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Os desafios do diagnóstico de autismo em adultos

Ex-morador de Santa Cruz do Sul, João Eduardo recebeu o diagnóstico no mês passado, aos 28 anos | Foto: Neca Magalhães Braz/Divulgação

O Dia Mundial de Conscientização Sobre o Autismo é celebrado nesta sexta-feira, 2. A comemoração internacional foi aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007, para aumentar a consciência e a disseminação de informações sobre o tema. Conforme avançam os estudos acerca do transtorno do espectro do autismo (TEA), cada vez mais adultos têm recebido diagnósticos tardios.

O autismo é marcado, em geral, por distúrbios nas interações sociais, dificuldades na comunicação e questões comportamentais, tais como ações repetitivas. O transtorno tem diversos níveis e uma ampla gama de comportamentos, por isso é considerado um espectro. Como os sintomas são facilmente confundidos com outras condições, o diagnóstico correto é difícil, especialmente na fase adulta do paciente.

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Em Candelária, o bacharel em Ciência da Computação e desenvolvedor de software Gabriel Felipe Huwe, de 25 anos, recebeu o diagnóstico depois de adulto. “Minha mãe é professora e, ao participar de uma palestra sobre autismo promovida pela associação Pandorga, ela percebeu que muitas das características se aplicavam a mim”, conta.

O contato com eventos das associações pró-autismo Luz Azul, de Santa Cruz do Sul, Pandorga, de São Leopoldo, e Mandala, de Candelária, auxiliariam o jovem a entender melhor o espectro. Gabriel conta que tem problemas para entender as pessoas. Fica exausto após interações sociais, quase sempre ensaiando as conversas antes de elas acontecerem para conseguir conversar. “Quando estudante, tive muitas dificuldades com apresentações de trabalhos”, lembra.

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Gabriel: um alívio ao se descobrir autista | Foto: Divulgação

O jovem tem problemas com sons altos inesperados, razão pela qual utiliza fones de ouvido tanto na rua quanto em casa. Desde a infância, tem ecolalia (a repetição de palavras ou frases ouvidas), movimentos repetitivos e sensibilidade a toque e contato físico. Nas associações, Gabriel conheceu pessoas diagnosticadas que agem de forma parecida, o que o instigou a buscar seu próprio diagnóstico.

O candelariense acha que são comuns os casos de adultos com autismo que jamais foram diagnosticados. “Saber que tenho autismo foi um grande alívio, pois agora sei que não há nada de errado comigo, apenas diferente. Não sinto mais a necessidade de ‘fingir’ ser normal, algo que me causava grande desconforto”, explica.

“Parecia que as pessoas não me entendiam”

Para o licenciando em Física João Eduardo de Magalhães Salvador, de 28 anos, o diagnóstico ocorreu apenas no mês passado. Ele reside atualmente em Pelotas, mas morou a maior parte da vida em Santa Cruz do Sul. Seu primeiro contato com o TEA aconteceu após o nascimento do sobrinho.

“Com o diagnóstico dele, começou uma corrida por informações sobre o que era autismo. E nesses estudos por parte da minha mãe, pai e meus também, descobrimos semelhanças entre o meu desenvolvimento e as características autísticas.”

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Apesar de não apresentar comprometimento no raciocínio lógico e na fala, nem dificuldades de aprendizado, João sempre escondeu a angústia que sente para compreender a comunicação com outras pessoas. O estudante odiava a escola e fazia poucos amigos, tentando ser invisível dentro da sala de aula. “Parecia que, quando falava, as pessoas não me entendiam, e que eu tinha que fazer um esforço enorme para entender o que os outros queriam me dizer.”

Para interagir socialmente, a saída era emular o comportamento das outras pessoas para ser aceito e ensaiar as conversas, o que se tornava extremamente cansativo e desencadeava ansiedade constante. “Para mim a maioria dos comportamentos e falas considerados normais são anaturais. Eu treinava sozinho na minha mente formas de falar, tinha conversas sozinho para tentar aprender como falar algo da melhor forma”, relata.

Durante a pandemia e fazendo terapia, ele percebeu que o comportamento obsessivo pelo autocontrole o atormentava. Com apoio do ex-namorado, resolveu buscar a confirmação. “Ele me disse uma frase que me fez considerar isso: ‘ser neurodivergente em um mundo projetado pra neurotípicos faz a gente se sentir constantemente inadequado, tentando fingir uma normalidade que não é saudável’.”

Após o diagnóstico, João se permitiu ser mais honesto com si mesmo, deixando a necessidade constante de fingir ou de se reprimir. Ele acredita que existem muitos adultos com autismo que ainda não foram diagnosticados, dado que a neurodiversidade ainda é um tópico consideravelmente novo.

Estatísticas

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em todo o mundo, a cada 160 crianças, uma tem autismo. A ONU estima que 1% da população mundial pode apresentar esse transtorno. Já segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, existe hoje um caso a cada 110 pessoas.

Dessa forma, estima-se que o Brasil, com 200 milhões de habitantes, tenha cerca de 2 milhões de autistas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não possui dados a respeito do tema. No entanto, entre as informações que serão pauta do Censo 2021 está o autismo. Assim que os dados forem computados, será possível ter uma ideia mais clara de quantos casos já diagnosticados existem no País.

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Vera Cruz

Por iniciativa do vereador Luiz Carlos Souza (PSB), Vera Cruz vai celebrar anualmente, em 2 de abril, o Dia Municipal da Conscientização do Autismo. O objetivo é promover eventos e atividades voltados à conscientização sobre os direitos dos autistas. O projeto de lei foi aprovado por unanimidade pela Câmara e sancionado pelo prefeito Gilson Becker.

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