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ABASTECIMENTO

Lago Dourado está no período mais crítico da história

Foto: Rafaelly Machado

Um dos maiores reservatórios artificiais do Rio Grande do Sul, o Lago Dourado está com menos da metade da capacidade de armazenagem de água, responsável pelo abastecimento de 95% da população de Santa Cruz do Sul. Com o nível do Rio Pardinho abaixo do normal e fornecimento intermitente desde dezembro, o reservatório opera com apenas 40% de sua capacidade normal. Com bancos de areia e assoreamentos perceptíveis em diversos pontos, a projeção de abastecimento ainda é para 40 dias se não chover. Diante desse cenário, a Corsan colocou em prática diversas ações emergenciais para garantir o abastecimento até a chegada das chuvas. Como se não bastasse a seca, as temperaturas mais altas registradas nos últimos dias provocam, além do aumento no consumo, a evaporação da água.

Conforme a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), o Lago Dourado apresenta queda de 2 centímetros no nível por dia, o que corresponde a 0,5% do seu volume. Em dias mais quentes, o percentual pode chegar a 5%. Desde o início do mês, a Corsan realiza operações emergenciais para contornar a situação e manter o fornecimento normal no município. Entre as medidas está a perfuração de quatro poços artesianos – um em Rio Pardinho e três nas proximidades do lago, com início dos trabalhos na próxima segunda-feira, 27.

Na última quinta-feira, 23, duas bombas de recalque foram instaladas junto à casa de máquinas na antiga captação do Rio Pardinho, como explicou o superintendente regional, José Roberto Epstein. “A intenção é fazer uma captação quando houver água no rio daquele ponto para uma câmara interligada ao lago. Além desse ponto, também será captada água da barragem. Serão duas pontas de recarga, o que vai diminuir pela metade o tempo que levaria em condições normais tendo água no rio.” As bombas de grande vazão transportam 1,2 milhão de litros por hora cada para o reservatório.

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Recuperação do reservatório deverá ser lenta
As chuvas previstas para os próximos dias não serão suficientes para restabelecer o volume de 3,7 milhões de metros cúbicos no Lago Dourado. Conforme Epstein, por serem de baixo volume, servirão num primeiro momento para amenizar e estabilizar a situação. As precipitações de maior intensidade devem ocorrer a partir de 20 de maio.

“Precisamos que chova não somente em Santa Cruz, mas em regiões como Barros Cassal, Sinimbu e Boqueirão de Leão, que abastecem o Rio Pardinho. Se chover em Santa Cruz 400 milímetros e na naquela região chegar a apenas 50 milímetros, não vai adiantar muito.” Da mesma forma, Epstein também adiantou que a recuperação será lenta. “Não será em um ou dois meses que vamos encher o lago, pois, além do consumo diário, ele vai ter de recuperar todo o seu volume. Por isso, podemos levar meses”, afirmou.

A estiagem que assola a região desde dezembro já é considerada a maior em termos de abastecimento. Embora os volumes acumulados de água da chuva em 2012 tenham sido menores que os registrados na seca atual, a seca daquela época não chegou a comprometer o fornecimento de água.
“Para o histórico do Lago Dourado, a estiagem de agora é a maior. O rio não estava praticamente zerado como está atualmente. Havia contribuição do rio para o Lago Dourado. A seca de 2012 foi marcada pelo baixo volume acumulado de chuvas durante seis meses”, salientou Epstein.

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Poços artesianos
Na próxima segunda-feira, 27, começa a perfuração dos três poços artesianos de 200 a 300 metros de profundidade próximos ao Lago Dourado. A operação leva em torno de quatro a cinco dias. Após isso, será feita a montagem dos equipamentos. A expectativa de vazão de água é de 20 a 30 metros cúbicos por hora de cada poço.

A Corsan também estuda, como medida a longo prazo, a construção de barragens no Rio Pardinho. Outra alternativa é a transposição de água do Rio Jacuí. Mas isso, segundo Epstein, seria uma das últimas opções. “Estamos falando em mais de 30 quilômetros de distância, além do investimento da obra, que chega a cerca de R$ 100 milhões.”

