Rádios ao vivo

Leia a Gazeta Digital

Publicidade

LANÇAMENTO

Livro retrata a saga de família polonesa que se estabeleceu no Vale do Rio Pardo

Foto: Rodrigo Assmann

André Maieski, que mora em Vera Cruz, narra a história familiar, desde a partida na Polônia até o recomeço no Sul do Brasil

Parece romance, mas não é.

É história. E memória. Livro lançado por morador de Vera Cruz resgata a trajetória de uma família de poloneses que deixou a terra natal para recomeçar no distante Sul do Brasil. Os Majewski: raízes polonesas no Rio Grande do Sul é a contribuição de um descendente para enaltecer uma saga similar à de tantos europeus que se renderam ao convite para emigrar. A edição é do autor, viabilizada em plataforma online, em 175 páginas, e pode ser adquirida na Amazon e na Uiclap.

Maieski optou por enfeixar em narrativa literária a série de informações históricas que levantou, ao invés de um recorte genealógico direto. Talvez por essa razão, seu livro, para os leitores em geral, inspire uma associação natural com as vivências de seus próprios antepassados, sempre que envolvam a imigração europeia.

Publicidade

No caso dos Majewski (cuja grafia com o tempo foi aportuguesada, para Maieski), o casal Wojciech e Zuzanna deixa Tluchowo, na Polônia, onde subsistiam com dificuldade, e, ao lado das filhas Stephania, Mathildes e Jadwiga, parte para o Sul do Brasil. Instalam-se na Linha Corrêa Neto, em São Feliciano, interior de Encruzilhada do Sul, no começo de 1891, e ali tomam posse de área de terras.

Com o falecimento de Zuzanna, ele casa novamente, com Wiktorya Zabicka, e com ela tem mais sete filhos. Um deles, Ignácio, nascido em 1903, seria o responsável por estabelecer a relação com Santa Cruz do Sul.

Uma odisseia que atravessa as décadas e chega ao presente

De seu segundo casamento, com Wiktorya Zabicka, Wojciech Majewski teve mais sete filhos. O quarto deles, Ignácio, nascido em 1903, cresceu ouvindo as narrativas sobre uma terra distante, a Polônia, de onde vinha seu clã, e se uniu posteriormente a Constantina Lesnik. O casal viria a ter 14 filhos, contribuindo assim para espalhar o sobrenome em toda a região colonial.

Publicidade

Cientes de que as terras eram poucas para descendência tão ampla, Ignácio e Constantina decidem mudar-se para uma outra colônia europeia, na região central do Estado: Santa Cruz do Sul. Agora em um ambiente de forte presença alemã, a família prosperava rapidamente, inserindo-se em variadas atividades produtivas. E seria o filho Gabriel, nascido em 1930, que se tornaria o pai do autor do livro, a partir de sua união com Anna Petronilla Sehnem, aproximando descendentes de poloneses e alemães.

E já nesse contexto, da inserção social no Vale do Rio Pardo, entre Santa Cruz, Vera Cruz e Cachoeira do Sul, que o sobrenome teve mudanças na grafia, por equívocos de cartório no momento dos registros. Entre as variações, surgiram os sobrenomes Maeyeski, Maeski, Mayeski, com a supressão do “j” e a inserção de “y”, e ainda a forma Maieski, como assina André Maieski, nascido em 1958, quarto dos nove filhos de Gabriel e Anna Petronilla.

André tornou-se o guardião da memória familiar. Casou-se com Eldiva Maria dos Santos, fixando-se o casal em Vera Cruz. Tiveram os filhos Jean Pablo e Andressa Diéssica. Com o falecimento repentino de Jean, em 2006, e a dor e o vazio decorrentes dessa perda, André, duas décadas depois, em 2026, lançou sua narrativa, apoiada nos registros históricos e familiares, para contar a saga dos Majewski/Maieski entre a Polônia e o Brasil.

Publicidade

Para ler

OS MAJEWSKI: raízes polonesas no Rio Grande do Sul, de André Maieski. Vera Cruz: ed. do autor, 2026. 175 p. R$ 57,00 (Amazon).

