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CONVERSA SENTADA

O fim da disciplina?

Poucas inovações médicas recentes despertaram tanta atenção quanto as chamadas canetas emagrecedoras. Desenvolvidas para tratar o diabetes e posteriormente incorporadas ao combate da obesidade, medicamentos como Mounjaro e Wegovy deixaram rapidamente os consultórios para ocupar o centro do debate econômico, cultural e até filosófico.

A razão é simples: talvez estejamos diante da primeira tecnologia capaz de modificar profundamente um comportamento humano sem exigir transformação equivalente da vontade. Durante décadas, emagrecer foi apresentado como consequência de disciplina.

Alimentação equilibrada, atividade física e persistência compunham uma pedagogia do autocontrole, na qual o mérito não estava apenas no resultado estético, mas na capacidade de dominar impulsos.

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As novas medicações alteram significativamente esse paradigma. Ao agir diretamente sobre os mecanismos biológicos da fome e da saciedade, reduzem um dos principais obstáculos enfrentados por quem tenta perder peso. Não substituem hábitos saudáveis nem eliminam a necessidade de acompanhamento médico. Ainda assim, deslocam parte do esforço da esfera da vontade para a farmacologia.

Essa mudança produz efeitos que vão além da saúde. Restaurantes, supermercados, indústrias alimentícias e empresas do setor de bem-estar já começam a adaptar estratégias diante da perspectiva de consumidores que comem menos e modificam seus padrões de consumo.

O impacto econômico promete ser tão relevante quanto o clínico, afinal, potencial efeito cancerígeno do uso das canetas emagrecedoras ainda tardará a ser demonstrado.

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Existe ainda uma dimensão cultural menos evidente. O filósofo Byung-Chul Han sustenta que vivemos na sociedade do desempenho, em que cada indivíduo se torna responsável por administrar continuamente o próprio corpo e sua produtividade. As canetas emagrecedoras introduzem um elemento novo nessa lógica: parte desse gerenciamento passa a ser compartilhada com a tecnologia.

Seria precipitado afirmar que estamos diante do fim da disciplina.

Exercício físico, alimentação equilibrada e saúde emocional continuam indispensáveis e com aderência crescente, especialmente entre a população jovem. Mas talvez estejamos assistindo ao início de uma transformação silenciosa: a passagem de uma sociedade que exigia autocontrole permanente para outra em que a ciência começa a assumir tarefas antes atribuídas exclusivamente à força de vontade.

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Se isso representa progresso ou uma nova forma de dependência tecnológica, apenas o tempo responderá.

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