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VÍDEO: o mundo sob o olhar de Aidir Parizzi

Com a paisagem de Kiev, na Ucrânia, ao fundo: ele visitou mais de cem países no planeta

Aos 19 anos, em 1991, o santa-cruzense Aidir Parizzi Júnior empreendia aquela que seria a sua primeira incursão internacional: por terra, chegou até a divisa entre o Brasil e a Bolívia, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e de lá se dirigiu, posteriormente, até Cuzco e Machu Picchu, nos Andes peruanos.

Nunca mais parou de viajar. Ainda naquele mesmo ano, cruzava o continente europeu, decidido a conhecer a Itália, terra de seus antepassados; a Grécia, e outras paisagens decisivas na história da humanidade. E em abril de 1993, ao embarcar em Buenos Aires rumo a Moscou, na Rússia, protagonizava, com apenas 21 anos, uma aventura que viria alterar para sempre o curso de sua própria história de vida. Era apenas para ser o tempo de frequentar um estágio na área de Engenharia, mas as experiências vivenciadas praticamente determinaram a sua trajetória profissional.

Muito mais do que viajar pelo mundo, o que Aidir Parizzi Júnior, em vias de completar seus 50 anos, protagonizou foi uma gradativa ampliação de olhar cultural sobre as realidades que visitou. Três décadas de andanças depois, reúne as lembranças e as reflexões sobre esses percursos em seu primeiro livro, Mar incógnito, que acaba de ser lançado pela editora porto-alegrense BesouroBox.

Para os leitores da Gazeta do Sul, os relatos de Aidir tendem a soar ainda mais deliciosos e nostálgicos. Desde 2019, ele passou a compartilhar algumas de suas crônicas aqui no Magazine, caderno de final de semana. Atualmente, assina a seção “Pelo Mundo”, na página 2 do suplemento, convidando os leitores, a cada edição, a conhecerem um país, uma cidade ou uma região dos mais diversos continentes.

E Mar incógnito oferece em especial um recorte das mais de cem nações que Aidir já visitou. Na obra, na página 160, ao apresentar Catmandu, no Nepal, anuncia que se trata do centésimo país no qual colocava os pés. E tudo começara em Santa Cruz do Sul, sob o incentivo e a inspiração de seus pais, seu Aidir (in memoriam) e dona Marilia, aos quais o seu primeiro livro é dedicado.

Aidir no centro de Florença, a capital do Renascimento, uma de suas cidades preferidas

Por sinal, a terra natal está sempre referida, ainda que ele hoje seja um cidadão de três nacionalidades (brasileiro, italiano e estadunidense) e esteja radicado em West Midlands, na Inglaterra, ao lado da esposa Nina e dos filhos Andrew e Beatrice. Executivo de uma multinacional britânica, em demandas profissionais deslocase para compromissos junto a diferentes nações, e já residiu em oito países, de três continentes.

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Leitor voraz de obras literárias e, naturalmente, também de relatos de viajantes, Aidir firmou um estilo muito pessoal de reflexão sobre os lugares que visita. Além de se informar e de se familiarizar previamente com o contexto histórico e cultural de cada região que conhece, realiza mergulho imersivo no ambiente do cotidiano, dispondo-se a perambular pelos lugares que a população local frequenta, e visitando museus, mercados públicos, espaços religiosos de todas as expressões de fé, bairros e locais identificados com grandes líderes ou expoentes das mais variadas áreas. A partir da observação do cotidiano, e das conversas com pessoas de todas as extrações sociais, Aidir firma seu olhar afetivo sobre aquela realidade.

Em cada relato de Aidir, o leitor se depara, ele próprio, com a expressão que dá nome ao título do livro, e que o autor refere ter lido na estação de metrô de Lisboa: “Mare Incognitum”, frase tão cara aos navegadores portugueses. Esse “mar desconhecido”, mar não cogitado, que os desbravadores enfrentaram, de certo modo é o mesmo que cada ser humano carrega dentro de si: o recôndito, o não conhecido. E que Aidir, com suas ponderações e suas reflexões, ajuda a iluminar, a desbravar.

MAR INCÓGNITO, de Aidir Parizzi. Porto Alegre: BesouroBox, 2021. 244 p. R$ 54,90.

