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LISSI BENDER

“In vino veritas”

Foto: Acervo Pessoal

Lissi em visita à vinícola Gugel, da cidade de Tübingen, e a uva Spätburgunder, o nome alemão da casta Pinot Noir

Muito se associa a Alemanha com cerveja. Merecida relação, por primarem pela sua pureza advinda da lei alimentar alemã mais antiga no mundo – a Reinheitsgebot, de 1516 – a continuar vigente. Mas o país não menos prima pela qualidade de seus vinhos que são submetidos a teste de qualidade. Para receber o predicado de “Qualitätswein”, por exemplo, o vinho precisa passar por rigoroso exame.

Desde antes de Cristo há viticultura na Alemanha. A produção de vinho, no entanto, está relacionada ao período romano. As áreas de maior cultivo se encontram ao longo do rio Reno/Rhein e de seus afluentes, como o Neckar e o Mosel. O clima é apropriado, entre outros, para videiras do tipo Silvaner, Dornfelder, Müller-Thurgau (o nome Müller-Thurgau vem do seu criador, o cientista Hermann Müller, da cidade suíça de Thurgau) e o Spätburgunder, nome alemão da uva Pinot Noir – meu vinho preferido.

Em Tübingen, conheci videiras nas encostas da Uhlands-Kapelle e próximo a Stuttgart, em Esslingen. Lá, grandes plantações em encostas são afagadas o dia todo pela luz solar. Visitei a cidade de Esslingen algumas vezes e pude conhecer sua feira natalina medieval, em que tudo é minuciosamente apresentado como eram antigamente as feiras de Natal, e o museu do calendário natalino. Naquela cidade, banhada pelo rio Neckar, conheci a mais antiga produtora de vinhos espumantes da Alemanha – a Kessler. Este ano a Kessler celebra 200 anos de tradição na elaboração de espumantes.

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A Kessler elabora espumantes pelo método tradicional, isto é, com fermentação na garrafa, o que requer um processo muito trabalhoso, mas resulta em delicadas bolhas a subirem contínua e persistentemente, quando servido na taça. Além disso, aprendi lá que o método tradicional possibilita a formação de complexos aromas, o que lhe confere um padrão de qualidade superior aos espumantes com fermentação em tanques.

Também pude conhecer os vinhos de Breisgau, em Freiburg (quando estudei na Albert-Ludwigs-Universität), e a rota dos vinhos judaicos no Elsass – Alsácia Lorena – que no passado já foi alemã em diferentes momentos da história; hoje pertence à França. Foi um convite de meu professor de Antropologia Cultural na Eberhard-Karls Universität de Tübingen, Dr. Gottfried Korff, que me possibilitou essa imersão. Naquele tempo, o professor também coordenava um grupo de estudos da cultura judaica. Ele havia organizado uma viagem de estudos. Como sabia que eu vinha de longe, convidou-me para me integrar ao grupo e conhecer aquela região.

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Conheci vinhos “kosher”, produzidas por vinícolas que os elaboram seguindo rigorosas leis alimentares judaicas (Koshrut). Esse vinho é produzido por judeus praticantes e somente aditivos “kosher” podem ser usados. Em nossas visitas a vinicultores, nos foi explicado esse processo diferenciado de elaboração e fomos convidados a degustar vinhos “kosher”; visitamos uma sinagoga, onde fomos recebidos por guia que nos falou sobre a religião judaica; frequentamos restaurantes judaicos, mas também contemplamos a presença alemã na arquitetura, em placas informativas, em cardápios bilingues… ao longo da rota, entre Straßburg e Colmar.

Em Tübingen, conheci o Federweißer (vinho novo, ainda um tantinho turvo, não totalmente fermentado) e a vinícola Gugel que, em tempo de colheita, promove Besenwirtschaft – convida as pessoas para esvaziar os barris da safra anterior e oferece delícias da culinária outonal, para acompanhamento em ambiente todo decorado com motivos de videiras, uvas e frutos outonais da terra.

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Assim, ao ditado de antes do cristianismo, do antigo poeta grego Alkaios von Lesbos: „Ἐν οἴνῳ ἀλήθεια” – que os romanos traduziram para o latim – “in vino veritas” – (im Wein liegt die Wahrheit – “no vinho está a verdade”), eu acrescento: im deutschen Wein liegt noch etwas mehr – no vinho alemão há algo mais, algo muito especial que se conhece quando se visita as regiões vinícolas alemãs e se aprecia o vinho alemão.

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