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GILBERTO JASPER

Aulas de amizade

Todas as quintas-feiras me reúno com quatro amigos em algum boteco de Porto Alegre. Acho que faz uns três anos que fundamos o que informalmente denominamos a “Confraria dos Pinguços”. Os integrantes do grupo são todos ligados à comunicação: tem jornalista, fotógrafo, arquiteto especializado em design e até professor de Jornalismo. É um grupo de veteranos em suas respectivas áreas de atuação.

Confesso que cada reunião é uma espécie de terapia. Lá, como na maioria dos encontros masculinos, debochar da barriga saliente ou da falta de cabelos não gera briga. Pelo contrário. Rende boas gargalhadas e comparações que, quase sempre, acabam em avacalhações temperadas com boas risadas.

Um dos principais passatempos da galera grisalha é debater a eficácia de determinados medicamentos, terapias, além da troca de experiências referentes a médicos, terapeutas e outros especialistas em saúde. A atualização semanal inclui, ainda, atualizações permanentes sobre as dores da semana. Artrose, torções, labirintite e sofrimentos físicos em geral rendem acaloradas trocas de palpites.

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A cada semana vamos a um lugar diferente. Todos os integrantes da confraria podem escolher o local, sem restrições, com democracia. As exigências básicas do local a ser indicado devem envolver cerveja em garrafa – mas também pode ter chope –, comida em porções generosas para partilhar com todos e aparelhos de tevê bem visíveis. Isso permite o sadio hábito de torcer pelo time do coração e “secar” os adversários. Ou seja, é um Gre-Nal permanente.

A “terapia etílica” obriga que se ouça inúmeras vezes a mesma história. Coisa, aliás, bastante comum quando se trata de um grupo que acolhe integrantes do chamados “50+”. Sem falar que a maioria, na verdade, pertence ao grupo “60+”.

Por mais conhecido que seja o “causo” ou episódio pitoresco, jamais se ouvirá expressões como “essa tu já contou”, “de novo este papo?” ou “tu tá ficando caduco, heim? É a quinta vez que tu conta a mesma coisa!”

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Ter a liberdade para falar sem freios, rodeado de amigos de uma vida toda, não tem preço. Muita gente mantém confrarias integradas pelos mais variados motivos de proximidade. Às vezes reúne antigos colegas de classes escolares. Noutras, parceiros de trabalho ou afetos que conquistamos ao longo da vida.

São esses personagens e essas recordações que fornecem o “molho” da vida, munição que permite driblar as agruras impostas pela idade, saúde, agruras do cotidiano e, em muitos casos, o abandono que idosos sofrem.

Muitas vezes meus filhos fazem uma pergunta óbvia:

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– Pai, me diz uma coisa: vocês ainda têm assunto para tantos e tão frequentes encontros?

Costumo responder que, como comunicadores, informação temos de sobra, além de muita experiência e histórias pitorescas vividas em redações de rádio, jornal e TV. Sem falar da trajetória de um dos integrantes que até hoje milita no magistério. A cada semana, temos uma aula de amizade!

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