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ENTREVISTA

“Mulher tem que aparecer, não deve estar escondida”, afirma Glória Jacobus à Gazeta

Foto: Marcio Souza

No último domingo, 31, Glória Dulce Buglione Jacobus completou 97 anos. No dia seguinte, a Câmara de Santa Cruz do Sul, em proposição do vereador Alberto Heck (PT), fez com que seu ego ficasse inflado, pois, na sua opinião, “estava meio caidinho”. Cachoeirense de nascimento, ela passou a ser Cidadã Santa-cruzense – antes de fato, agora de ato.

O título a destaca na história do município, mas seu nome já está registrado há mais tempo. Em 1964 ela foi a primeira mulher eleita para o Legislativo local. A conquista da vaga aconteceu quando os caminhos abertos para as mulheres eram bastante limitados.

Professora de escolas do interior, nem imaginava a possibilidade de chegar à Câmara até receber o convite de Siegfried Heuser, Pedro Simon e Fernando Ferrari para disputar a eleição pelo MDB. Terminou a disputa com uma cadeira no Legislativo, que manteve em dois mandatos.

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A política, explica, possibilitou adquirir muito conhecimento, incentivar outras mulheres à participação e conhecer Luiz Arthur Jacobus, que destaca como o amor da sua vida. Com ele, teve dois filhos: Caio Flávio (o Formigão, apresentador da Rádio Gazeta FM 101,7) e Marco Aurélio.

Entende a relevância da sua participação na vida pública local, mas reforça a necessidade de que mais mulheres participem do processo decisório. “Eu senti uma responsabilidade muito grande. Acho que cumpri uma missão, ser a primeira a abrir as portas; agora, deixo para as outras. Acredito que mais mulheres vão se apresentar. Temos hoje, mas ainda é pequena a representatividade.”

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Entrevista Glória Dulce Buglione Jacobus — ex-professora e ex-vereadora

Gazeta do Sul – Quando a senhora candidatou-se à Câmara, foi por vontade sua ou os políticos perceberam sua potencialidade?

Glória Dulce Buglione Jacobus – Eu não pensei em ser vereadora, mas políticos vieram e insistiram para que eu fosse. Inclusive disse “eu não sei ser vereadora”. Mas vieram o Siegfried Heuser, o Pedro Simon e o Fernando Ferrari, os três cabeças grandes do MDB, e eu acabei aceitando. Achei que não fosse ganhar a eleição, porque eu disse o seguinte: “Eu não tenho um tostão para gastar em política e acho que não é certo”. Então, o Heuser falou “eu te dou os santinhos”; ele me deu os santinhos, e com eles eu fiz a propaganda. Aceitei e foi uma surpresa ter ganhado.

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Com o que a senhora trabalhava na época?

Era professora. Fui professora no interior de Venâncio Aires. Saí do Instituto de Educação em Porto Alegre para ir lá para o interior de Venâncio, e lá fiquei por dois anos; depois fui para Porto Mariante, Faxinal de Dentro, sempre escola primária. Após vim para Santa Cruz e nesse período fui convidada para fazer um curso em Porto Alegre, para orientação de professores. Aí passei mais dois anos em Porto Alegre e retornei para Santa Cruz, onde continuei trabalhando na educação.

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Qual foi a reação da sua família, quando disse que seria candidata?

Pai, infelizmente, não tinha mais, porque já havia falecido, mas a família ficou muito contente, vibraram, faziam festa, e os amigos também. Aí eu fui com mais coragem para ver se conseguia votos, e foi. Não deixou de ser uma surpresa eu ter vencido, porque eram muitos vereadores, aliás, muitos candidatos, mas ganhei, e acabei gostando. Só aprendi. Mais aprendi na vereança do que em outras situações quaisquer.

A senhora reelegeu-se para mais um mandato. Como foi esse segundo mandato?

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Me elegi em duas consecutivas. A segunda vez já fui com mais experiência, porque tinha trabalhado os quatro anos com vereadores que ensinavam também a gente. Através do exemplo que davam, então, foi um trabalho que no fim da vida, hoje em dia, digo: “gostei de ser vereadora”.

Durante a legislatura, chegou a perceber alguma hostilidade ou preconceito de seus colegas de Câmara?

Não. Não houve problema. Era uma turma de vereadores, de gente educada, gente equilibrada, e inclusive ajudavam. Então, graças a Deus, foi um ambiente favorável. Tudo se resolveu bem.

