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GISELE SEVERO

O silêncio nas relações: o que não se diz também fala

Foto: Freepik.com

Vivemos cercados por palavras. Elas atravessam telas, chegam rápidas, preenchem espaços, mas nem sempre alcançam o essencial. Porque, nas relações humanas, não é a quantidade do que se diz que sustenta o vínculo, é a verdade que conseguimos sustentar dentro do que é dito. E, sobretudo, dentro do que permanece em silêncio.

O silêncio nunca é apenas ausência. Ele respira entre duas pessoas, ocupa lugares invisíveis, carrega emoções que ainda não encontraram forma. Às vezes, ele acolhe. Outras vezes, ele pesa. Há silêncios que são pausa, tempo de elaboração, espaço necessário para que o afeto se organize, um movimento que dialoga com a capacidade de contenção descrita por Wilfred Bion, onde sentir precede dizer. Mas há também silêncios que endurecem, que evitam, escondem aquilo que, por medo, não ousa existir em palavra.

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O que não é dito não desaparece. Apenas muda de lugar. A psicologia nos mostra que emoções não simbolizadas buscam outras formas de expressão. Segundo a American Psychological Association, aquilo que é evitado na comunicação tende a reaparecer como tensão, afastamento ou até mesmo no corpo. O silêncio, quando deixa de ser escolha e se torna defesa, transforma-se em distância,  uma distância que não se mede em metros, mas em ausências sentidas.

Aprendemos, ao longo da vida, maneiras distintas de nos vincular. Na teoria do apego, proposta por John Bowlby, o silêncio pode ser uma forma de proteção: não digo para não me expor, não peço para não me frustrar, não mostro para não depender. Mas toda proteção, quando excessiva, cobra um preço e esse preço costuma ser a perda da intimidade.

Há também um equívoco silencioso que atravessa muitas relações: a crença de que o outro deveria saber. Saber o que sentimos, o que esperamos, o que nos falta. Como se o amor dispensasse tradução. No entanto, como nos lembra Aaron Beck, são justamente essas expectativas não verbalizadas que alimentam interpretações distorcidas e ampliam desencontros. O que não é dito não pode ser compreendido, apenas imaginado.

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E o imaginado, quase sempre, se afasta daquilo que é real. Existem relações onde o silêncio deixa de ser pausa e se torna regra. Não há mais confronto, mas também não há encontro. Não há conflito, e tampouco há profundidade. O vínculo segue, mas esvaziado de presença. Porque intimidade não se constrói apenas com aquilo que é leve de dizer, mas, principalmente, com aquilo que exige coragem para ser revelado.

Falar é um ato de risco. É atravessar o medo de não ser acolhido, de não ser entendido, de não ser correspondido. Mas é também o único caminho possível para que duas subjetividades, de fato, se encontrem.

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Talvez o maior desafio das relações não seja aprender a dizer mais, mas aprender a dizer o que importa, antes que o silêncio, aos poucos, diga por nós aquilo que já não conseguimos mais sustentar.
Porque, no fim, o silêncio também fala. E quando ele se prolonga demais, costuma falar de ausência.

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