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HISTÓRIA PRESERVADA - parte 1

Fé e arquitetura: pesquisa reconstitui construção de duas referências em Sinimbu

Foto: Alencar da Rosa

Construção da Igreja Nossa Senhora da Glória começou em 1927, com a inauguração em agosto de 1932

As construções das igrejas Católica e Evangélica marcam de forma contundente a vida e a paisagem da área urbana de Sinimbu. As imagens dos dois templos logo se destacam no cenário para quem se aproxima da cidade, uma na entrada e a outra na ponta oposta, na parte mais elevada. Referências não apenas para os membros das duas congregações religiosas, os dois templos também são marcos importantes na história do município. As obras foram erguidas em uma época de reduzida população, e isso significou grandes sacrifícios e empenho organizacional das comunidades.

Um estudo desenvolvido pelo arquiteto Ronaldo Wink para a Diretoria de Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), como professor do curso de Arquitetura e Urbanismo, resgatou toda a trajetória de construção das duas igrejas e dos templos que os precederam no antigo distrito de Santa Cruz do Sul. O projeto de pesquisa da Unisc começou em 2007, com a conclusão em 2020. Neste período, Wink realizou um minucioso levantamento documental e bibliográfico nos arquivos das paróquias, livros, jornais, entrevistas e outras fontes para o trabalho denominado A cidade de Sinimbu e sua arquitetura religiosa. A pesquisa é ilustrada com imagens dos templos, de autoria do fotógrafo profissional Jorge Trotier Nunes.

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O arquiteto e professor universitário explica que o estudo buscou “incrementar os conhecimentos a respeito da arquitetura neogótica na região, resgatando os processos históricos e construtivos de dois grandes templos religiosos e que se constituem em exemplos máximos de arquitetura e espiritualidade para a cidade de Sinimbu”. A pesquisa também tentou entender como foram escolhidos os arquitetos e o estilo adotado para a construção dos templos.

O trabalho faz parte dos estudos para o aprofundamento da investigação sobre a obra do arquiteto alemão Simon Gramlich, autor dos projetos de quatro igrejas católicas na região: Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires, Monte Alverne e Sinimbu. Outro nome de destaque é o do engenheiro alemão Otto Hermann Menchen, que se estabeleceu em Santa Cruz do Sul em meados dos anos 1930, depois de deixar um legado de projetos em Porto Alegre. A intenção de Wink é obter patrocínio para reunir o farto material em um livro.

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Wink: resgate do processo histórico e construtivo | Foto: Arquivo Pessoal

Dos pequenos templos às atuais edificações

A inauguração da primeira igreja evangélica luterana ocorreu em 1875, localizada em Sinimbu Alto. Já a primeira igreja católica foi entregue em 1878, do lado esquerdo da atual construção. O estudo desenvolvido pelo arquiteto Ronaldo Wink para a Diretoria de Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), como professor do curso de Arquitetura e Urbanismo, resgata detalhes sobre os primeiros locais que abrigaram as celebrações e eram encarregados de levar as mensagens de fé aos moradores.

As pequenas edificações construídas por católicos e luteranos começaram a não atender mais às necessidades das respectivas comunidades religiosas. Em consequência, novos e imponentes templos foram erguidos. Além do objetivo de comportar o crescente número de fiéis, os dois templos atuais têm em comum a torre única, ambas com 51 metros. Mas as semelhanças arquitetônicas se limitam a esta característica.

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Igreja Evangélica de Confissão Luterana tem torre com 51 metros e a execução da obra levou dez anos | Foto: Jô Nunes

A Igreja Nossa Senhora da Glória conta com decoração repleta de pinturas e estatuária, comum nos templos católicos. Já a Igreja Evangélica de Confissão Luterana se caracteriza pela simplicidade e pelo despojamento do interior. O estilo arquitetônico, conforme Ronaldo Wink, foi resultante de manifestações das próprias comunidades, relacionadas à cultura alemã e à referência com as grandes catedrais góticas no país europeu.