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A senhora, hoje, enxerga o Palacinho da sacada do seu apartamento. Chegou a ter, em algum momento, vontade de ocupar a cadeira de chefia do Executivo? Ou seu objetivo político ficou restrito à Câmara?

Não. Não. Não. Nunca quis ser prefeita. Não quis continuar. Eu cumpri minha missão. Agora, deixo para as outras. Eu acho que vão se apresentar mais mulheres, porque está muito pouco ainda. Sempre a maioria é dos homens, e a igualdade é a melhor coisa que pode acontecer. Mas ainda falta trabalhar para isso. Acho que falta por causa das mulheres mesmo. Quer dizer, não encontram o caminho aberto e ficam retraídas.

Tem muita mulher que podia ser vereadora, prefeita, tudo mais, deputada, seja lá o que for dentro da política. Mas ficam com um certo receio. Tem que ir mais atrás disso. Se o caminho não estiver aberto, é preciso abrir o caminho. Para a vereança já está aberto.

Mas ainda é fraco. Há necessidade de mais, um número maior de mulheres. E o ambiente também na política aqui em Santa Cruz foi muito favorável, viu? De pessoas educadas, pessoas que sabiam expor as suas ideias. Sempre existiu o debate, mas um debate rico, assim, pela questão política mesmo, não pessoal. Isso é bom.

À época, a senhora tinha noção do que representava para a política local a sua eleição?

Não. A vontade era de acertar, a minha preocupação maior era acertar, mas não tinha pensamentos futuros dentro da política, nada disso, estava centrada na vereança.

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Durante os mandatos, ou depois deles, a senhora chegou, de alguma forma, a incentivar a participação de outras mulheres na vida política?

Isso eu fiz bastante. Para várias amigas eu dizia: vai ser vereadora, vai, que é uma coisa muito bonita, é um trabalho bom, é um trabalho bonito e de grande responsabilidade. Animava bastante as amigas. A mulher tem que aparecer, porque mulher não é para estar escondida. Na vereança, há necessidade de ter mulheres também, inclusive para o trabalho. A cabeça masculina é uma, a cabeça feminina é outra; juntando as duas é que dá o certo. Então, acho que estimulei bastante gente.

E, atualmente, como a senhora vê a participação das mulheres? Temos vereadoras, já tivemos duas prefeitas, governadora e presidente da República mulher…

Com uma força bem maior do que no meu tempo. E estão fazendo muito bonito, são mulheres que representam Santa Cruz e trabalham, a gente vê que têm experiência também. Isso tudo leva a gente a admirar as pessoas que vêm.

Mas ainda falta, não chegaram ainda no ponto de dizer chega, ainda não chegou, há necessidade de que as mulheres continuem trabalhando com esse propósito de servirem nas Câmaras, como deputadas. Mas que elas também se apresentem, porque são iguais ao homem. A igualdade é a mesma; os direitos também são os mesmos, os deveres também são os mesmos, apresentem-se então.

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A senhora foi homenageada na Câmara de Vereadores, na última segunda-feira, com o título de Cidadã Santa-cruzense. O que esse momento significou para a senhora?

Foi um presente muito grande. Eu fiz aniversário dia 31 de maio, e no dia 1º de junho veio essa homenagem tão bonita e tão significativa. Eu me emocionei mesmo, porque não esperava, já estava esquecida, meio apagadinha, viu? Mas foi uma alegria muito grande, uma satisfação, e faz a gente lembrar o passado. Na velhice, a gente gosta muito de pensar no passado, e esse é meu passado. Hoje eu vejo que foi bom.

A senhora foi professora e falou sobre muitos fatos históricos para seus alunos. Já passou pela sua cabeça que o seu nome deve estar nos livros de história de Santa Cruz por ter sido a primeira vereadora?

Pois é, senti uma responsabilidade muito grande. Acho que eu cumpri uma missão, de ser a primeira a abrir portas. E foi um aprendizado dia a dia, quando eu ia para a Câmara. Tinha receio de não saber ser vereadora. Aquele receio, aquele medo que dá na gente, mas aos poucos fui me acostumando e gostei, tanto é que fui duas vezes.

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Sua primeira eleição foi em 1964, ano em que os militares assumiram o poder no Brasil. Foi eleita pelo partido de oposição ao governo federal. Houve algum complicador em função disso?

