Nos anos 1990, meu irmão e eu desembarcamos na capital do maior estado brasileiro com uma meta: conhecer a floresta amazônica e estar próximo dos povos originários. Se o Amazonas fosse um país, estaria entre os 20 maiores países do mundo, quase totalmente coberto pela selva. A floresta ainda é o cerne, indomável, poderosa e, paradoxalmente, frágil diante da gradual destruição.
Com orçamento bastante limitado, encontramos alojamento no hotel do manauara Gerardo. Ficaram lembranças folclóricas: nosso precário quarto, que em valores de hoje custaria cerca de R$ 30,00 por noite, ficava do lado de fora do prédio, com a porta na calçada. O banheiro era resultado de um projeto compacto, com o chuveiro em cima do vaso sanitário. A diária incluía R$ 5,00 pelo ar-condicionado, quase essencial diante do calor, da umidade e dos ferozes mosquitos. O café da manhã se resumia a uma bacia com pães com manteiga e um surpreendentemente saboroso suco de graviola.
Já na primeira manhã, negociamos com um nativo do povo Munduruku uma expedição pela floresta e pelos rios da região. Após navegar pelo incrível Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões, visitamos aldeias indígenas, pescamos piranhas com iscas de carne, “focamos” jacarés à luz de lanternas, caminhamos pela selva e conhecemos famílias indígenas cujas crianças conviviam com cobras, macacos e preguiças. Aqueles rios por onde navegávamos haviam conduzido, quatro séculos e meio antes, outros forasteiros à região.
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Em 1542, a expedição de Francisco de Orellana, que partira de Quito em busca de florestas de canela e da lendária cidade de Eldorado, chegou ao encontro dos rios Negro e Solimões. Na confluência, Orellana batizou de Rio Negro o grande afluente de águas escuras. Mais adiante, segundo as crônicas de Gaspar de Carvajal, encontraram grupos indígenas defendendo seu território, com a participação de mulheres fortes e determinadas. Associadas pelos espanhóis às amazonas da mitologia grega, acabariam dando origem ao nome que identifica o rio, a floresta e o maior estado brasileiro.
Em Manaus, cidade com mais de dois milhões de pessoas e certo caos urbano, a atenção se volta para um passado de opulência e modernidade. Seu símbolo é o Teatro Amazonas, testemunho do apogeu do ciclo da borracha. As novas aplicações do látex e, posteriormente, a indústria automobilística alimentaram uma crescente demanda internacional e a intensa exploração da floresta, conduzida em boa parte por interesses estrangeiros.
A riqueza financiou uma espécie de belle époque tropical, mas pouco foi feito para diversificar a economia. Surgiram ruas calçadas, praças arborizadas, uma das primeiras redes de energia elétrica do país, bondes e o portentoso Teatro Amazonas (1896), construído em grande parte com materiais importados da Europa, fato destacado com um orgulho que, confesso, não entendo bem.
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Aidir em registro na floresta amazônica: gigante na diversidade da fauna e flora

Seringueira: dependência extrativista
A armadilha da dependência
Em 1876, o inglês Henry Wickham embarcou no SS Amazonas com cerca de 70 mil sementes de seringueira, oficialmente destinadas ao Kew Gardens, em Londres. Nas estufas inglesas, algumas se tornaram mudas e seguiram para a Ásia. Aquelas pequenas sementes carregavam uma ameaça que Manaus demoraria a perceber. Poucas décadas depois, estava encerrada sua supremacia mundial na borracha. No início do século 20, Manaus foi tomada pela pobreza, por favelas flutuantes e pelo abandono da isolada região.
Do tempo eufórico restaram o teatro, alguns prédios históricos e uma lição talvez não aprendida: é preciso usar a riqueza presente para financiar um futuro menos dependente daquilo que não será eterno. A história oferece também um alerta para minha cidade natal e sua região, ainda fortemente dependentes de uma cultura agrícola de pouco valor agregado e cujo consumo mundial enfrenta crescente pressão por razões de saúde pública. A melhor hora para construir a próxima fonte de riqueza é enquanto a atual ainda pode financiá-la.
Manaus surgiu ao redor do Forte de São José da Barra do Rio Negro, construído pelos portugueses em 1669 para consolidar sua presença numa Amazônia disputada por potências europeias. Afastando as forças externas, a cidade acabou sucumbindo, distraída, à dependência de uma única atividade extrativista. Décadas depois, a Zona Franca procuraria reconstruir, por meio de incentivos fiscais, a capacidade econômica de uma cidade cuja geografia dificulta a industrialização.
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Talvez essa seja a lição de Manaus: independência não é apenas conquistar um território ou celebrar o passado. É ter soberania, inteligência e coragem para construir o futuro enquanto ainda podemos escolhê-lo.
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