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GILBERTO JASPER

Overdose de notícias negativas

Feminicídios em alta, violência contra as crianças se multiplica, homem que dormia em parada de ônibus é incendiado, motorista mata pedestres e foge sem prestar socorro, Brasil perde posições e corrupção aumenta, vandalismo causa bilhões em prejuízos pagos com dinheiro do contribuinte, golpes virtuais batem recordes.

Esse é um breve resumo do que lemos, ouvimos e consumimos todos os dias. “Notícia ruim… é notícia que vende”, reza um antigo adágio citado com frequência nas redações de rádio, jornal, televisão e de canais virtuais. Mas será que a realidade é mesmo assim?

Há muitos anos combato essa máxima, repetida à exaustão por chefes de jornalismo. Afinal, se o público é bombardeado majoritariamente com “notícia ruim”, 24 horas por dia, como seria possível auferir o comportamento se a situação fosse diferente?

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Já escrevi muitas vezes que não defendo a prática do “jornalismo cor-de-rosa”. Trata-se daquela política de comunicação de veículos comprometidos com políticos, governos e ideologias que só publicam conteúdos positivos e omitem tragédias, escândalos e informações negativas.

“O cérebro humano possui um sistema de detecção de ameaças que foi algo extremamente importante para a sobrevivência da humanidade ao longo de sua evolução. A exposição constante e repetida a notícias negativas ao longo das últimas décadas, no entanto, vem transformando esse sistema em um fator de risco significativo para transtornos mentais.”

É o que explicaram Camila Magalhães Silveira, psiquiatra do Hospital Sírio Libanês, e Guilherme Polanczyk, psiquiatra e professor da FMUSP, no programa CNN Sinais Vitais, apresentado por dr. Roberto Kalil. Segundo Polanczyk, “as situações percebidas como ameaças desencadeiam uma série de reações no cérebro e no corpo humano”. O problema é a natureza contínua de más notícias. “O nosso cérebro não distingue o que é uma ameaça real, presente no ambiente onde se está, do que é uma ameaça irreal”, acrescentam.

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“Essa exposição constante a conteúdos negativos representa um fator de risco relevante para transtornos mentais em geral, com destaque para a ansiedade”, afirmam. O impacto, contudo, varia conforme as características individuais de cada pessoa. “Adultos com uma visão positiva da vida ou com maior capacidade de contextualizar os eventos tendem a ser menos afetados, pois conseguem utilizar o raciocínio para regular suas emoções”, argumentou Polanczyk.

A agressividade do noticiário fortalece a opinião de muita gente que defende a ideia de que “a ignorância é uma dádiva”. Como sempre, o bom-senso está no equilíbrio – jamais nos extremos – e é preciso distinguir a obsessão pela busca de atualidade da importância de estar informado.

Ficar completamente alheio ao que ocorre à nossa volta é um convite aos golpes e à alienação.

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