Para a construção da igreja católica, houve a apresentação de duas propostas, uma neorromântica e outra neogótica, ambas historicistas, recaindo a preferência pela segunda. O estilo arquitetônico adotado para a obra da igreja evangélica luterana também seguiu uma linguagem historicista, contando com características mais despojadas, mas com reconhecível influência neogótica.

Um dos aspectos analisados por Wink no estudo foi justamente o motivo da preferência pelo neogótico na região de Santa Cruz do Sul, particularmente para a construção de suas principais igrejas, mesmo tendo sido estas projetadas e executadas em torno das décadas de 1920 e 1930, quando a arquitetura mundial já se encaminhava para rumos bastante diversos. Neste sentido, conforme o arquiteto e professor da Unisc, destaca-se o fato de que as comunidades que ergueram os templos eram formadas predominantemente por imigrantes alemães e seus descendentes e que possuíam fortemente marcado em suas mentes lembranças e imagens das grandes catedrais góticas alemãs, tais como Colônia, Ulhm e Freiburg, entre outras. Isso pode ter originado uma associação entre a fé e um saudosismo da terra ancestral, manifestada por meio da referência arquitetônica.

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Construção da Igreja Nossa Senhora da Glória começou em 1927, com a inauguração em agosto de 1932 | Foto: Lula Helfer

Os planos

A ocupação das áreas próximas às margens férteis do Rio Pardinho, com a distribuição dos primeiros lotes nas recém criadas Linhas São João e Sinimbu, ocorreu a partir de novembro de 1857, para imigrantes provenientes em sua maioria do Reino da Prússia, especialmente da Renânia e da Pomerânia. Isso ocorreu oito anos após a chegada e instalação dos primeiros imigrantes alemã es na á rea de Linha Santa Cruz, em 1849.

Com economia basicamente ligada ao setor agrícola, Linha Sinimbu se desenvolveu rapidamente, formando, com Linha Rio Pardinho, o eixo de maior desenvolvimento econômico da zona rural de Santa Cruz nas últimas décadas do século 19, com ênfase na produção de tabaco, milho, feijão e batata e na criação de aves e suínos. As atividades sociais dos colonos concentravam-se basicamente em torno de cerimônias e festividades religiosas. Por isso, não tardou para a construção dos primeiros templos.

Primeira igreja católica também serviu como escola

Diferente dos nú cleos urbanos, onde a construç ã o de igrejas cató licas ficava ao encargo do Governo Provincial na época do Império, a instalação de pequenas igrejas e capelas na zona rural era responsabilidade dos pró prios membros das comunidades. Assim surgiu em 1878 a edificaç ã o da primeira igreja-escola cató lica de Sinimbu. Mas ainda no final do sé culo 19 houve a construção de um novo prédio, desta vez somente com a funç ã o de igreja.

No trabalho A cidade de Sinimbu e sua arquitetura religiosa, para a Diretoria de Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), como professor do curso de Arquitetura e Urbanismo, o arquiteto Ronaldo Wink explica que a estrutura da igreja tinha volumetria simples, distribuí da em trê s setores: nave, presbité rio e sacristia. À frente deles o volume da torre apresentava planta quadrada e cobertura com corruché u octavado. As aberturas eram todas em arco ogival e as paredes nã o tinham detalhes ou adornos. Ao seu lado direito foi mantido o pré dio original, que continuou com a funç ã o de escola.

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A construção de uma nova igreja foi abordada pela primeira vez no início de 1925, conforme o Livro de Protocolo no 1 da Comunidade Católica. Em reunião no dia 18 de janeiro daquele ano, os membros decidiram-se em votação, por 30 a favor e nove contra, pela construção de um novo templo. Mas nos meses seguintes surgiram divergências quanto à localização do novo templo. Por sugestão do padre vigá rio de Santa Cruz, o jesuíta Bernardo Bolle, houve a organização de uma consulta para saber a opinião dos membros quanto ao assunto.

O anúncio do resultado ocorreu em reunião no dia 7 de junho de 1925. A pesquisa de opinião quanto à localização da nova igreja apontou que 97 associados optaram pela construção junto à igreja velha, um pela execução nas proximidades da residência de Pedro Thomé , quatro por um local próximo à residência de Pedro Becker, três não quiseram cooperar e cinco não tinham opinião formada. No encontro também foi debatida a necessidade de definição do projeto arquitetônico a ser executado.

