Entre os seis filmes finalistas para representar o Brasil no Oscar 2027, “A Fabulosa Máquina do Tempo” tem se destacado no circuito internacional. Dirigido por Eliza Capai, o documentário acompanha meninas de Guaribas, no sertão do Piauí, e encontra na infância uma maneira sensível de abordar temas como memória, pobreza, machismo e sonhos.
A convite da Primeiro Plano, o Magazine assistiu com exclusividade à obra e entrevistou a cineasta. O filme chama atenção principalmente pela escolha das protagonistas e pela forma como suas vidas e dilemas conduzem a narrativa. Em meio a brincadeiras, conversas e descobertas, elas revisitam as histórias de suas mães e avós e imaginam possibilidades para o próprio futuro. A “máquina do tempo” surge justamente desse olhar infantil sobre passado e futuro.
Embora se passe no sertão do Piauí, a narrativa de Eliza, os depoimentos e a humanidade presente na obra ultrapassam as barreiras geográficas. A produção teve estreia mundial como filme de abertura da mostra Generation Kplus, no Festival de Berlim, e conquistou o prêmio de Melhor Feito Técnico-Artístico no Festival de Guadalajara. Desde então, vem percorrendo festivais e conquistando públicos de diferentes países ao transformar uma história profundamente ligada ao sertão brasileiro em uma reflexão universal sobre infância e futuro.
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Em entrevista ao Magazine, Eliza fala sobre a origem de “A Fabulosa Máquina do Tempo”, a escolha das meninas e a relação construída com as protagonistas. A diretora também comenta o conceito do filme, a importância das políticas públicas e a repercussão internacional da obra.
Documentarista de temas relacionados a gênero e sociedade, a cineasta foi convidada a integrar a Academia do Oscar em 2025. É diretora do premiado “Incompatível com a Vida”, “Espero Tua (Re)volta”, vencedor de mais de 25 prêmios, e da série “Elize Matsunaga: Era uma vez um Crime”, da Netflix. Também dirigiu “O Prazer é Meu”, indicada ao Emmy Internacional 2025.
Entrevista – Eliza Capai, diretora e roteirista
Magazine – O documentário tem um olhar muito sensível para a infância e a imaginação. Como surgiu a ideia do filme?
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O filme começa, de alguma forma, em 2013, quando li o livro Vozes do Bolsa Família, de Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani. Um dos pontos que mais me chamaram atenção foi entender como, nas regiões muito pobres do Brasil, quando o dinheiro do Bolsa Família era dado prioritariamente para as mulheres, iniciava uma mudança nas relações de gênero. Recebi uma bolsa de jornalismo investigativo e fui para Guaribas, no Piauí, investigar isso. Entrevistei mulheres que haviam vivido uma realidade de extrema privação e que, quando meninas, sonhavam em encontrar um bom marido, alguém que lhes desse valor. Quando entrevistei as filhas dessas mulheres, encontrei uma realidade completamente diferente.
A simples mudança de subjetividade – o sonho deixar de ser encontrar um marido que as valorizasse e passar a ser a realização por si mesmas – já representava uma transformação muito profunda. Foi então que tive a certeza de que voltaria para fazer um trabalho com mais tempo. Retornei em 2021 para reencontrar aquelas famílias e meu olhar se voltou para uma nova geração: as crianças que já haviam nascido depois da implementação e ampliação do Bolsa Família. Fiquei encantada com a sagacidade delas, com a forma como eram divertidas, curiosas e livres. Em 2024, finalmente fomos filmar.
A partir desse encontro, retomamos a investigação iniciada em 2013: compreender o que significava a saída da miséria e o início da superação do machismo estrutural a partir do olhar dessas meninas.
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As meninas que aparecem no filme têm uma presença muito forte e conduzem boa parte da narrativa. Como vocês chegaram até elas e construíram essa relação de confiança?
Conheci algumas delas em 2021, principalmente a Manu e a Alice, além das primas da Manu. Depois chegamos às outras meninas. Essa relação de confiança surgiu a partir da oficina. Ali, nós ocupávamos um papel duplo: éramos professoras e, ao mesmo tempo, equipe do filme. Tínhamos muita curiosidade em entender como elas viam o mundo, como pensavam e que histórias queriam contar. Pouco a pouco, observamos as brincadeiras e percebemos que ali estava o coração do filme. Era por meio delas que as meninas enxergavam e processavam o próprio mundo.
A Sofia, por exemplo, descobre, durante uma entrevista com a mãe, que criança também morre. Depois dessa conversa, sai e vai brincar de zumbi com a prima. A Manu entende que, se pudesse voltar no tempo, a mãe faria escolhas diferentes e não teria tido filhos tão cedo. Em seguida, vai brincar de ser uma mãe frustrada. Fomos entendendo essas brincadeiras como uma chave para compreender a subjetividade delas.
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Foi um processo coletivo de chegar às cenas, criar objetos e inventar tudo juntas. Éramos adultas com equipamentos, mas estávamos ali para brincar com elas, ensinar e compartilhar. Acho que elas perceberam que existia um desejo genuíno de troca da nossa parte. E aceitaram esse convite.
A “máquina do tempo” é uma metáfora muito marcante no documentário. Como surgiu esse conceito e o que ela representa na trajetória dessas meninas?
A máquina do tempo surge de várias formas. Quando volto, em 2021, e encontro uma nova geração de crianças, é como se elas já estivessem sentadas em uma máquina do tempo, porque conseguem olhar para um passado que, para elas, já parece distante, apesar de tão recente. Em 2013, as meninas ainda conviviam com a fome. Já em 2021, as crianças olham para essa realidade com certo distanciamento. Essa já é uma história do passado para elas.
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Foi a partir disso que eu e a Carol começamos a conversar sobre as brincadeiras das meninas. Como seria voltar ao passado? Como seria visitar o futuro? Parecia uma forma muito mais lúdica de investigar como viveram as mães e as avós daquelas crianças e, ao mesmo tempo, entender quais sonhos habitavam nelas hoje.
Nessas viagens imaginárias, elas nos apresentavam aquele passado tão duro, mas também projetavam futuros muito mais leves. Foi somente na edição que percebemos que essa seria a estrutura do filme. A máquina do tempo sintetizava a forma como aquelas meninas enxergavam o mundo: uma infância que usa a brincadeira para atravessar temas extremamente sérios e complexos, como a fome, a memória e as transformações vividas por suas famílias.
O filme teve sua estreia mundial no Festival de Berlim e depois alcançou repercussão internacional. Na sua visão, o que fez essa história do sertão brasileiro dialogar com públicos de diferentes culturas?
O Festival de Berlim foi absurdamente especial. Manu, Manuzinha e Sofia viajaram de avião pela primeira vez, entraram em uma sala de cinema pela primeira vez e, na primeira sessão, havia mais de mil pessoas assistindo ao filme. Muita gente, de diferentes lugares do planeta, disse que se lembrou da própria infância, das brincadeiras e dos medos.
O filme tem essa universalidade da infância, que traz temas universais. São temas que pertencem ao sertão do Piauí, mas também ao mundo todo. Acho muito poderoso quando nos conectamos com essa lembrança da infância e, ao mesmo tempo, com a sensação de que podemos construir a vida que desejamos. De alguma forma, acho isso revolucionário: poder sonhar e olhar para o futuro não como uma distopia, mas como uma utopia pela qual vale a pena buscar e traçar um caminho para alcançar.
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