Confira um vídeo exclusivo enviado a partir de Londres para esta matéria:

EM PRIMEIRA MÃO
O Magazine antecipa, em primeira mão, por generosidade e cortesia de Aidir Parizzi Júnior, o texto de abertura de seu livro Mar incógnito, que acaba de ser lançado pela BesouroBox. É um convite a que o leitor possa ter uma ideia do conjunto da obra, que em Santa Cruz do Sul pode ser adquirida na Livraria e Cafeteria Iluminura (e também pelo site da editora). Na próxima semana, o Magazine retoma nesta página os relatos exclusivos das andanças de Aidir “Pelo Mundo”, então com o texto sobre Macau, na China, já anunciado na edição de sábado passado.

Mapas e descobertas
Aidir Parizzi Júnior
Exclusivo para o Magazine
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“Amor mi mosse, che mi fa parlare” (Dante Alighieri)

O sol ainda dormia em Lisboa quando entrei na estação de metrô (Parque), a caminho do aeroporto. No silêncio da plataforma vazia, admirava um mapa da época dos descobrimentos, pintado ao longo de toda a extensão da parede de azulejos. Uma carta marítima, sem bordas e limites além da costa portuguesa, com o mar se perdendo no infinito. Sobre aquele oceano azul-escuro, li duas palavras que me pareceram mágicas: Mare Incognitum.

Como naquela carta geográfica, os mapas da realidade cultural e filosófica que recebemos estão sempre incompletos. Falta uma referência, uma rota alternativa ou até mesmo algum lugar fundamental. Cabe a nós completá-los, corrigi-los ou simplesmente descartá-los. Outras vezes, nos damos conta de que estão completamente errados, nos fazendo singrar em território desconhecido, quem sabe jamais descrito, restando a alternativa de criar os próprios mapas, ou velejar à deriva.

Praça do Palácio de São Petersburgo, na Rússia, um dos tantos lugares especiais visitados pelo autor de Mar incógnito

Viver é navegar em território não cartografado, repleto de ris co e incerteza. Ao mesmo tempo, nos apresenta um mar infinito de possibilidades, onde tudo pode existir e acontecer. É um oceano desconhecido, até o momento em que nos desgarramos da segurança da terra firme, quando então passamos a enxergá-lo e descrevê-lo, com seus perigos, encantos e descobertas, sempre ilimitadas enquanto estivermos em movimento.

Nossos rumos estão em constante e acelerada evolução, por rotas cada vez mais fluidas, dinâmicas e complexas. Temos, contudo, faróis e uma bússola, nossos princípios e salvaguarda que devem seguir imutáveis. Equivalente aos clássicos da literatura, a essência permanece, ainda que em algumas ocasiões pareça diluída em constantes transformações. Essas referências vitais, blocos de fundação da natureza humana, por vezes, não figuram nos mapas que recebemos.

Por que, então, escrever sobre essas experiências e descobertas? Para encontrar um refúgio no passado? Para tentar chegar a alguma verdade? Para esquecer algo? Para gravar conhecimentos, pensamentos e entender sentimentos e emoções? O conhecimento sem reflexão sucumbe nas falhas das sinapses, como ondas na rebentação. Da mesma forma, o saber sem amar nos levaria às águas turbulentas do desespero diante de nosso humano e inevitável declínio. Amor e reflexão transformam informação e experiências no vento em sabedoria.

Escrevo na esperança de que seja uma maneira mais organizada e efetiva de transmitir descobertas, permitindo a quem navega que conheça melhor os seus mapas e encontre os tesouros do autoconhecimento. Ao nos entendermos melhor, abrimos as portas para uma relação harmônica com os demais marinheiros e seus mapas, fazendo destinos e paisagens mais deslumbrantes para nós e para os outros. Esse parece ser o real propósito da jornada.

Nas tempestades dos períodos de descobrimento, vivemos contrastes, dúvidas filosóficas e sentimentos que assolam a alma. São forças que parecem estar além do nosso controle. Amplificadas em momentos de solidão, nos fazem pensar que esse aprofundamento só causa sofrimento e dor. E assim, nos tentam a desistir, chamando por terra firme.

Não seria sábio sugerir que determinados exemplos ou caminhos devam ser seguidos. Somos nossos próprios timoneiros. Descobertas, como destinos geográficos, são apenas o final de muitas rotas possíveis e inéditas em um mar incógnito. Nossa cartografia, única e inédita, é que nos faz maiores do que nossa frágil e efêmera existência.

Escrevo para Beatrice e Andrew, que diariamente me ensinam novas correntes, mudando minha vida para melhor. Seguem seus próprios caminhos e saberão enxergar muito além das palavras. Se, ao menos por um segundo, estas águas trouxerem ao leitor algum sentimento ou inspiração, terá ele navegado um pouco em mim, e eu outro tanto nele.

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