Wojciech inclinou-se, pegou um punhado de terra e a esfregou entre os dedos. Não era cinzenta como a de Tluchowo, nem arenosa como a do porto de Bremen. Era uma terra rica, escura debaixo da folhagem, que parecia pulsar com a promessa de vida. Ele olhou para Zuzanna e para as filhas, todas cobertas pelo pó da estrada, mas vivas e unidas após meses de provações oceânicas. O “Rumo ao Sul” chegara ao seu destino geográfico. O Porto Alegre que viram era agora uma lembrança de espelhos d’água, e a realidade diante deles era o manto verde e desafiador da mata virgem.

Naquela noite, sob o teto improvisado e o som de uma natureza que rugia com vozes desconhecidas, a família Majewski orou. Não oraram mais pela segurança da viagem, pois ela terminara. Oraram pela força para o amanhecer seguinte.

“Quis deixar o legado de minha pesquisa”

A perda do filho Jean Pablo, aos 23 anos, em 2006, confrontou André Maieski com a constatação de que o sobrenome polonês, que viera ao Rio Grande do Sul com o antepassado Woyciech Majewski, em 1891, não seria legado adiante pelo ramo masculino. Em meio à dor decorrente do luto, ele e a esposa, Eldiva, direcionaram suas atenções e amor à filha Andressa Diéssica. E André, nos anos seguintes, dedicou-se a uma pesquisa genealógica a fim de, em algum momento, registrar em livro a longa e desafiadora história do seu clã, desde a Europa até o Brasil.

Publicidade

O resultado de seus esforços agora compartilha em obra sobre os Majewski. Em seus planos está prosseguir nas investigações sobre o ramo familiar de sua mãe, os Sehnem, descendentes de alemães que residiam em Passo do Sobrado. Aos 67 anos, André cumpre jornada como técnico agrícola: atua desde a década de 1980 no setor do tabaco, tendo passado por diferentes empresas como orientador de campo. Em paralelo, iniciou a formação em Biologia, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que não concluiu.

Essa área de interesse inspirou sua filha Andressa, 39 anos, que se formou bióloga e fez pós-graduação. Natural de Santa Cruz e com passagem por Cachoeira do Sul, onde os dois filhos nasceram, André e Eldiva fixaram-se em Vera Cruz, onde ela atuou no comércio. Já Andressa é casada com Douglas Rodrigo Ohland, e auxilia na empresa da família dele. André ressalta que os descendentes Majewski estão envolvidos em vários setores: na agricultura e na pecuária, em profissões liberais e no setor jurídico, saúde, ciência e indústria farmacêutica, educação, teologia e pesquisa acadêmica, empresários, comerciantes. “São bem diversificados nas suas aptidões”, frisa.

Sobre sua iniciativa de registrar por escrito o resultado de suas investigações sobre a família, André entende que possa constituir fonte de informação para o público em geral. “O livro foi modestamente elaborado por mim, de maneira bem sucinta, para deixar um legado do trabalho que venho realizando nas pesquisas genealógicas familiares por tantos anos”, comenta. “Hoje, já me sinto parcialmente realizado, pois nesta obra está relatada não só uma história verdadeira, mas uma réplica de como esses imigrantes contribuíram para chegarmos aonde estamos.”

Publicidade

E menciona ainda a sua expectativa de estimular e incentivar outros a valorizarem suas raízes. “Espero poder deixar ensinamentos para as pessoas que se interessam sobre o assunto, a fim de que possam se espelhar no passado para viver o presente e projetar o futuro”, define.

André Maieski: foram quase duas décadas de pesquisa | Foto: Rodrigo Assmann

Entrevista

André Maieski
Técnico agrícola e escritor

 