Situação do Lago Dourado preocupa, bancos de areias e assoreamento são visíveis em diversos pontos

Fique atento
Neste domingo, 26, pela manhã, a Corsan fará uma interrupção no fornecimento de água a partir das 7 horas, com duração aproximada de 1h30. O desligamento será necessário para ativar a energização do novo transformador para funcionamento das bombas de recalque, instaladas junto à casa de máquinas na antiga captação do Rio Pardinho. A expectativa, segundo a companhia, é não gerar impacto no abastecimento de água.

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Chuva de 150 milímetros regulariza a situação
A expectativa é de que será necessário um volume de chuvas de 150 milímetros para regularizar a situação. As precipitações que atingiram o município chegaram a cerca de 440 milímetros e evaporaram 780 nos últimos seis meses. Conforme o professor de Agrometeorologia do curso de Engenharia Agrícola da Unisc, Marcelino Hoppe, a última chuva de grande volume neste ano ocorreu em janeiro, com 174 milímetros e evaporação de 158. Em fevereiro foram 63 milímetros de chuva e 47 de evaporação. Em março, choveu 11 milímetros, com 84 de evaporação. O mês de abril registrou 22 milímetros e evaporação três vezes maior, chegando a 76.
Em novembro de 2019, choveu 112 milímetros e evaporou 123. O mês de dezembro registrou 52 milímetros e evaporação de 192. “Comparando com 2012, neste mesmo período, choveu 395 milímetros. Os anos são um pouco diferentes. Mas dos últimos 20 anos, 2012 foi o mais seco em volume de acumulados de água”, afirmou Hoppe.

Sobre a estiagem atual, o professor universitário afirmou que a normalização deverá ocorrer de maneira lenta, podendo levar até seis meses. “As primeiras precipitações previstas para os próximos dias servirão para saturar o solo, somente depois a água começa a escorrer. Para começar a normalizar, será preciso uns 150 milímetros de chuva, o que vai melhorar as condições do solo.”

Ainda conforme Hoppe, a estiagem prolongada se deve à má distribuição das chuvas. “É uma gangorra. Desde a metade deste último ano, choveu acima do que deveria em regiões como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Por esse motivo, a umidade do ar não chegou aqui para nós. As frentes frias passavam por cima da nossa região, e a chuva ocorria apenas no Sudeste.”

Situação na região
A falta de chuvas traz impactos no abastecimento para muitos municípios da região. Em alguns já há racionamento de água; em outros, medidas tiveram de ser adotadas para conter o desperdício. O maior drama é no interior, onde as prefeituras não medem esforços para distribuir água potável e para consumo animal em propriedades rurais.

Santa Cruz do Sul: de janeiro até agora, os caminhões-pipa já entregaram 3 mil metros cúbicos de água para famílias no interior. As propriedades atendidas são, na maioria, locais que não aderiram às redes hídricas e ainda têm água de fontes naturais. Na última quinta-feira, o prefeito Telmo Kirst anunciou que vai aplicar multas em cidadãos que forem flagrados desperdiçando água. Os valores variam de R$ 900 a R$ 3 mil.

Venâncio Aires: o fornecimento de água também é da Corsan. Embora não ocorra racionamento, um decreto publicado em 17 de março estipula multa de R$ 230,00 para quem for pego desperdiçando água. Por dia, desde fevereiro, são transportados 140 mil litros em caminhões-pipa para propriedades rurais.

Rio Pardo: o fornecimento também é da Corsan. Ainda não há previsão de racionamento. No entanto, a preocupação maior são as famílias do interior. Pelo menos 23 localidades são atendidas, totalizando 450 famílias. Por dia, são distribuídos cerca de 40 mil litros de água por três caminhões.

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Gramado Xavier: o fornecimento é municipalizado e disponibilizado por poços artesianos e fontes naturais. Por dia, são distribuídos em média 15 mil litros de água a famílias do interior. A Prefeitura informou que, em razão da baixa vazão dos poços artesianos, já planeja um racionamento na área urbana, que deverá ocorrer nos próximos dias.

Candelária: abastecimento feito pela Corsan. Ainda não há racionamento de água. Uma intervenção foi feita no rio para manter o nível e garantir o abastecimento. O interior é o mais prejudicado. Por dia, cerca de 50 mil litros são transportados em dois caminhões.

Vera Cruz: o sistema é municipalizado. A fonte de captação é o Arroio Andreas. Por ora, a situação é estável e não há expectativa de racionamento. No interior, três caminhões-pipa e também um caminhão dos Bombeiros Voluntários são utilizados para transportar água potável e para consumo animal. Em média, 100 mil litros são distribuídos diariamente.

