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LUÍS FERNANDO FERREIRA

Olhar armado, coração desarmado

Após a última e um tanto cansativa quinta-feira de 2021 (em que ainda perdemos Lya Luft), gostaria de agradecer a todos os que acompanharam os textos semanais que escrevo, desde abril, na Gazeta do Sul. Que se manifestaram por mensagens ou pessoalmente, com elogios, observações ou sugestões. Tive momentos gratificantes e até comoventes. Ainda lembro do dia em que meu chefe, o Romar, disse que tinha “um desafio” para mim. E, de fato, escrever um artigo de opinião todas as semanas, sobre todo tipo de assunto, é sempre um desafio e uma experiência nova. Como não ser repetitivo? Como saber o que interessa ou não ao leitor? Nunca temos certeza, mas é preciso escrever.

Se eu tivesse de recomendar um “lema” ou algo que o valha para 2022, provavelmente seria esta frase que li há muitos anos, em um conto do escritor catarinense Deonísio da Silva: “Analisar o mundo com olhar armado e coração desarmado”. É uma fórmula curta, mas acho que diz o necessário: será preciso “armar o olhar” para enfrentar o ano que começa, para nunca mais ser enganado por oportunistas, ou pelo menos não ser enganado com tanta frequência. Também para enxergar uma mentira e conseguir reconhecê-la pelo que é: apenas uma mentira, e não uma “verdade alternativa”.

Ainda marcados pela pandemia, esse transtorno que parece nunca se resolver totalmente, o melhor é ficar alerta e não desprezar potenciais riscos. Lembrando o tão comentado filme da Netflix, aquele, que em 2022 nós saibamos “olhar para cima” quando o momento exigir. Porque se estivermos realmente dispostos a enxergar, é possível que não gostemos do que vamos ver, mas não existe outro caminho em situações de crise.

E “desarmar o coração” para lidar com o contraste de opiniões de forma civilizada, aceitar visões diferentes e entender que quem discorda de você não é um inimigo a ser abatido. É uma ideia que pretendo carregar comigo em 2022, mesmo que seja menos simples do que parece. Lembrando ainda Deonísio da Silva, autor hoje pouco lembrado, disse ele que tudo o que fazemos interfere na engrenagem do mundo. Não é nenhuma pretensão absurda, é apenas a dinâmica das coisas. Toda ação de uma pessoa, de algum modo, vai ocasionar outras ações, decisões e pensamentos, com desdobramentos imprevisíveis.

Que sejam pensamentos nobres, portanto.

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