Para a implantação do novo templo foi adquirido o terreno ao lado da escola, pertencente a João Thomé , por quatro contos de ré is, equivalente na moeda atual a aproximadamente R$ 492 mil. Para evitar a demolição da escola, ocorreu a compra de mais cinco metros de terras, limítrofes à á rea da comunidade católica, pertencentes a José Thomé Sobrinho, por um conto e duzentos mil ré is, que corresponde a cerca de R$ 147,6 mil na moeda atual.

A contribuição anual dos associados, que até então estava estabelecida em 100 mil réis, passou a ser, a partir de janeiro de 1927, de 200 mil réis. Já na ata da reunião do dia 22 de maio de 1927 ficou decidido que aqueles associados que estivessem em melhor situação econômica deveriam contribuir com 500 mil réis anuais. No entanto, aqueles que com estas quantias não poderiam colaborar deveriam manter o valor mínimo de 100 mil réis por ano.

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Os valores

O jornalista e escritor Laurentino Gomes, no livro 1808, faz uma conversão de réis em real, baseando-se em outros autores que se empenharam para torná-la o mais próxima do valor atual, levando em consideração a inflação. No entanto, a conversão, mesmo próxima, não é exata. O comparativo aproximado é o seguinte:

1 real (réis) = R$ 0,123
1 mirréis (mil réis) = R$ 123,00
1 conto de réis (mil mirréis) = R$ 123.000,00
900 contos de réis = R$ 110.700.000,00

Dois arquitetos apresentaram projetos para a execução das obras

O Livro de Atas da comunidade, conforme a pesquisa de Ronaldo Wink, mostra que houve a solicitação de projetos de construção do novo templo a dois arquitetos: Ernst Seubert e Simon Gramlich. O primeiro recebeu o pagamento de um conto e quinhentos mil ré is referente à elaboração de planta. A proposta tinha linguagem arquitetônica eclética, com uma mescla de estilos em uma mesma edificação. A principal característica era a posição da torre, com uma altura de 41 metros, situada ao fundo da edificação, na lateral esquerda do presbitério.

A presença do renomado arquiteto alemã o Simon Gramlich na região, que estava em negociações na mesma época com a Comunidade Católica de Santa Cruz em torno do projeto da nova igreja matriz, levou os membros de Sinimbu a solicitar a ele uma proposta para a construção do templo no então 4º distrito. Diferente de Seubert, Gramlich optou por uma proposta de características neogóticas. No entanto, Ronaldo Wink apenas pôde fazer a análise do projeto original por meio da existência de dois cartões postais da é poca, onde constam à fachada principal e a lateral sul do projeto. Isso porque nenhuma planta dos vá rios projetos executados na região foi deixada pelo arquiteto após sua partida para Santa Catarina em 1931.

A fachada principal do projeto impressiona pelo detalhamento e pela verticalidade, acentuada pela torre única. A base encontra-se levemente à frente do volume principal da edificação, abrigando a porta principal. Inicialmente de base quadrada, a torre passava a octavada a partir de sua metade superior, onde longas aberturas ogivais vazadas, cobertas por pequenos frontões, convergiam para o início do corruchéu, também de formato octavado e arrematado por esfera e cruz executadas em argamassa.

Fachada principal proposta por Simon Gramlich | Foto: Arquivo Paróquia

A fachada sul igualmente é repleta de detalhes, sendo composta por uma sucessão de grandes aberturas ogivais encimadas por frontões triangulares. Embora quase simétricas, a fachada sul diferenciava-se da norte por abrigar as instalações da sacristia, que geravam um volume saliente.

Além da torre de 51 metros de altura, a construção possui igualmente 51 metros de comprimento e largura de 25,5 metros. A edificação do novo templo tinha também como objetivo, conforme descrito na ata de bênção da pedra fundamental, tornar-se um monumento comemorativo dos 70 anos de fundação de Sinimbu.

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