como o Vale do Rio Pardo pode deixar de apenas reagir quando a água sobra ou desaparece e responder à seguinte pergunta: é possível guardar a água que hoje causa problemas para utilizá-la quando ela fizer falta?
O reservatório que começa no solo
Em meio às estiagens que afetam as lavouras do Vale do Rio Pardo, a solução para reduzir os impactos da falta de chuva começa debaixo dos pés. Para a Emater regional Soledade, melhorar a capacidade do solo de armazenar e disponibilizar água às plantas é uma das medidas mais acessíveis para aumentar a segurança hídrica no campo.
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O diagnóstico feito pelo Programa de Recuperação Socioprodutiva Ambiental e de Incremento da Resiliência Climática na Agricultura Familiar – Operação Terra Forte ajuda a dimensionar o desafio. Em cerca de 3 mil áreas produtivas avaliadas em aproximadamente 2 mil propriedades rurais no Estado, 80% apresentaram algum tipo de limitação física ou química.
No Vale do Rio Pardo, segundo o gerente regional da Emater, Rotiére Guarienti, o cenário não é diferente. A situação torna-se ainda mais preocupante diante da repetição das estiagens. Das últimas sete safras, seis foram marcadas pelo fenômeno La Niña, com chuvas irregulares em distribuição, tempo e volume.
O resultado apareceu principalmente nas lavouras de verão. A estimativa é de que, no Vale, cerca de 300 mil hectares cultivados com soja e 55 mil hectares de milho tenham ficado diretamente expostos à falta de água. E são duas culturas importantes para a economia regional. Para Rotiére, um solo bem manejado pode funcionar como um primeiro reservatório dentro da propriedade. A recomendação é construir a fertilidade ao longo do perfil, chegando a cerca de 30 centímetros de profundidade, e manter uma estrutura que permita a infiltração da água e o crescimento das raízes. Com mais porosidade, matéria orgânica e fertilidade, as plantas conseguem explorar camadas mais profundas e acessar a água armazenada no solo durante os períodos secos.
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Isso não significa, porém, que a reservação de água fora do solo deixe de ser necessária. Cisternas e açudes já estão presentes em propriedades da região, sobretudo na produção de hortaliças, fruticultura, pastagens e milho para silagem. O desafio maior aparece quando a irrigação precisa alcançar grandes áreas de soja e milho. Nesse caso, os volumes exigidos são muito maiores e exigem reservatórios de maior porte, além de sistemas de irrigação capazes de atender áreas extensivas.
A construção dessas estruturas encontra obstáculos que vão do relevo e tipo de solo ao custo do investimento e às condições de acesso ao crédito. Um reservatório precisa estar em local adequado, ter capacidade de reter a água e apresentar viabilidade técnica e ambiental. Por isso, a ampliação da irrigação não depende apenas de abrir um açude, mas de avaliar toda a estrutura necessária para que o investimento faça sentido para o produtor.
Segurança hídrica não depende de uma solução
Um dos mecanismos públicos que podem ajudar a reduzir essa barreira é o Irriga+RS. O programa estadual prevê uma subvenção de 20% do valor de projetos de irrigação ou reservação de água associada à irrigação, limitada a R$ 150 mil por produtor rural. O recurso é pago após a execução e comprovação da obra, em parcela única diretamente na conta do agricultor. Na fase atual, o prazo para envio de propostas vai até 30 de outubro de 2026.
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Para a Emater regional, a segurança hídrica do Vale não depende de uma única solução. O manejo adequado do solo precisa estar associado a outras decisões, como época de plantio, escolha do ciclo das cultivares, população de plantas e genética. Ao mesmo tempo, produtores interessados em irrigar precisam avaliar a área a ser atendida, a cultura, o lugar para o reservatório e os aspectos ambientais e econômicos do projeto.
Na avaliação de Rotiére, a segurança hídrica das propriedades precisa ser construída antes da estiagem. O manejo, segundo ele, melhora a estrutura e a fertilidade do solo para que as raízes avancem em profundidade e tenham mais acesso à água e nutrientes armazenados. “Fazer um bom manejo de solo associado a tecnologias disponíveis, como época de plantio, ciclo das cultivares, população de plantas por hectare e genética, já garante patamares produtivos mais elevados mesmo em períodos de estiagem”, afirma.
Entre a emergência e a prevenção
Em Encruzilhada do Sul, a estiagem não chega apenas como ameaça à produção: para garantir o abastecimento de famílias e animais no interior, o poder público foi obrigado a adotar medidas. O município decretou situação de emergência por estiagem em 2018, 2020, 2022 e 2023. Já em 2024, o problema foi o extremo oposto: o excesso de chuva.
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Encruzilhada fez investimento em reservatórios no interior
Em 2026, a falta de chuva começou a se agravar a partir de fevereiro. Em algumas localidades, a precipitação não chegou a 20 milímetros, diante de uma média esperada de aproximadamente 150 milímetros. A consequência apareceu nas lavouras: a estimativa da Emater é de perdas de 30% a 40% na soja e de até 70% no milho, além da redução da qualidade e quantidade das pastagens utilizadas pela pecuária.
A resposta emergencial tem um custo. Entre janeiro e abril, a Secretaria Municipal de Agricultura gastou cerca de R$ 237,6 mil no atendimento às demandas provocadas pela estiagem. Somente a distribuição de água potável para 11 localidades do interior representa um custo mensal estimado em R$ 10.556,00. O Município percorre, de segunda a sábado, aproximadamente 200 quilômetros por dia com uma caçamba de 8 mil litros.
A estrutura também é mobilizada para tentar aumentar a disponibilidade de água nas propriedades. Retroescavadeiras e uma escavadeira hidráulica trabalham na abertura e manutenção de fontes e bebedouros. Em quatro meses, 46 famílias foram cadastradas para receber água potável e 43 caixas d’água de 5 mil litros foram fornecidas para ampliar a capacidade de armazenamento e reduzir a frequência dos abastecimentos.
A intenção, porém, é tentar mudar essa lógica. A proposta do Programa Água na Fonte, apresentada na Consulta Popular, prevê a recuperação e a proteção de 60 nascentes, com potencial de beneficiar diretamente pelo menos 70 famílias rurais. A intervenção pode incluir limpeza da fonte, estruturas de captação e filtragem, tubulações e proteção do entorno, além do cercamento e, quando necessário, plantio de espécies nativas. O valor de referência para a iniciativa é de R$ 370.080,00.
O Município reconhece que não há uma solução única. A extensão territorial e a dispersão das comunidades rurais dificultam a ampliação das ações, enquanto a construção e recuperação de açudes e microaçudes dependem de maquinário, recursos e programas públicos em escala suficiente para atender à demanda.
A secretaria aponta que a saída passa por uma combinação de reservatórios, cisternas e proteção das nascentes. A meta é simples de entender: armazenar água quando está disponível para depender menos do caminhão-pipa quando ela desaparecer.
Em números
A estiagem deste ano mobilizou uma estrutura de atendimento no interior de Encruzilhada do Sul e causou perdas significativas na agricultura. Os dados ajudam a dimensionar o impacto e o esforço necessário para garantir o abastecimento enquanto não chegam as chuvas.
- 20 milímetros: precipitação registrada em algumas localidades, ante cerca de 150 mm esperados
- 30% a 40%: perda estimada na produção de soja
- Até 70%: perda estimada na produção de milho
- 200 quilômetros: distância média percorrida diariamente pela caçamba que distribui água
- 8 mil litros: capacidade da caçamba utilizada no abastecimento
- R$ 10.556,00: custo mensal estimado com diesel para a distribuição de água
- R$ 59.406,00: custo mensal total das ações de enfrentamento à estiagem
Uma reserva contra a estiagem
Se o Vale do Rio Pardo convive com o excesso de água em alguns períodos e a escassez em outros, guardar parte desse recurso é uma das formas de reduzir a dependência das chuvas. Em Cerro Branco, essa ideia saiu do papel a partir da necessidade dos agricultores de garantir água para a irrigação, mas também foi incorporada pela administração municipal como estratégia para fortalecer a produção e ajudar a conter o êxodo rural.
A barragem tem 24 hectares de lâmina d’água e conta com um vertedouro que pode ser aberto quando necessário.
Além de atender à demanda por água, o projeto nasceu com uma finalidade turística: terrenos chegaram a ser delimitados no entorno para construções e usos pelas famílias. A implantação, porém, enfrentou dificuldades como falta de recursos, licenciamento ambiental e entraves na aquisição da área.
Nos últimos anos, outras alternativas foram buscadas para ampliar a reservação no município. Com recursos da Consulta Popular e do programa Avançar-RS, foram construídos 30 açudes desde 2023. A experiência mostra que, em diferentes escalas, a busca por armazenar água antes que ela faça falta já faz parte da realidade de Cerro Branco.
Lições do mundo
]Em diferentes partes do mundo, regiões que convivem com secas severas e períodos de chuva concentrada encontraram maneiras de lidar com a água antes que ela vire problema. Apesar de representarem realidades diferentes da gaúcha, tais experiências podem ser adaptáveis ao Rio Grande do Sul para transformar a água excedente em segurança na escassez.
Israel
Israel transformou o reúso de água em uma das principais ferramentas para enfrentar a escassez hídrica. Cerca de 80% da água residual tratada no país é destinada à agricultura, o que reduz a pressão sobre rios, reservatórios e outras fontes naturais. A estratégia é combinada com a dessalinização, que também ganhou espaço na produção de água para abastecimento.