  • Como foi o processo de localização de fontes ou informações sobre a família na Polônia e sobre os primeiros tempos no Brasil? Em primeiro lugar, tenho que falar da árvore genealógica da família. Sempre tive curiosidade de saber quem eram meus antepassados e como viviam. Por isso, há uns 12, 15 anos iniciei a busca de informações. Tinha leve lembrança do que meu pai e avós comentavam quando eu era criança, mas o tempo foi passando e fui colocando isso tudo no papel.
    Depois, resolvi alugar a plataforma do MyHeritage para fazer algo definitivo e visível para o mundo. Hoje, a árvore está com 23.781 pessoas parentes de sangue (diretos) e por casamento (indiretos) e 5.213 fotos de pessoas e documentos comprobatórios da existência dessas pessoas e informações. Digo ainda que uma árvore genealógica não é apenas um aglomerado de informações, e sim uma história real que aconteceu. Consegui chegar até a oitava geração dos Majewski (ano 1810), ou seja, dos meus octavós por parte de pai e até a décima oitava geração (ano 1359) da família Sehnem, por parte de minha mãe. Para chegar até aqui foram muitas pesquisas: dias e noites, semanas, meses e anos em busca de mais informações.
    Alguém pode me perguntar onde essas buscas são realizadas. Então respondo: trocas de informações entre pesquisadores, sites nacionais e internacionais, como o próprio MyHeritage, Family Search, Wikipedia, Ancestry, Geneanet, Geneteka Poland, Arquivo Histórico do RS (AHRS), Arquivo Nacional (Sian), cartórios, arquivos de igrejas, cemitérios, pessoas etc. e hoje mais ainda com a ajuda da IA.
    Mais recentemente, resolvi fazer este pequeno livro que conta bem resumidamente a história da minha família paterna. Para que seja lido e conhecido, resolvi registrá-lo na Câmara Brasileira do Livro (CBL). Está à venda na Uiclap (https://loja.uiclap.com/titulo/ua183813) e na Amazon.

 

  • O senhor conheceu a região de seus antepassados na Polônia? Não conheço pessoalmente, mas com a tecnologia atual da informática, já dei uma sobrevoada na região. Tenho muita vontade de conhecer pessoalmente. Não tenho contatos e/ou relações com os parentes da Polônia, me dediquei até o momento com os parentes aqui do Brasil, não esquecendo que a família Majewski, assim como outras, está espalhada por grande parte dos países no mundo, principalmente  Alemanha, EUA, Reino Unido, Suécia, França, Holanda, Dinamarca e outros mais. Vejo que nesses países há milhares de poloneses, pois realizei meu DNA e recebi essas informações pelo site do MyHeritage. Ah, não esquecendo, o DNA é outra ferramenta importante na busca de dados, pois frequentemente recebo informações de mais pessoas parentes de sangue.

 

  • Como está a preservação cultural em família? As gerações vão passando e vai caindo no esquecimento a preservação cultural, tudo muito corrido. A maioria não dá mais a devida atenção merecida às culturas dos antepassados, principalmente a linguagem polonesa, que está cada vez menos falada. Eu mesmo, devido a minha mãe de origem alemã não entender a linguagem polonesa e meu pai de origem polonesa não entender a linguagem alemã, pouco aprendi, pois em nossa casa só se falava o português. O pouco que sei, aprendi com meus avós em visitas a eles. No cotidiano, só ficam algumas lembranças e os ensinamentos daqueles que já não estão mais entre nós.

 

  • Em termos culturais, o que em especial identifica os poloneses? Ocorre a manutenção culinária e também de tradições, em especial em municípios como Dom Feliciano, Áurea, Guarani das Missões e Erechim, onde a concentração de descendentes é maior. Realizam festas tradicionais, com comidas típicas polonesas, principalmente nas comunidades do interior.

 

  • Há várias formas de grafia, como Majewski e o aportuguesado Maieski? Sim, Majewski é a grafia de origem da Polônia mais usada, mas, dependendo da região da Polônia, há também outras grafias por lá, como Maiewski, Majeski e alguns Maieski. No caso dos meus antepassados que vieram da região de Kujawsko – Pomorskie, usavam Majewski, o mais tradicional. A pronúncia correta em polonês de Majewski é MAIÉFSKI. Onde o “J” tem som de “i” e o “W” um som de “F” meio mudo.
    Em cada país onde houve imigração polonesa, existem grafias ainda diferentes destas, pois depende muito de quem escuta; normalmente escrevem o que entenderam na pronúncia. Pelo que eu conheço até hoje, há mais de 30 grafias diferentes. O sobrenome Majewski é de origem polonesa e tem raízes toponímicas, ou seja, deriva do nome de localidades (como vilas chamadas Majewo ou Majówka) ou da palavra polonesa para o mês de maio (maj). Na Polônia, os Majewski estão associados a diversas regiões, e muitos desempenharam papéis significativos na história e na cultura do país. A migração polonesa para o Brasil, que começou no século 19, trouxe muitos sobrenomes, incluindo Majewski, que podem ser encontrados em várias partes do País.

Aviso de cookies

Nós utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdos de seu interesse. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.