Não cheguei a ser presa, mas passei noite em claro na expectativa de que fosse acontecer. Tinha muita amizade com o responsável pelo Exército, aqui, e ele viu que estavam processando um pedido para minha prisão. Então, cortou. Eu não fui, mas foi uma noite que eu passei em claro, pensando “é agora que vêm me buscar, é agora”. E, graças a Deus, não foi. Mas se não fosse essa amizade, seria. Não teria mais ninguém que tivesse graduação, uma mão forte para dizer “não, a Glorinha não pode ser presa”.

Nesse período a senhora chegou a fazer visitas a presos políticos, que mudaram a sua história…

Entre os presos políticos estava o meu futuro marido. Houve um encontro de almas nesse momento. Então, saindo dali, três meses depois, estávamos casados. Os dois não eram novinhos, já tinham bastante experiência de vida, e viram que era o certo, e realmente foi o certo. Porque no meu casamento foram momentos de felicidade. Só pena que ele foi muito cedo. Deixou o amor para mim para sempre.

Tivemos dois filhos, que são adotados. Esses dois filhos agora são a minha ajuda. Ajuda no sentido de dar carinho, de dar amor. São duas criaturinhas maravilhosas. São adultos e continuam sendo pessoas muito boas, muito queridas.

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Conhecendo a política do passado, quando foi vereadora, como a senhora avalia o momento atual?

Eu tenho a impressão que naquela época, não sei se porque a gente estava ligada, também, ela acontecia mais. Falava-se mais em política. E hoje, talvez pela própria idade, que a gente vai se retirando, não se sente assim um ardor político, uma força política. Porque a política é como, às vezes eu digo, religião. Ela mexe com a gente também. E ensina muito, viu? Como sempre digo, a política é a arte de fazer o bem comum. É uma arte que, lógico, cada um tem seu partido e tudo mais, isso é estabelecido, é certo.

Sobre partido, a senhora permaneceu apenas no MDB?

O MDB foi o partido em que a gente sempre se encontrou, encontrou as realidades todas da vida política e da vida social. É um partido que me dizia muita coisa, e a gente assumiu. Meu marido também, ele foi vereador em duas vereanças também. E era do MDB. Então, a política nos uniu dessa forma, com pensamentos iguais.

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Reconhecimento pela Câmara

Glória Dulce Buglione Jacobus comemora a chegada dos 97 anos e o destaque recebido. Projeta a chegada aos 100. Sua vitalidade e saúde permitem prospectar que ingresse no grupo de centenários santa-cruzenses. Atualmente, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 303.

Lamenta algumas consequências que o avanço da idade traz. Os amigos passam a escassear, pois muitos deles já morreram. Um dos afazeres que lhe agradava ficou impossibilitado com a diminuição da visão e dos reflexos. Há dois anos, parou de dirigir. “Quando os filhos me levam a Vale do Sol [onde tem propriedade], ainda vou imaginando como se estivesse dirigindo”, comenta. Para dar mais atividade ao seu dia a dia, ocupa-se com atividades como a culinária. Serviu, durante a entrevista, prato e ambrosia, que orgulhosamente fez. “Agora, sou do lar”, brinca.

A trajetória de vida e o legado de dona Glorinha, como é carinhosamente conhecida, foram destacados em sessão da Câmara de Vereadores na última segunda-feira, 1º, conduzida pelo presidente Serginho Moraes (PL). Estiveram na mesa como convidados o vice-prefeito Alex Knak; o coordenador Luis Ricardo Pinho de Moura, da 6ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE); Sônia Marli Kessler Kist, ex-vereadora de Santa Cruz do Sul; e os filhos Marco Aurélio Jacobus e Caio Flávio Jacobus.

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Saiba mais

Nascida em Cachoeira do Sul, Glória Dulce Buglione Jacobus mudou-se para Santa Cruz do Sul aos 3 anos de idade. Sua vida foi marcada por uma dedicação exemplar à família, à educação e ao serviço público.

Filha de Paschoal Buglione e Carmela Capuano Buglione, cresceu em uma família numerosa. Seu pai, ferroviário, e sua mãe incutiram nela a importância de valorizar o esforço e a dedicação, influenciando seu desejo de se tornar professora.

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Sua carreira profissional na educação foi vasta, atuando em diversas escolas e cargos de liderança, incluindo delegada de Ensino da 6ª DE e secretária de Educação de Santa Cruz do Sul entre 1973 e 1976, durante a administração do prefeito Elemar Gruendling.

Em sua gestão como delegada de Ensino, foi responsável pela construção das “Brizoletas”, os populares educandários que simbolizaram o compromisso do governador Brizola de que nenhuma criança ficasse sem escola. Elegeu-se vereadora em 1964 e em 1976.

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