A experiência israelense mostra que segurança hídrica não significa apenas encontrar novas fontes de água, mas também aproveitar melhor aquela que já foi utilizada. O país investiu em tratamento, infraestrutura e regras para que a água de reúso possa voltar ao ciclo produtivo.
Austrália
Em partes da Austrália, propriedades rurais podem captar e armazenar uma parcela da água do escoamento das chuvas em estruturas conhecidas como farm dams. A prática é regulamentada: há limites para a quantidade de água que pode ser armazenada e regras diferentes conforme a região. Reservatórios maiores podem exigir autorização específica.

A lógica é transformar a água que cai sobre a propriedade em uma reserva para os períodos de menor disponibilidade. O modelo australiano também está associado a um sistema mais amplo de controle dos recursos hídricos, com regras para captação e uso.
Espanha
Na região de Múrcia, uma das áreas mais secas da Espanha, a agricultura convive com a escassez por meio de uma combinação de fontes. A bacia do Rio Segura conta com reservatórios, sistemas de tratamento e reúso e estruturas de dessalinização. A dessalinização de Águilas, por exemplo, está sendo ampliada para produzir até 70 milhões de metros cúbicos de água por ano.

Mais do que uma solução isolada, o exemplo espanhol mostra a importância de diversificar as fontes disponíveis. Quando uma delas não é suficiente, outras entram no sistema. É uma estratégia distante da realidade do Vale em escala e investimento, mas que reforça um princípio simples: enfrentar períodos de seca exige planejamento antes que a água falte, e não apenas medidas emergenciais durante a crise.
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