Herveiras: o abastecimento é municipalizado, e a captação é feita a partir de fontes naturais e poços artesianos. Das oito fontes existentes, apenas três se mantêm em funcionamento e os poços já estão com baixa vazão. No total, o município opera com apenas 20% de capacidade de água. Desde janeiro é feito racionamento em horários alternados na área urbana e no interior, onde o sistema de distribuição é mantido por reservatórios que são reabastecidos por caminhões-pipa.

Passo do Sobrado: o sistema é municipalizado, com água captada de fontes naturais e de poços artesianos. Embora ainda não ocorra racionamento, medidas foram adotadas para evitar o desperdício, como aplicação de multas para quem desrespeitar o decreto municipal. Por dia, dois caminhões-pipa e um dos bombeiros transportam 100 mil litros de água potável e para consumo animal a propriedades do interior. Outro caminhão está sendo montado com tanque acoplado para auxiliar na distribuição, a partir de segunda-feira.

Vale Verde: o fornecimento é municipalizado. A captação é feita em poços artesianos e fontes naturais. Diariamente, um trator acoplado transporta cerca de 15 mil litros para famílias do interior. Além disso, duas vezes por semana, o caminhão dos Bombeiros Voluntários de Passo do Sobrado auxilia na distribuição. Para amenizar a situação no interior, o Estado deverá perfurar nos próximos dias dois poços artesianos em Monte Alegre.
Sinimbu: o sistema é municipalizado, e a água é captada de fontes naturais e poços artesianos. Por dia, 45 mil litros são distribuídos por dois caminhões-pipa e um do Exército às famílias do interior. Desde dezembro, mais de mil aguadas já foram realizadas em propriedades rurais e 140 pedidos ainda aguardam na lista de espera.

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As chuvas

Meses Média histórica (mm) * Volumes atuais (mm)

Dezembro
Média histórica (mm) * 120
Volumes atuais (mm) 52

Janeiro
Média histórica (mm) * 136
Volumes atuais (mm) 174

Fevereiro
Média histórica (mm) * 105
Volumes atuais (mm) 63

Março
Média histórica (mm) * 124
Volumes atuais (mm) 11

Abril
Média histórica (mm) * 122     
Volumes atuais (mm) 22

Maio
Média histórica (mm) * 155     
Volumes atuais (mm) –

*As projeções de precipitações registradas de acordo com os valores históricos dos meses, baseadas em médias de 1914-1968, se o ano fosse normal.

Poços nas propriedades
Sem chuva constante desde dezembro do ano passado, tem faltado água para os animais, plantas e pessoas no interior dos municípios da região. Para minimizar a seca, os produtores rurais têm recorrido à perfuração de poços artesianos. No meio rural, a depender da qualidade da água, podem ser usados para consumo humano, animal e lavouras.

Seja no perímetro urbano ou no campo, a concessão de licença para perfuração de poços artesianos depende da autorização do Departamento de Recursos Hídricos (DRH) com a justificativa do uso. Conforme o diretor da RB Poços Artesianos, Joares Alberto de Oliveira, com a mudança de lei tudo ficou mais fácil. “O interessado devia fazer o pedido, levar a prefeitura do respectivo município e esperar o retorno. Agora tudo é feito no site do DRH. Em até quatro dias você está com a licença definitiva na mão.”

Após a licença de perfuração, estudos do lençol freático e tipo de solo, além da outorga para uso, iniciam-se as obras. Conforme Oliveira, em Santa Cruz, na parte baixa da cidade, a profundidade dos poços é de de 80 a 120 metros em média. Já na parte alta, como Linha Santa Cruz, a metragem vai de 250 a 300 metros. “Do início das perfurações até a entrega para o uso, levamos de três a cinco dias. Um poço simples (para residências) custa em torna de R$ 50, 60 mil. Para um de maior vazão, como os usados por fumageiras, o custo vai de R$ 70 a 80 mil.”
“É uma obra de engenharia. Para as pessoas terem um parâmetro, nossas máquinas são uma espécie ‘mini’ das que a Petrobras utiliza para abrir poços de petróleo. É o mesmo procedimento, o mesmo modelo, só muda a proporção”, comparou.

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