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ELENOR SCHNEIDER

Futebol amador

Por muito tempo, o futebol era uma das mais importantes possibilidades de diversão no interior. Após uma semana de trabalho duro, em geral na lavoura, jogar futebol ou assistir a uma partida, reunir-se com os amigos, namorar, tomar uma gasosa, tudo somado resultava na felicidade possível. Além do futebol, uma eventual quermesse, algum baile, normalmente de difícil acesso por falta de transporte ou de liberação dos pais.

Joguei futebol na várzea. Meu time era a SEBE – Sociedade Esportiva Boa Esperança –, interior de Cruzeiro do Sul. Voltando o olhar sobre esse tempo, temos o retrato de uma época e percebemos também as grandes transformações que o tempo provocou e promoveu.

Os jogadores eram todos da localidade. Com as famílias numerosas, muitas vezes duas delas forneciam atletas suficientes para formar um time, até com sobras para um alentado banco de reservas. Nem se pensava em importar jogadores de outros locais. Ninguém recebia nada, apenas um refrigerante na hora do intervalo, todos sentados no gramado. As chuteiras cada um providenciava as suas. Jogava-se por diversão, por amor mesmo, daí o futebol amador. Todos defendiam com orgulho o time de sua localidade. O sonho de cada guri era jogar no time de sua aldeia.

Já morando em Santa Cruz do Sul, aos domingos ia de ônibus até Venâncio Aires, de lá, também de ônibus, me deslocava até Mato Leitão. Dali, até a casa dos meus pais, me dirigia a pé, por seis quilômetros aproximadamente, almoçava e, depois, subindo num caminhão, rumávamos aos locais das partidas. Dependendo da distância, por vezes se ficava longo tempo de pé para em seguida entrar em campo para os duros embates do esporte bretão.

Ao olharmos sob o ponto de vista presente, é incompreensível como uma delegação, num caminhão lotado, trafegava por estradas ruins, perigosas, quase intransitáveis, até chegar ao seu destino. Quando algum time vinha de ônibus, também em geral uns cacos, olhávamos admirados para esse luxo, essa esnobação de poderio e superioridade. É preciso lembrar que também de caminhão se ia aos bailes, aos enterros, aos casamentos, às festas. Era o que se tinha.

Os campos de jogo geralmente eram potreiros. O menos acidentado era escolhido como sede do clube. De manhã, os proprietários recolhiam os excrementos semanais do gado e à tarde os atletas se esbaldavam ali, ralando os joelhos em alguma falha na grama, em alguma pedra sorrateira, ou encravando rosetas nas partes vulneráveis do corpo. Na maleta do “massagista”, o remédio mais poderoso era o mertiolate que, aplicado sobre a lesão aberta, colocava à prova a macheza do combatente ferido.

Alguns fatores contribuíram para alterar profundamente o quadro. Com a diminuição de jovens no interior, clubes com mais recursos ou mecenas abnegados começaram a importar jogadores, mediante remuneração. Estabeleceu-se, aos poucos, um clima desconfortável e os jogadores locais se desmotivaram. As equipes, reforçadas, facilmente batiam as menos aquinhoadas, o que contribuiu para que estas encerrassem suas atividades. Dezenas de outros interesses atraíram os jovens, ficando o futebol em plano bem inferior. Acredito que atualmente vários times do interior sequer contem com um jogador local. O assunto é amplo e permite várias outras considerações.

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