Não sei em que momento as coisas mudaram, mas certas cenas e situações demasiado estúpidas tornaram-se recorrentes. Por exemplo, não era comum em estádios de futebol ver o que aconteceu, há poucos dias, numa partida entre Corinthians e Santos.
Um menino de 8 anos, corintiano, precisou de escolta policial para sair da Neo Química Arena após ganhar uma camisa do atacante santista Neymar, no fim de um jogo que o Santos venceu por 1 a 0. Pedro Souza Mello assistia à partida com a mãe e foi alvo de xingamentos e ameaças proferidos por meia dúzia de torcedores do Corinthians. Furiosos.
O garoto havia levado ao estádio um cartaz com a frase “Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã, me dá sua camisa”. Vindo de uma criança, nada mais natural e compreensível. Teoricamente. Mas o Brasil atual, em diversos campos (não apenas nos de futebol), está longe de ser um país compreensível.
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Episódio grotesco, mas não foi o primeiro. Faz lembrar o caso de Bruno do Nascimento, torcedor do Santos. Há alguns anos, ao término de um jogo entre seu time e o Palmeiras na Vila Belmiro, Bruno – então com 9 anos de idade – pediu e ganhou de presente a camisa do goleiro palmeirense, Jailson. O Santos acabara de perder por 2 a 0, e o garoto estava com seu pai nas arquibancadas da torcida quando Jailson, de quem ele é fã, aproximou-se e entregou a roupa.
A reação de alguns torcedores santistas que estavam por perto foi a pior possível. Revoltados, insultaram a criança aos gritos, cuspiram em sua direção, desferiram chutes. Bruno e o pai, Moisés, tiveram de sair do estádio escoltados pela Polícia Militar.
Dois dias depois, o garoto postou no Instagram um vídeo em que dá explicações. Uma retratação. “Me perdoa se alguém se ofendeu. Eu não sou palmeirense, eu sou santista, é que eu gosto muito do Jailson.” Bruno ainda sugeriu que devolveria a camisa “pra não me baterem nos jogos”. Após o episódio no estádio, de acordo com o pai, ele havia recebido até ameaças de morte nas redes sociais.
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A situação toda é desconcertante. Um menino de 9 anos, fã de futebol, é hostilizado por parte da torcida de seu time porque é incapaz de tratar o rival como inimigo – é uma criança, afinal, ainda não “cresceu” o bastante para sentir tanta raiva. Tal como Pedro Souza Mello. Dois dias depois, constrangido e com medo, pediu desculpas aos que se sentiram ofendidos por sua conduta civilizada demais.
Permanece válido o questionamento de Moisés, pai de Bruno: “Como vou poder ensinar meu filho a respeitar quem pensa diferente dele?”. Ao menos para quem acha que respeitar opiniões diferentes é fundamental.
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