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No fundo do Poço

Se você entrou nas redes sociais nas últimas semanas, deve ter visto ou lido pelo menos uma referência ao filme de suspense e terror da Netflix, O Poço (El Hoyo). O longa espanhol, dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, tem cerca de 1h34 de duração. O filme não seria a recomendação mais adequada para quem procura algo leve para assistir durante o período de isolamento, mas é certamente uma reflexão necessária, e que chega em um momento oportuno.

Na história, uma misteriosa prisão vertical recebe juntos criminosos e pessoas que decidiram pela internação voluntária. A estrutura tem um buraco profundo, uma quantidade desconhecida de níveis, e a cada andar duas pessoas. Uma plataforma desce uma vez ao dia com um farto banquete. No entanto, apenas aqueles que estão nos níveis superiores conseguem aproveitar a fartura. Os desafortunados nos níveis inferiores morrem de fome, pelo egoísmo daqueles que estão acima.

A metáfora não é nova no cinema, lembra até mesmo o recente Expresso do Amanhã, de Bong Joon-Ho, ainda que naquele o sistema fosse um trem onde cada vagão representa uma classe, e em O Poço sejam os diferentes níveis. Mas o mérito do filme é conseguir inserir um sem-fim de detalhes que tornam a narrativa ainda mais brutal. Acompanhar o personagem principal em sua descida ao inferno, literalmente, é compreender a falta de humanidade deste sistema. Não só no filme, mas na nossa sociedade. E se a história não é fácil, as imagens também são altamente gráficas.

Uma das cenas mais marcantes para mim é quando o protagonista Goreng sugere que todos racionem a comida, para que não falte a quem está no fim da fila, e seu mentor, e mantenedor do status quo, Trimagasi, o questiona: “Você é comunista?” A sugestão racional e humana é ignorada. A alegoria mostrada pelo filme espanhol em suas simbologias e mensagens evidencia o lado mais sombrio dos seres humanos: o fato de que estamos dispostos a deixar que outros morram de fome, se nosso prato estiver cheio. Mesmo que pessoalmente ninguém se identifique com esta afirmação, e acredite ter empatia, fazemos parte de um sistema econômico que permite
que isso seja verdade.

A respeito do final, não vou entregar nenhum spoiler, mas vi muitas críticas. Para mim, um final aberto a interpretações é sempre
melhor, apesar de ser mais desconcertante, pois demanda a reflexão
do espectador. Como somos educados por filmes de Hollywood, que, em geral, nos acariciam e nos entregam finais amarradinhos,
nem sempre é fácil engolir as perguntas não respondidas. O Poço definitivamente não é um filme de que todos vão gostar, mas possui considerações que todos nós deveríamos estar fazendo, especialmente no momento presente.

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